As dificuldades de assumir-se gay após levar uma vida hétero

dificil-assumir-depois-vida-heteroConhecemos casos de conhecidos, colegas ou parentes que tiveram relacionamentos e filhos e após longos anos assumiram a sexualidade. Mesmo depois de levar uma vida heterossexual, é possível descobrir ou assumir a homossexualidade. Porém, na maioria das vezes, contar a verdade para a família costuma ser um processo doloroso.

Quando se ouve casos como esses, a primeira pergunta que surge é: se são gays, por que se envolveram em relacionamentos heterossexuais? Não existe uma resposta simples ou única para essa questão. Depende de cada um. A maioria manifesta sua homossexualidade na adolescência, porém, em alguns, isso acontece mais tardiamente.

Uma das razões para que a orientação sexual se revele somente na idade adulta consiste na dificuldade de autoaceitação. Esse é um dos problemas comuns entre os cerca de 50 integrantes do Homopater, grupo de apoio e orientação a homens e pais em relacionamentos homoafetivos. A maioria não se entendia como homossexual desde a adolescência. Alguns demoram a perceber ou a se reconhecer como homossexuais.

A forma negativa como a sociedade vê e trata os gays, apesar das transformações que vêm ocorrendo, é outro motivo que faz com que alguns reneguem a própria sexualidade por décadas. Os estereótipos e a falta de modelos com os quais se identificar também atrapalham.

Brigas e sofrimento

Ao contrário do que muitos pensam, a identidade sexual está mais ligada ao afeto do que à sexualidade. São a paixão e o amor por alguém do mesmo sexo que levam a pessoa a assumir sua homossexualidade. E não é nada fácil admitir essa nova identidade para a família, depois de anos vivendo como heterossexual.

A advogada Maria Berenice Dias, especializada em Direito Homoafetivo, presidente da Comissão Especial da Diversidade Sexual do Conselho Federal da OAB, explica que existe, de maneira recorrente, a tentativa de tirar a guarda dos filhos, de impedir as visitas, como forma de punição. Antigamente, por causa do conservadorismo, a orientação sexual do cônjuge influenciava nas decisões da Justiça, o que já não tem o mesmo peso nos dias de hoje.

Berenice também nota que é frequente, nos divórcios em razão da homossexualidade do cônjuge, um sentimento de raiva ainda maior do que nas outras separações. “A explicação é porque nessa situação não se pode competir, é um sentimento muito grande de ter sido enganado”, diz.

Se abrir o jogo para o marido ou a mulher é complicado, contar para os filhos sobre a homossexualidade costuma ser ainda mais delicado. O medo de ser incompreendido ou rejeitado faz com que esse momento seja adiado. Entretanto, a revelação deve acontecer o quanto antes. Quanto menos segredo, melhor. Quanto mais nova a criança souber, melhor para o seu desenvolvimento. Na adolescência, é sempre mais difícil falar.

Libertação e felicidade

Quem finge ser o que não é cria uma prisão para si mesmo. Sair dela não é fácil, mas parece ser um caminho inevitável, mesmo que demore muitos anos. “Não acho que as pessoas mudam, elas simplesmente são. Alguns homossexuais resolvem casar para atender a sociedade, para ter uma família e vão se mantendo até que se dão conta que não vale a pena. Tenho um cliente homossexual que ficou casado com uma mulher por 40 anos”, exemplifica a advogada Maria Berenice.

Para as novas configurações familiares que estão surgindo, em decorrência da diversidade sexual, a legislação começa a oferecer alternativas. Há casos no Brasil de pluriparentalidade, ou seja, em que a lei reconhece mais de um pai ou uma mãe para uma mesma criança. Na tentativa de fazer avançar a legislação, a advogada Maria Berenice coordena a proposta do Estatuto da Diversidade Sexual, lei de iniciativa popular para assegurar os direitos da população LGBT.

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