Mensagem especial da Monja Coen para leitores do Blog Corrida de Rua

A monja Coen Roshi, considerada uma das mais importantes líderes do Budismo no Brasil, gravou uma mensagem especial para os leitores do Blog Corrida de Rua. Aos 70 anos, praticante de corrida, a missionária da tradição Soto Shu-Zen Budismo esteve em Vitória nesta semana a convite do Grupo Buaiz para ministrar a palestra ‘Como dar vida à nossa Vida: os modelos mentais em transformação’.

A monja é adepta da corrida de rua e já participou de provas curtas. Questionada se já fez uma maratona, brincou: “Imagina, eu só dou trotinhos, corro pouco, só uns 5km”. Em diversas entrevistas, Coen Roshi declarou a relação que enxerga entre a corrida e a meditação.

“A atenção fica no presente, na respiração, na pisada. E ser zen é isso; é estar presente, ativo, compromissado. Assim como o corredor que vai fazer uma maratona, a meditação exige disciplina diária, paciência, persistência. O correr zen é observar a sua respiração, os movimentos do seu corpo, o pulsar ritmado do seu coração, é sentir a brisa, observar o nascer-do-sol, o canto dos pássaros, as folhas caindo das árvores. Essa é uma forma de meditação em movimento”, disse a Monja-corredora para a O2 Corre.

2018: ano de harmonia, respeito e fidelidade

Harmonia, respeito e fidelidade. É isso que a monja Coen Roshi, missionária da tradição Soto Shu-Zen Budismo, espera para o próximo ano. No calendário chinês, 2018 tem como animal regente o Cão, que terá influência direta do elemento Terra. O que isso representa? Coisas boas!

Em entrevista exclusiva ao jornal online Folha Vitória, a monja, considerada uma das mais importantes líderes do Budismo no Brasil, explicou que no calendário, cada ano é representado por um animal. No caso do cachorro, o ponto mais forte é a fidelidade.

“O cachorro é fiel, serve o ser humano, é companheiro e tem amor incondicional. Espero que seja um ano de harmonia, respeito, de fidelidade. Ser fiel aos amigos, às causas, aos projetos, ao casamento e relacionamentos e com isso criar mais harmonia. Que possamos prosperar e juntos fazer do planeta um lugar em paz”, diz Coen.

Autora dos livros “Viva Zen”, “Sempre Zen”, “Palavras do Darma “, “A Sabedoria da Transformação”, “108 Contos e Parábolas Orientais”, “O Monge e o Touro” e “O sofrimento é opcional”, ela percorre o País compartilhando um pouco de seu conhecimento em palestras corporativas. A proposta, segundo ela, é cuidar do ser humano, independente de onde ele estiver.

“Independente se está em uma corporação ou no quintal de casa, tem que ser feliz. Se o local não está de acordo com os seus princípios, ou você modifica os princípios ou sai. Só não tem como ficar em um lugar que não é bom e que não te faz feliz. Quando você tem a leveza de saber que tem capacidade e que pode funcionar bem em qualquer outro lugar, você não tem medo. Quando não tem medo, produz melhor. A minha proposta é cuidar de ser humano, independentemente de onde estejam.”, afirma.

Outro ponto fundamental dentro de uma organização, segundo ela, é a compreensão de que todo o trabalho é desenvolvido em equipe. Ela reforça também a importância de buscar saber sempre mais e dar o seu melhor.

“No momento em que tanto desemprego existe, se você tem um lugar que é reconhecido, que faça o seu melhor, seja correto e ético. . Procure desenvolver aptidões, não achar que sabe tudo, porque não trabalhamos sozinhos, estamos em equipe. Seja excelente e colabore”, conclui.

Em tempos de tanta correria e dias cansativos, a principal dica da monja para manter a mente tranquila é bem mais simples do que parece: respirar!

“Quando as coisas nos incomodam a nossa respiração fica pulmonar e alta, então procure respirar. No carro, no trânsito, ao invés de ficar aflito, respire. Não estimule somente para o que é negativo, mas para o bem. Tenha intimidade com você, com sua mente, com seus sentimentos”.

