7 dez 2010

A incrível história de amor da mulher com pênis e do homem com vagina

Publicado às 23:23 | Postado por Daniela Künsch

Imagine a lenda de amor perfeita. Uma linda mulher vive uma vida de abusos e desrespeito e chega a acreditar que o amor seria apenas para aqueles que estão fora do mundo particular que ela criou ao seu redor. De repente, por acaso, ou melhor, pela fome, um pedido de pizza muda todo esse destino imutável. O entregador não traz só a massa assada de palmito gigante. Ele em si se torna o perfeito príncipe que não só tirará a mocinha da miséria de compaixão, como também lhe dará a chance de criar uma própria história de amor, uma família…

Perfeito filme de Hollywood, não é? Filme pra pegar de assalto aquele público “maneiro-gente-de-bem” da comédia romântica americana (ou até mesmo você que escondido viu “uma Linda Mulher” três vezes e chorou… Ok, confesso, eu vi…). Você já até imagina aquelas amigas escovadas, de cintura fina, sentadas na cadeira do cinema, enquanto os namorados de canela fina e braços anabolizados fazem de conta que gostam pra garantir o dia de futebol com a rapaziada…

Programa bonitinho de família com direito a levar a vovó, não é? E se eu te dissesse que nessa história a única coisa diferente do seu habitué é que a linda mocinha loira tem um considerável Pênis e o príncipe encantado perfeito, que já vem no cavalo motorizado, tem uma senhora vagina entre as pernas de motoqueiro. O meu conselho? Ainda leva a sua avó, pois ela verá uma linda história de amor e o melhor: sem ser feita para mocinhas escovadas e marmanjos anabolizados.

“Elvis ‘e’ Madona”, filme lançado na noite de segunda no Vitória Cine Vídeo (o festival vai até o fim de semana, de graça, à noite, no Alvares Cabral. NÃO PERCA!), não é só uma história de amor. É um “objeto de estudo” de quão vasta e surpreendente pode ser a sexualidade humana. Na história, um travesti chamado Madonna (Igor Cotrim) encontra o amor nos braços do seu Homem, a lésbica Elvis (Simone Spoladore). E por mais que sua mente repressora possa estar ridicularizando esta situação não tão habitual, assista ao filme e descubra que ridicularizada será a teoria implantada em sua mente, desde os seus passos de bebê, que a expressão “casal” está presa em um único, exclusivo e limitado projeto de Hollywood. (Aquela “linda mulher” ainda tem muito o quê aprender).

This movie requires Flash Player 9

Abaixo segue o bate papo regado a muitas gargalhadas que este louco que vos escreve teve com o também maluco Igor Cotrim.

Miguel Filho – Primeiro vamos falar sobre o filme que fala das diferentes possibilidades da sexualidade humana…

Igor Cotrim – uma palheta incrível…

MF – e como este projeto contribuiu pra sua sexualidade? Teve uma mexida?

IC – Pra começar eu tenho uma irmã gêmea, uma irmã fêmea. Eu já dividi o útero com uma mulher. Na verdade eu já dividi vários úteros com mulheres… Opa! (gargalhada). Agora, o importante do filme é que ele não tem pretensão… Não é pra chocar, é só uma história de amor. Foi como aconteceu no Tribeca (Film Festival, festival americano de cinema)… (pausa para rir) Ou como eu chamei: “Traveca Film Festival” (gargalhada 2). Lá um cara falou a mesma coisa que um paraibano disse quando o filme foi transmitido aqui (fala imitando sotaque nordestino): “depois de dez minutos, caguei se era lésbica e travesti”. (gargalhada 3). É uma comédia com todos os clichês, mas com um casal que não é clichê.

MF – Então o contato direto, físico e psicológico, com o universo feminino não te amedrontou?(Igor teve que usar próteses de seios e unhas no dia a dia)

IC – Eu fui xingado na rua. Quando eu pegava táxi, já que eu fiquei um mês e meio com as unhas postiças, o taxista me olhava sempre feio. Chegava em farmácia e falava (engrossa a voz): vocês tem Gabriela (tipo de esmalte) (gargalhada 4). E só tinha quatro homens na farmácia… Não tinha uma mulher pra me atender (gargalhada 5).

MF – Você se sentiu em universo marginal?

IC – Legal isso. No filme, Elvis e Madonna não são do universo marginal. A minha travesti já fez pista, pornô, mas agora é uma… (foge a palavra)

MF – Uma lady?

IC – Isso, uma Lady Madonna. E vou te falar, Miguelito. Pra fazer essa travesti, eu observei muito mais mulher. Minha esposa, Natalie, teve que viajar e três amigas dela ficaram lá em casa. Me senti nas “Bruxas de Eastwick” (filme em que Jack Nicholson traça Cher, Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer), mas sem a parte bacana, porque eu não podia pegar ninguém (gargalhada 6). O Marcelo (Laffite, diretor do longa) também mudou muito no filme depois que eu entrei. Ele ia fazer com um travesti de verdade…

MF – Pois é, você venceu travestis genuínos nos testes de elenco.

IC – No For Rainbow (festival de filmes com temática gay, realizado no Ceará), travestis choraram de emoção e vieram falar comigo. Deve ter sido melhor do que o choro dos que perderam o papel e devem ter feito um trabalho na esquina contra mim… (gargalhada 7). Lá eu ganhei o meu primeiro prêmio Gay (faz pose de diva e gargalhada 8). Sério agora, se os travestis se sentem bem retratados, isso é o melhor elogio.

MF – E o filme estreia em uma época em que acaba de ocorrer um caso gritante de intolerância em São Paulo (um jovem foi espancado na Avenida Paulista, no dia 14 de novembro, por um grupo de adolescentes, por eles o considerarem gay).

IC – E foi gente bem de vida que fez aquilo. O problema é a criação. A maçã não cai longe da macieira. Falta cidadania, pelo amor de Deus. Quando eu vi a cena, aquilo foi assustador. Isso é idade média. (Falta total de gargalhada).

MF – Agora, mudando de pau pra cavaco, como foi ser praticamente um objeto de estudo público em A Fazenda (Igor participou da segunda edição do reality da Record. Não ganhou, mas foi indiscutivelmente o participante mais marcante da edição).

IC – Eu era o ombudsman do programa. O grilo falante incômodo. Porque eu falava tudo que eu achava errado. Um dia antes de eu entrar meu pai tinha visto o meu filme como travesti, eu entrei era meu aniversário. O que eu fiz? Caguei (gargalhada 9). Não é reality? Eu fui real o tempo inteiro. E graças a Deus eu recebo até hoje o carinho muito grande das pessoas.

MF – Na época, todos falavam praticamente só de você e, mesmo assim, não ganhou…

IC – Pena que eu não paguei uma empresa de telemarketing pro meu lado (gargalhada 10). Mas eu fiquei muito feliz da Karina ter ganhado (Karina Bacchi foi a campeã da edição). Ela é uma pessoa muito boa, brincava muito comigo. Tinha também o Mateus (Rocha) que era uma pessoa legal, mas aconteciam umas coisas muito engraçadas. Porque uma vez ele caiu e a gente junto caiu na gargalhada. Aí passa uma semana e ele vira pra mim: “Você riu de mim” (imita jeito do ator). Ele falava: “Igor, gentileza gera gentileza”. Eu tinha que responder: “É Mateus, mas Gente Lesa gera Gente Lesa” (gargalhada final).

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  • 08/12/10 - 16:06, deborah comentou:

    Adorei o enredo do filme e adorei o bate papo parece que ouvi o Igor falando tudo inclusive dando gargalhadas…muito bom!

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