19/9/2010 às 15h42 - Atualizado em 19/9/2010 às 15h52

Gordinhas excluídas da moda se unem e exigem manequins GG no mercado

Estadão Conteúdo
Redação Folha Vitória

Foto: Agência Estado

Desfiles só com modelos gordinhas, confecções de números grandes renovadas, revistas especializadas, blogs e site de moda para quem veste GG, calendário só com fotos de mulheres com curvas avantajadas e até campanha para que lojas coloquem em suas araras peças modernas com números acima do 46. O mundo plus size vem ganhando força no Brasil, num movimento que bem poderia ser batizado de "orgulho fat".

Desfiles só com modelos gordinhas, confecções de números grandes renovadas, revistas especializadas, blogs e site de moda para quem veste GG, calendário só com fotos de mulheres com curvas avantajadas e até campanha para que lojas coloquem em suas araras peças modernas com números acima do 46. O mundo plus size vem ganhando força no Brasil, num movimento que bem poderia ser batizado de "orgulho fat".

"Depois do negro e do gay, agora é a vez do gordinho", diverte-se a professora de idiomas Sandra Ebener, autora do blog Mundo G Mais. "Após toda a discriminação no mercado da moda e beleza, estamos mostrando que podemos nos sentir bem e bonitas." Sandra - que tem 39 anos, é casada e mãe de dois pré-adolescentes - comemora essa onda, assim como muitas outras mulheres com manequins acima do 46, e que agora podem usufruir de uma moda que antes as renegava.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse público já representa metade da população adulta do País: 48% das mulheres e 50% dos homens estão com peso acima do padrão recomendado para uma vida saudável.

No entanto, todos os envolvidos diretamente na onda "orgulho fat" ressaltam com veemência que ninguém quer fazer apologia da obesidade. "A ideia é fazer com que essas pessoas passem a aceitar mais suas características e, ao mesmo tempo, adotem um estilo de vida saudável", avisa o jornalista Jeff Benício, que, por meio da sua editora Haz, especializada em títulos corporativos, criou com seu sócio o projeto Mulheres Reais: um mix de eventos e publicações para promover a inclusão da mulher GG no universo da moda.

O primeiro passo foi o lançamento, no ano passado, de um guia de moda com looks específicos para quem tem curvas avantajadas. Na sequência, veio um calendário-pôster com quatro modelos plus size vestidas como pin-ups. O de 2011 está em fase inicial de produção.

Ainda como parte do projeto, tem sido realizada uma série de desfiles para a divulgação de grifes especializadas em tamanhos maiores, batizados de Mulheres Reais Fashion Show. O último aconteceu no final de agosto, na Casa Portugal, e reuniu mais de 100 pessoas, entre clientes e empresários. Foi exibida a coleção de verão de quatro marcas que andam renovando a moda extra G: Palank, Miglon, Loony Jeans e Fique Linda Lingerie.

"Sem dúvidas, esse é um nicho de mercado ainda pouco explorado", afirma Jeff. "O projeto nasceu para chamar a atenção para essas consumidoras sempre ignoradas pela mídia e pela indústria da moda, que investe num padrão de magreza que não tem nada a ver com as curvas da brasileira."

Resgate da autoestima. Aos 34 anos, a administradora de empresa Samara Sant’Anaela, de 1,63 metro de altura e 83 quilos, jamais imaginaria que pudesse estampar sua foto no calendário-pôster de 2010. "Foi importante participar desse trabalho para mostrar às pessoas que podemos ser sensuais mesmo fora do padrão", diz ela, que é casada e tem uma filha de 1 ano. Usando meia-arrastão sobre suas coxas e quadris fartos, Samara fez o maior sucesso, principalmente com seu marido, que gosta dela assim e não quer saber de mulher magra.

Um nicho próspero para modelos gordinhas vem sendo aberto no País. Mas nada que se compare aos Estados Unidos. Aqui, elas recebem menos do que as modelos magras e, muitas vezes, não encontram estrutura mínima para se produzirem, como cabeleireiro e maquiador. Para valorizar esse mercado (e os cachês), cinco modelos paulistanas se reuniram e formaram o grupo Top Five. São elas: Andrea Boschim, de 32 anos; Bianca Raya e Celina Lulai, de 28; Mayara Russi, de 22; e Simone de Fiuza, de 25.

"Produzimos fotos e as divulgamos, para abrir os olhos das pessoas e mostrar que somos profissionais", avisa a idealizadora do Top Five, Simone Fiuza. Ela trabalha como modelo há cinco anos, mas diz que o mercado despontou nos dois últimos anos. É uma das poucas modelos plus size que vive exclusivamente dos cachês.

