Do que eu falo quando eu falo da Dez Milhas Garoto

Em primeiro lugar, quero pedir licença ao escritor e corredor Haruki Murakami, autor do livro “Do que eu falo quando eu falo de corrida” por parafrasear seu título nesse post. Não consegui pensar em algo mais adequado, afinal, assim como ele, sinto a mesma influência da corrida em minha vida e em meus textos. E a Dez Milhas Garoto, a maior corrida de rua do meu Estado, será, enquanto eu puder e conseguir correr, sempre a minha “prova-alvo”. Aquela que eu sempre vou ter do que falar (e escrever). Então, vamos lá…

11868898_874959135919203_622467643_nMinutos antes da largada da Dez Milhas Garoto eu tentava controlar a ansiedade e o medo de não conseguir a concluir a prova. Meu professor Michell Raposo, que desde o início do Projeto Blog Corrida de Rua na Dez Milhas Garoto já tinha definido que faria os 16km ao meu lado, me tranquilizava.

Largamos pouco depois das 8h na orla da Praia de Camburi debaixo de um sol de verão capixaba. E na minha cabeça eu só tinha um objetivo: correr a prova toda, sem caminhar.

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Olha o sol aí nos acompanhando nos primeiros quilômetros do percurso

Quando terminamos de percorrer o km 1, um corredor encostou ao meu lado e depois de ler meu nome na camisa perguntou: “Você é a Dani?” Respondi que sim e ele disse: “Olha, se hoje eu estou correndo a culpa é sua!”. Fiquei emocionada e acho que só consegui responder: “Obrigada”. Ao longo do percurso, outros corredores-leitores também dividiram um pouquinho do pace comigo e me parabenizaram pelo trabalho desenvolvido aqui no blog.

Nesse início da prova, à medida que íamos correndo, Michell ia me dando algumas orientações sobre a postura, a pisada, indicava os trechos com sombra e os momentos que eu deveria fazer as “ultrapassagens” entre os corredores mais lentos.

Terceira Ponte: Onde os fracos não têm vez!
Corri confortável até a chegada da Terceira Ponte. Próximo à Praça do Pedágio tropecei e quase virei o pé em uma vala do meio-fio. Uma lesão ali seria o fim da Dez Milhas para mim. Começamos a subida da ponte e Michell intensificou ainda mais as orientações sobre a postura e a pisada. Como meu objetivo era correr todo o percurso, nesse trecho encontrei como obstáculos os corredores que caminhavam ou paravam para fazer as selfies no cartão postal capixaba. O calor também não ajudava e o vento não soprava. Diminuí o pace até chegar no conforto do plano vão central. Fiz a descida tranquila com Michell controlando a minha “empolgação”. Ele dizia: “Segura, Dani, ali na frente você pode quebrar e ainda tem a alça”.

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Alça: aprovada!
Eu particularmente gostei muito da mudança do percurso. Isso porque eu tenho um péssimo hábito – que o Michell está me ajudando a corrigir – de correr olhando para o chão. Antes dessa mudança no percurso, quando passávamos pelas avenidas Luciano das Neves e Champagnat, eu diminuía bem o ritmo nesse trecho e ia olhando para cada buraco do asfalto, já que as pistas ali têm muitos desníveis.

Com a passagem pela alça e o asfalto novinho, eu ergui a cabeça e fui! Comecei a sentir as pernas um pouco mais pesadas nessa segunda subida, é claro, mas preparei meu psicológico e consegui manter um ritmo bom. E a organização da prova montou algumas estratégias bem legais nessa parte do percurso: um portal com jatos de água para passarmos por baixo e um locutor bem animado que gritava palavras de incentivo.

A força da torcida
Foi na avenida Hugo Musso que sentimos a força e o calor da torcida. Centenas de moradores faziam a festa enquanto passávamos. Essa energia espantou um pouco os sinais de cansaço que o meu corpo já apresentava. Foi nesse momento que eu comecei a ficar mais concentrada na prova e no meu psicológico. Quando Michell me perguntava como eu estava, a vontade era responder: “cansada”, mas eu dizia: “estou bem”.

