Do mar gélido às plantas naturais: temáticas diferentes conversam na Exposição 20/20

A mostra celebra os 20 anos do Museu Vale e traz obras de 20 artistas nascidos ou moradores do Espírito Santo.

Das águas congeladas captadas em fotografia de uma experiência extrema fora da terra natal, até o uso afetivo de plantas e pinturas que resgatam raízes de uma infância no interior do seu próprio país. Aquilo que fala mais alto, ainda que em determinado momento da vida, inspirou o fazer artístico de dois talentos, Miro Soares e Luis Filipe Porto, presentes na Exposição 20/20, que marca os 20 anos do Museu Vale.

Intitulado The Sea of Ice (O Mar de Gelo), o díptico fotográfico de Miro, com 100 x 150 centímetros cada imagem, apresenta uma paisagem do Mar Báltico durante o inverno, registrada no Golfo de Riga, na Letônia. “Ao apresentar as águas congeladas e a margem deserta, o trabalho exibe uma visão exótica do contexto do inverno rigoroso do norte da Europa, algo muito diferente do que estamos habituados no nosso ambiente familiar do Brasil”, explica o artista.

Exposição 20/20 – Museu Vale – 20 anos

A obra faz parte de uma série de fotografias e vídeos chamada Sea Studies, registradas em vários pontos da costa da Lituânia, Letônia e Estônia em 2010, 2011 e 2016, que realiza um retrato do Mar Báltico e de sua região ao longo das estações do ano.

Além do resultado visual bastante fora do comum para moradores de um país tropical, o processo de produção das fotos é quase inimaginável. Consistiu de um extenso vencer de desafios, que passou por inúmeras e longas viagens, temperaturas de -15ºC, horas de caminhadas, e o congelamento do circuito da câmera. “De um modo geral, foi uma experiência rica ter que adaptar o meu processo de criação diante dessas limitações e aprender a funcionar como indivíduo e profissional nesse ambiente hostil”, conta Miro.

Finalizadas as capturas de imagens, o trabalho teve continuidade com a criação de um jogo de composições formadas por múltiplas imagens. Nessa obra especificamente, duas fotografias foram colocadas lado a lado com o objetivo de privilegiar a horizontalidade do litoral.

Dentro da mesma mostra, saindo da intensidade do mar gélido, quase monocromático, captado pela precisão do clique fotográfico de Miro, uma conversa se estabelece com o aconchego verde de devaneios botânicos vividos no próprio quintal de casa e esboçados nos desenhos livres e combinados com pinturas e plantas do artista Luis Filipe Porto.

Exposição 20/20 – Museu Vale – 20 anos

Trata-se da instalação Perenifólio, que significa folha persistente. “É um site-specific ou arte ambiente composto por pinturas e desenhos que, justapostos, se expandem para além dos limites do suporte, conectando-se e revelando uma cartografia íntima onde as linhas se transformam em caminhos percorridos, assim como trajetos poéticos de meus devaneios botânicos, interesses místicos e desejos pessoais”, explica Luis.

De acordo com o artista, a obra retrata um espaço particular, utópico, responsável pela construção de raízes e referências do mundo físico e simbólico. “A escolha do que representar é um mergulho nas memórias do quintal da minha infância. A grande maioria das pinturas são óleo sobre papel, mas também uso técnicas como aquarela, lápis de cor, colagem, aplicações de folhas de ouro e o uso de plantas naturais”, comenta. O processo de criação deste capixaba que mora em São Paulo levou cinco meses, além uma semana de montagem.

Participantes dos seminários internacionais do Museu Vale, para ambos expositores o espaço tem grande relevância em suas formações profissionais. “A medida que estudava Artes na universidade, eu tinha a oportunidade de ver exposições de artistas estabelecidos. Isso foi um privilégio, visto a escassez de oferta cultural desse nível no Estado”, esclarece Miro. “Morei alguns anos em Jardim América, bairro vizinho ao Museu. Fui público assíduo. O Museu sempre abrigou exposições importantes, que eu não teria possibilidades de conhecer”, conta Luis.

Para Miro, fazer parte da Exposição 20/20 é uma oportunidade de projeção nacional. “Fico muito contente de participar, porque o Museu Vale é não apenas uma referência para a arte contemporânea no Estado, mas um espaço de visibilidade nacional. É uma ótima oportunidade de compartilhar o trabalho com quem está perto, ao mesmo tempo em que ele pode alcançar públicos fora do Estado”, finaliza.

Serviço
Exposição 20/20
Até 25/02/2019
Terças a sextas, das 8h às 17h, sábados e domingos, das 10h às 18h
Em janeiro, terças a domingos, das 10h às 18h
Entrada gratuita
Museu Vale – Antiga Estação Pedro Nolasco, s/n, Argolas – Vila Velha/ES
Informações: (27) 3333-2484

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