Reflexão sobre a efemeridade marca pinturas em Exposição 20/20

A mostra celebra os 20 anos do Museu Vale e traz obras de 20 artistas nascidos ou moradores do Espírito Santo.

A tinta, o giz, o stencil e outros materiais nas mãos da artista plástica capixaba Andreia Falqueto ganha uma potência que torna suas obras repletas de emoções e reflexões. Ao participar da Exposição 20/20, que marca os 20 anos do Museu Vale, não seria diferente. Duas telas marcantes trazem para a mostra um traço que busca demonstrar a efemeridade dos dias atuais.

A primeira pintura, com dois homens sentados, intitulada “Viveram felizes por várias semanas”, da série Destroço, é feita em guache, acrílica, papel colado e pintado, giz pastel seco e óleo sobre tela, nas dimensões 180 x 235 centímetros. De acordo com a autora, a concepção desse trabalho adveio da junção de uma frase do livro “O mapa e o território”, e diversos elementos do cotidiano da artista, reais ou que fazem parte de uma história a ser contada, abordando como tudo é efêmero nos dias atuais.

“O próprio destroço arquitetônico tem um grande papel nessa reflexão, pois de fato se constrói e destrói com muita facilidade. Nos tempos passados, os edifícios eram feitos para durar, se pintavam desenhos nas paredes ou afrescos. Devido a muitos fatos, isso não é mais uma tradição, sendo o revestimento substituído por papeis de parede, devido ao baixo custo e fácil aplicabilidade. Dessa mesma forma, nós também somos descartados”, explica Andreia.

Já a segunda tela, de 180 x 220 centímetros e chamada “Tantas formas diferentes de pureza”, esboça cinco rapazes e o fundo de azulejos, e compõe também a série Destroço, mas desta vez usando técnica com guache, acrílica e óleo sobre tela.

Nessa pintura a artista vai ainda mais fundo na carga emotiva. “Somos destroços de outros seres, nossos genitores. Ocupamos cidades, um espaço que é constantemente construído e reconstruído. Através disso, também passamos por esse processo de autofagia, que leva a mutilar-nos, marcar nossa pele, como forma de estar vivo, e a mesma é marcada pelo tempo. Além disso, somos frágeis. Da mesma forma que uma parede se destrói, a vida se esvai. Não somos muito resistentes a ataques físicos ou emocionais”, explica.

Nessa obra, Andreia aborda dois contextos visuais, um derivado de rapazes se divertindo sem compromisso, sem maldade, e outro de uma parede cujo revestimento está em ruína. A junção desses elementos, somados à fluidez, à cor e à distração causada pela ideia de flores falsas, constrói uma realidade que permeia a sociedade que vive muitas vezes em uma bolha.

Com um processo de criação lento e cuidadoso, a artista, que hoje vive na Espanha, onde cursa doutorado, dividiu seus cinco meses de trabalho nessas pinturas, ora fotografando, ora compondo a imagem com uma colagem digital no Photoshop, ora pintando. “Meu objetivo foi unir a ideia de destroçamentos urbanos com crescimento e morte humana”, detalha.

Exposição 20/20 – Museu Vale – 20 anos

Frequentadora dos seminários internacionais promovidos pelo Museu Vale, Andreia revela que sua participação agora nesta exposição é algo muito significativo. “Ter isso em minha história me dá força e me deixa muito feliz com meu trabalho, a produção e o local que acolheu a mostra e divulgou os artistas. É uma oportunidade incrível de participar com tantos outros colegas da consolidação da minha carreira”, comenta.

Serviço

Exposição 20/20
Até 25/02/2019
Terças a sextas, das 8h às 17h, sábados e domingos, das 10h às 18h
Em janeiro, terças a domingos, das 10h às 18h
Entrada gratuita
Museu Vale – Antiga Estação Pedro Nolasco, s/n, Argolas – Vila Velha/ES
Informações: (27) 3333-2484

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será divulgado. Campos obrigatórios estão marcados com *