Água de coco na orla!
Começamos a percorrer a orla de Itapuã x Praia da Costa. Não via uma sombra na pista e eu achei que o plano de correr todo o percurso não daria certo. Já comecei a pensar em caminhar.

Bom, nesse trecho, segundo o Michell, eu já deveria ter consumido carboidrato para repor a energia que perdi ao longo de mais da metade da prova. Mas, durante a fase de treinamentos, eu não me adaptei ao gel de carboidrato, essencial para o corredor em longas distâncias. Expert em fisiologia do exercício, Michell adotou um plano B: “na orla você vai tomar água de coco”!

Continuei correndo e lá foi Michell em uma barraquinha. Não demorou muito e ele voltou CORRENDO com dois cocos verdes nas mãos e copos descartáveis! Ele não percebeu, mas eu me emocionei nessa hora. As lágrimas escorriam por baixo dos óculos escuros e se misturavam à água de coco enquanto eu bebia. Tomei aquele líquido com tanta vontade e acreditando que ele me daria a força necessária para concluir o meu objetivo. Caminhar já não era mais uma possibilidade.

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Michell (em destaque) carregando os dois cocos verdes e os copos descartáveis na boca. Vocês não conseguem ver, mas ainda deu tempo dele sorrir para a foto oficial! 🙂

Sombra e água fresca
Finalizamos o trecho da orla e entramos na avenida Castelo Branco. Um oásis de sombra estava bem à nossa frente. Foi aí que Michell disse: “Dani, agora é hora de você relaxar! Aproveite a sombra e jogue bastante água no pescoço”. Faltavam pouco mais de 3km para chegar. Eu já não conseguia dizer muita coisa. Só pensava em chegar. Em alguns momentos, minha cabeça me mandava acelerar. Michell dizia que ainda não era a hora. Eu olhava para o relógio a todo o momento. Queria concluir em menos de 2 horas.

Um coração em cada pé
Nos últimos dois kms minhas pernas “pulsavam” e eu parecia estar com um coração em cada pé. Corri com o choro na garganta. As lágrimas pareciam sair como o suor. Eu já não conseguia responder as perguntas do Michell: “Dani, você está bem?!”. A voz não saía. Eu só pensava em minha mãe – que está na batalha contra um câncer de mama e começou a fazer as primeiras sessões de radioterapia na última semana – e em meu pai – que no início deste ano esteve na UTI entre a vida e a morte.

A chegada
Quando entramos na reta final da prova na avenida Jerônimo Monteiro, Michell me autorizou a acelerar. “Vamos, Dani, se você conseguir acelerar a gente consegue terminar sub 2 horas”. Acho que só consegui dar um sprint por longos 200 metros. Depois, Michell foi me empurrando, literalmente, até concluir a prova.

Alguns passos depois de cruzar a linha de chegada, voltei a sentir apenas um coração no lugar certo, dentro do peito. E eu não aguentei o peso dele e me deitei no chão. Rapidamente, Michell me ajudou a levantar. Concluí os 16km correndo em 2h1min38seg. Não foi sub 2h, não foi exatamente o que planejamos no pouco tempo de treinamento e não foi o meu menor tempo na prova. Mas foi a primeira vez que corri com um coração em cada pé. 
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Desfibrilador
Michell, você foi mais que um treinador durante toda a prova. Foi o meu desfibrilador. Quando não conseguiu gerar a energia sozinho, foi correndo buscar e voltou com a água de coco. Seus gritos no último km, os empurrões e os jatos de água no pescoço e nas costas, foram como descargas elétricas em meus dois corações que resistiam para não parar de bater. Serei eternamente grata pelo seu cuidado, atenção e dedicação comigo desde o início dos treinos há dois meses até a companhia indispensável em cada metro dos 16km.

E você, Michell, não correu só por mim. Correu por todos os alunos que encontrou no caminho e dividiu a água. Correu por aquele senhor que procurava um posto de Gatorade que não existia na prova. Correu por aquele deficiente físico que você ofereceu hidratação. Correu por aquela menina que disse que acompanhava a gente desde a Terceira Ponte. Correu para acelerar as dezenas de pessoas que caminhavam em nossa volta na reta final da prova. Agradeço por cada uma dessas pessoas. Obrigada!