Confira ainda o texto da Monja Coen sobre Maratona:

Maratona
Monja Coen

Corra, pise leve, vamos. Quando chegar ao muro, atravesse, não pare, olhe o tempo, o seu tempo, corra, pise leve, beba água. Está tudo bem com você? Não desista, vamos lá. A maratona. Quarenta e dois quilômetros. Para correr maratonas é preciso treinar, praticar, se preparar física e mentalmente.

Em Paris, no domingo passado, 35 mil pessoas participaram da 29ª Maratona. Estava frio. Conforme corriam, as roupas iam sendo jogadas no chão. Garrafas de água, agasalhos. O corpo esquenta. Maratona é caixa de surpresa. Ninguém sabe o que acontecerá. Será que sabemos na vida?

De dois em dois quilômetros havia banda de música, entusiasmando os atletas e as atletas. Como será a maratona em São Paulo, neste domingo? Haverá bandas suficientes para as pessoas se sentirem incentivadas a correr e a pisar leve, a chegar e ultrapassar seus próprios limites?

É bom conhecer os nossos limites. Para não nos ferirmos nem ferirmos aos outros. Mas, ao mesmo tempo, temos de atravessar o muro, o ponto da ruptura entre o possível e o sonho. Por volta dos 30 km tudo muda, tudo silencia. Até o som dos passos é diferente. Muitos ficam nessa zona. Alguns passam como se nada houvesse. Outros se arrastam e, na garra, atravessam o muro.

Muro invisível. É aqui que a maratona se resolve. Parece que todo o preparo era para esse momento. Maratona é vida. A cada instante, uma novidade. Não pode deixar cair no marasmo. Não pode deixar ficar automático. Energia vital, mente alerta.

E quando a menina que corre maratonas me conta pedaços, fico juntando esses retalhos e pensando que assim é a nossa vida.

Há trechos com começo e fim, mas são sempre outros começos e outros fins. Treinamos vivendo e vamos correndo. Encontramos apoio, água, energéticos, aplausos, música, encorajamentos. Encontramos cansaços, tristezas, dores, bolhas, férias, enjôos. O corpo pede para parar, mas a mente é forte. O que faria desistir se transforma em energia para conseguir.

É preciso passar os limites que nos impomos. Quebrar a barreira do impossível sem quebrar o mecanismo que nos permite atravessar. Para alguns é fácil, para outros, é difícil. Para todos, é trabalho constante, paciência, persistência. Treino bem organizado, planilhas, esforço e descanso.

Eu pensava que as pessoas corriam para ganhar. E fiquei sabendo que tem gente que corre para se divertir, aprender viajar.

E também há os que vão para ganhar o primeiro lugar. Arriscando tudo, colocando a sua vida em cada passo. Cada segundo perdido é a tristeza sentida ao terminar. Traçam planos e metas, mas são atletas. Têm espírito esportivo. Isso significa que não importa ganhar ou perder. O importante é percorrer os 42 km e perceber o que o treino todo permitiu, o que a mente agüentou.

O muro me fascina. Pensar que nos 10 km finais tudo se transforma. Nos nossos retiros de meditação é assim. Começamos reclamando, a mente fala com a gente, o corpo grita irritado. Mas vamos sentando cada instante, inspirando, expirando. A coisa vai apertando, a resistência na corda-bamba. Há quem desista e se vá, há quem force e se fira, há quem atravesse e se assombre ao encontrar a essência da vida. Quando nos entregamos à dor e persistimos é como se uma engrenagem no peito mudasse de posição.

Aonde estamos todos indo? Onde vamos chegar? Qual a meta dessa maratona de correr e de andar? Alguns correm outros andam, alguns ultrapassam suas metas outros não as conseguem alcançar. Alguns param, outros correm sem parar.

Que possamos todos juntos nos motivar ao percorrer o caminho. Vamos chegando, chegando e recebendo o abrigo que nos faz rir e chorar.

Daniela Künsch

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Daniela Künsch é jornalista desde 2002, editora chefe do jornal Folha Vitória e corredora amadora. Depois de chegar aos 133 quilos, perdeu 65, e encontrou na corrida força e inspiração para não voltar à obesidade.