Com liberdade de criação, artistas vão da física quântica à escravidão em Exposição 20/20

A mostra celebra os 20 anos do Museu Vale e traz obras de 20 artistas nascidos ou moradores do Espírito Santo

Diferentes técnicas e temáticas abordadas pelos artistas da Exposição 20/20, que marca as duas décadas do Museu Vale, refletem um fio condutor marcante da mostra: a valorização da liberdade de criação dos profissionais selecionados. Tamanha é a diversidade dos talentos capixabas que obras vão do desenho à escultura assemblage, retratando da física quântica à escravidão.

 

Três dos expositores deixam isso bem evidente. Re Henri, com a obra Observatório, um conjunto assemblage de esculturas, faz um estudo sobre a materialidade, ressignificando objetos do dia a dia, como porta-papel toalha, peneira, escorredor de prato e bolas de gude, feitos quase sempre de inox, acrílico e vidro. “Faço máquinas que flertam com o universo da astronomia, da física quântica, da cosmologia e dos fenômenos celestes. O fundo conceitual do trabalho é a psicanálise e traço uma relação entre esses dois universos”, explica.

Obras de Re Henri

Fascinada pela teoria do buraco negro, uma dimensão do universo onde não se sabe para onde vai, a artista deixa no meio da sua obra um espaço escuro e vazio, que representa o só sentir angústia e nada mais. “Observatório é um convite para observar a natureza, a condição de finitude e a factualidade das coisas”, comenta.

 

Re Henri conta que seu processo de criação é muito intuitivo e que o objeto está pronto quando tem um equilíbrio autossustentável, revelando máximas da física como “a matéria do tempo é a eternidade” e “os corpos tendem ao buraco”. Primeiramente, ela passa horas dentro de lojas buscando objetos que lhe despertem interesse. Depois, começa a construir e sente como se o objeto fosse falando com ela. “Não uso cola. Quando tudo se equilibra, está pronto. É como um poema simples”, esclarece.

 

Ponto marcante nas esculturas da artista é o uso das muitas bolinhas de gude. Segundo ela, é uma questão de infância, uma memória que remete ao universo da criança, do brincar, do fascínio estético e da translucidez, que lembram os corpos celestes. “São tentativas infantis de lidar com fenômenos muito complexos. O limite de construir algo que corresponde a essa expectativa”, comenta.

Antianatomia por Luciano Feijão

Voltando-se mais para um fato histórico, o artista Luciano Feijão, com sua obra Antianatomia, desenha com carvão, giz pastel seco, guache branca e estilete as solas de dois pés de dois metros de altura, a maior das suas obras até o momento. “Represento uma parte do corpo que é tão marcada por situações de sofrimento, como a da diáspora africana em direção ao Brasil, mas que fica escondida. Marquei muito a textura da sola dos pés propositalmente por ser um terreno que guarda muita história, onde as marcas de violência estão evidentes, mas não aparecem no dia a dia”, explica.

 

Inspirado no pintor alemão Gerhard Richter, Luciano buscou desenvolver sua obra em papel filtro, com muita métrica, massa, densidade e textura, levando três dias para concluir cada quadro. “Foi um desafio, porque, apesar de ser uma releitura de uma obra minha anterior e de fazer parte de um conjunto de criações, nunca tinha feito um desenho com uma dimensão tão grande”, desabafa.

 

De extensas dimensões físicas e artísticas também é a obra primorosa do mineiro quase capixaba, por morar há mais de 30 anos em Vila Velha, Hélio Coelho. Experiente, o artista traz uma pintura envolvente, intitulada Pele, que, segundo ele, representa documentos da vida.

Pele por Hélio Coelho

“O olhar do espectador passeia por construções de ritmo ágil até deter-se em detalhes de um roteiro de labirintos, que sinalizam várias direções. O olhar se arrasta para o interior da superfície e encontra os pequenos vãos que filtram as cores e dão passagem para a luz”, explica.

 

Para o trio expor no Museu Vale é significativo. Hélio diz-se, resumidamente, como lhe é comum, privilegiado, enquanto Luciano acredita que a Exposição 20/20 o insere em um circuito artístico importante. Já Re Henri revela a relação afetiva que tem com a mantenedora do Museu. “Meu pai trabalhou uns 40 anos na Vale e a empresa permeou meu imaginário infantil. Observatório é uma homenagem a ele, que faleceu há três anos. O Museu Vale era inalcançável para mim, pois nomes muito grandes expunham. Era utópico pensar estar lá dentro. Por isso vi a exposição como algo muito corajoso e fresco, que não teve um tema único. Estabeleceram um fio, mas sem impor e nos deram liberdade de criação”, finaliza.

 

<h3>Serviço</h3>

Exposição 20/20

Até 25/02/2019

Terças a sextas, das 8h às 17h, sábados e domingos, das 10h às 18h

Em janeiro, terças a domingos, das 10h às 18h

Entrada gratuita

Museu Vale – Antiga Estação Pedro Nolasco, s/n, Argolas – Vila Velha/ES

Informações: (27) 3333-2484

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