Corredor que sobreviveu ao acidente que matou 23 pessoas no ES se recupera bem

Uma semana após a maior tragédia rodoviária ocorrida no Espírito Santo, o ultramaratonista João Tarcísio de Castro, 49 anos, se recupera bem. O corredor estava entre os passageiros do ônibus da Viação Águia Branca que pegou fogo após colidir com um caminhão e duas ambulâncias, na BR 101, em Guarapari, na manhã de quinta-feira.

21 pessoas que viajavam no mesmo veículo que João morreram após o grave acidente. Ao todo, foram 23 mortes e 18 feridos. Nesta quinta-feira (29), duas vítimas continuam internadas e 11 corpos ainda não foram liberados no Departamento Médico Legal (DML).

O corredor teve ferimentos e queimaduras nas costas, no braço e no quadril, e ainda sente muitas dores musculares. “Graças a Deus estou me recuperando bem. Tenho sentido dores musculares no lado esquerdo, por causa das pancadas que sofri durante a batida. Mas as queimaduras já estão em processo de cicatrização”, conta João.

João é microempresário e voltava para Vitória depois de uma viagem de compras em São Paulo. Com um prejuízo de aproximadamente R$ 15 mil com a perda das mercadorias no acidente, o atleta ainda não conseguiu voltar à rotina profissional. “Trabalho com a venda de produtos para salões de beleza e, mesmo que meus ferimentos não tenham sido tão graves, ainda não deu pra voltar a trabalhar e precisei dar entrada no seguro no INSS”, explica.

Ultramaratonista há quatro anos, João diz que não vê a hora de voltar a correr. “Eu corria todo dia de manhã. As pernas estão boas, mas não posso suar por causa das queimaduras. Sinto que já perdi um pouco de massa muscular, o que é natural, por causa da minha idade, 49 anos”.

Ele acredita que o retorno à rotina de treinos deve ocorrer em até 15 dias. “Graças a Deus o meu estado psicológico está bom. Superei bem a situação e estou me dedicando aos curativos das queimaduras, que precisam ser feitos em um hospital. Os médicos dizem que a dor que tenho sentido é natural, já que o impacto foi forte e eu fiquei pendurado pelo cinto de segurança”, relata.

João Tarcísio disse que ficou sensibilizado com o carinho e a solidariedade que recebeu de amigos corredores capixabas e de outros estados. “Muitos viram a reportagem na televisão e no Facebook e me mandaram mensagens de apoio importantes nesse momento da minha recuperação”.

“Passei por cima de pessoas e não pude socorrer”

Após o acidente, ainda no hospital onde recebeu alta na última sexta-feira, João relatou para uma equipe de reportagem da TV Vitória/Record os momentos de pânico e desespero que aconteceram logo após a colisão. De acordo com o sobrevivente, que dormia no momento do acidente, tudo aconteceu muito rápido e ele não teve como ajudar mais pessoas.

Confira o relato do sobrevivente:

“Só me lembro do estrondo forte e quando olhei para frente, já estava tudo quebrado, com pessoas caídas no corredor do ônibus, muitos deitados em cima dos outros, mas não tinha como socorrer ninguém, pois o fogo estava vindo logo atrás”, conta.

Segundo João, se ele não tivesse preparo físico, não teria conseguido se soltar do cinto de segurança e sair do veículo antes de ser atingido pelas chamas. ““Eu fiquei pendurado. A parte em que eu estava no ônibus ficou pra cima e se eu não tivesse força nos braços para me levantar e puxar meu corpo para cima, eu ia morrer carbonizado. Foi coisa de Deus. Eu estava preso no cinto e se eu não tivesse força para me soltar, não teria me salvado. Passei por cima de pessoas no corredor e não pude socorrer. O que deu para fazer, eu fiz”, relatou.

Quando já estava fora do ônibus, João Tarcísio ainda ajudou outras pessoas que também conseguiram sair do veículo. “Eu vi uma senhora saindo em chamas do ônibus, mas ela rolou no chão e apagou o fogo. O filho dela também saiu e eu ajudei a apagar as chamas que estavam nele. Estes dois eu tenho certeza que se salvaram. Eu também ajudei outro rapaz e arrastei ele para o meio do mato, mas não sei o que houve com ele”, relata.

A tragédia. O acidente aconteceu por volta das 6 horas da última quinta-feira (22) na altura do Km 343 da BR-101, em Guarapari. A batida envolveu o ônibus, duas ambulâncias e uma carreta. De acordo com informações da equipe da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que estava no local, o motorista do caminhão, que estava carregado com uma pedra de granito, teria perdido o controle e invadido a pista contrária. Segundo a viação Águia Branca, o ônibus havia saído de São Paulo às 16 horas da última quarta-feira (21), com chegada prevista na rodoviária de Vitória às 7 horas desta quinta-feira. Havia 31 passageiros no veículo.

A causa do acidente ainda não foi oficialmente confirmada, mas a Polícia Rodoviária Federal (PRF) suspeita que um pneu estourado da carreta pode ser a causa principal. Além disso, os policiais constataram que o veículo não estava em boas condições e o peso ultrapassava 11 toneladas do total permitido.

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Um dos proprietários da empresa Jamarli Transportes, responsável pela carreta, chegou a ser preso em flagrante na última sexta-feira (23), mas foi liberado no último sábado (24).

O secretário estadual de Segurança Pública, André Garcia, classificou o acidente como “a maior tragédia rodoviária do Espírito Santo”. Além disso, a Comissão de Fiscalização da Concessionária ECO 101, na Câmara dos Deputados, entrará com uma denúncia no Ministério Público Federal (MPF) contra a empresa que administra a BR 101.

Daniela Künsch

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Daniela Künsch é jornalista desde 2002, editora chefe do jornal Folha Vitória e corredora amadora. Depois de chegar aos 133 quilos, perdeu 65, e encontrou na corrida força e inspiração para não voltar à obesidade.