Andrea Boschim, a mais velha das Top Five, está atuando também fora das passarelas. É uma das mentoras e organizadoras do Fashion Week Plus Size, uma espécie de versão rechonchuda do evento oficial de moda, São Paulo Fashion Week. A primeira edição aconteceu em janeiro na Casa das Caldeiras, reunindo 10 marcas especializadas em tamanhos grandes e 300 pessoas. A segunda edição foi realizada no Senac Lapa, em julho. Contou com 14 grifes, e o público duplicou. "O último evento se pagou, não sendo mais necessário tirar dinheiro do próprio bolso", conta Andrea, que aposta todas as fichas nesse segmento, junto com sua sócia Renata Poskus Vaz, autora do blog Mulherão.

Militância. A publicitária Alcione Ribeiro, de 32 anos, autora do blog Poderosas Gordinhas, iniciou a campanha Por Tamanhos Maiores, para estimular os grandes magazines a colocarem em suas araras peças de numeração GG e EG (extra G). A partir de seu blog e via Twitter, ela iniciou uma discussão com suas leitoras sobre a dificuldade de comprar roupas em lojas de departamentos. Agora, quando conseguem encontrar uma peça bacana e de manequim grande, divulgam a foto do produto e a indicação do lugar.

Alcione conquistou quase duas centenas de seguidoras e o apoio de marcas de roupas plus size, como a Lepoque. Mas a feliz surpresa foi ter sido procurada por duas profissionais da rede de lojas Renner, em agosto, que queriam entender a dificuldade dessa legião de consumidoras. "Depois disso, a empresa passou a oferecer roupas em tamanhos realmente grandes na loja do Shopping Morumbi", conta Alcione. A Riachuelo também sinalizou interesse, acrescenta ela.

Há duas revistas femininas mensais direcionadas para leitoras gordinhas. A primeira a surgir foi a Sem Medida, versão online de acesso gratuito, lançada pela Writers Editora em fevereiro de 2009. Um de seus idealizadores foi o jornalista Roberto Paes, que se inspirou na sua esposa. "Pensei em fazer a revista para milhões de mulheres que, como ela, são vítimas de discriminação e preconceito."

Na versão papel, a Editora Digicamp lança neste mês a terceira edição da revista Beleza em Curvas. A ideia surgiu de uma conversa entre a jornalista e editora Marcela Elizabeth e sua então estagiária Mayra Holanda. "Recebemos muitos elogios das leitoras que se sentiam marginalizadas pela grande mídia."

O que acontece lá fora

No exterior, muitos são os sinais de que o movimento plus size não é passageiro. Na semana passada, surgiu um fato inédito no Fashion Week de Nova York do Verão 2011: em um espaço paralelo, houve o primeiro desfile plus size.

Em junho, também em Nova York, foi realizada a segunda edição do Full Figured Fashion Week, evento de moda plus size que contou com desfiles, competição de modelos e painel de discussões sobre essa indústria. O próximo será realizado em outubro, na cidade de Los Angeles.

Revistas internacionais não ficam atrás dessa onda. Em abril, a capa da Elle Paris estampou a top GG Tara Lynn. Antes, em março, a revista publicou a reportagem "Si rondes si chics!" (rondes significa "fortinha"), com personalidades plus size, como a blogueira Stéphanie Zwicky, do Big Beauty, que assinou uma coleção para a marca Le Redoute.

Em setembro de 2009, a revista norte-americana Glamour publicou uma reportagem com sete tops plus size. A foto, com todas nuas, revelava as dobrinhas de seus corpos. Nem os homens escapam desse movimento. O jornal online holandês de moda masculina Fantastic Man reservou um ensaio de moda com um modelo fofinho.

Evolução fashion

Causou um baita frisson a twittada de Robert Duffy, presidente da grife Marc Jacobs, que, no mês passado, considerou a hipótese de desenvolver uma linha de roupas plus size. "Nossa luta está, sim, sendo ouvida aos quatro ventos", manifesta Sandra Ebener em seu blog Mundo G Mais.

Nos Estados Unidos, onde a moda plus size é mais forte, a brasileira Fluvia Lacerda tornou-se uma das modelos mais requisitadas do país. Ela própria esboçou interesse de lançar uma grife de tamanhos grandes.

Empresas desse segmento não só brotam aqui, como as que já existem estão se atualizando para conquistarem uma fatia de consumidoras cada vez mais exigente. Mônica Angel, diretora de estilo da grife Palank, marca com 25 anos de existência e 11 lojas espalhadas por São Paulo, atesta essa mudança. "A evolução é mais da consumidora do que do mercado, porque agora as mulheres querem estar na moda", observa.

A diretora de estilo da Miglon, Kali Zegman, marca de atacado que existe desde 1986, confirma: "No geral, o mercado acreditava que bastava oferecer produtos que coubessem nelas, mas não é mais assim. Atualmente, precisamos estar muito antenadas e sempre oferecer novidades."

A estilista Andreza Calil está atenta a essa onda e inaugurou em abril a primeira loja virtual plus size do País: a Wish Fashion. A proposta é garimpar os melhores produtos das marcas e vendê-los pela internet, além de dar dicas de moda com looks prontos. "Em julho e agosto, o site começou a dar lucro e a tendência é crescer daqui para frente", avalia Andreza.

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