“​Iremos construir um espírito público de verdade, ou não?”, por Marcello Petrelli

O Brasil atravessa por uma crise sem precedentes, aliás, são várias crises. A financeira, a qual parece que finalmente estamos começando a sair. A ética e moral, que se instalou em parte na elite do Brasil. E a do modelo de gestão do Estado, inchado, ineficiente, caro e que se voltou contra a sociedade. Essas são crises que as suas soluções estão só no começo, e que teremos um longo caminho para percorrer até conseguir superá-las.

Como pode um funcionário da inciativa privada, que trabalha mais de oito horas por dia, tendo que contribuir por mais de 45 anos para se aposentar, e ainda corre o risco de perder o emprego, pode compreender e aceitar que um funcionário público se aposente aos 50 anos com cerca de 30 de serviço, com salário integral, trabalhando meio período, com estabilidade, direito a licenças prêmio, incorporações e tantos outros benefícios só por ter sido aprovado em uma prova?
Aliás, a estabilidade do emprego igual à que existe no serviço público brasileiro é um privilégio sem precedentes em outros lugares do mundo. Em países sérios, os protegidos pelo Estado e reconhecidos pela sociedade são os empresários, geradores de emprego e renda, que recebem estímulos e incentivos do poder público. Aqui no Brasil, acontece o contrário.

O que dirá dos privilégios do serviço estatal um empresário que trabalha cerca de 10 a 12 horas por dia, quase seis dias por semana, não tem 30 dias de férias anual, e só se aposenta quando chega aos 70 anos de idade?

Assim como a comparação é inevitável, a resposta é inadiável. Enquanto empresários, precisamos unir forças e travar uma batalha para mudar essa realidade. Do contrário, estaremos trabalhando a cada dia mais, enfrentando mais dificuldades em manter nossas empresas saudáveis, e tendo uma qualidade de vida inferior, uma vez que o Estado e seus serviços básicos também serão cada vez piores. Por isso, a minha certeza de que estamos muito longe de começar a melhorar o Brasil.

Nós, as entidades de classe e seus dirigentes, precisamos abraçar uma agenda transformadora, com a coragem de mobilizar a opinião pública em torno das reformas necessárias. Precisamos lembrar e lembrar diariamente que são os impostos que sustentam toda a máquina pública – e aqui falo do conjunto executivo, legislativo, MP e o Judiciário – o que dá, a qualquer cidadão, a prerrogativa de questionar o modelo, e o direito de pesar na balança o custo pela qualidade do serviço ofertado.

A imprensa é muito criticada quando revela benefícios e privilégios de “A” ou “B”, e acaba travando essa luta sozinha, quando deveria receber o apoio de toda a sociedade, que deve abraçar essas bandeiras de forma conjunta, ajudando a mudar aquela realidade.

A pergunta que gostaria de fazer aos líderes empresariais e dos poderes é: Quando as verdades aparecem, de que lado vamos ficar? Do lado da sociedade com espírito público ou do lado do corporativismo? Eu entendo que cada um de nós vai precisar ceder, abrir mão, se sacrificar pelo bem comum. Por isso, a grande reflexão é: iremos construir um espírito público de verdade, ou não?

Destaco que o objetivo não é ficar criticando o que já é passado, pois aprendi que quem só olha pelo retrovisor da história, não consegue focar no futuro. A ideia é falar no que podemos fazer para melhorar, para nos superar, para evoluir, para construir um país que tenha valores, ordem, ética, oportunidade de negócios e de trabalho, segurança, acesso à saúde e à justiça. Uma sociedade com espírito público. Um ponto de equilíbrio entre direitos e obrigações. Precisamos criar um ambiente político, econômico e social que permita ao Brasil um desenvolvimento sólido e sustentável, que não possa mais ser ameaçado por um poder de ocasião, ou por interesses privados.

Na busca por esse objetivo, a nossa participação como cidadãos, líderes e empresários tem que ser diária e contínua. Cada um de nós aqui tem o poder de transformar a sociedade, através de: influenciar os seus amigos, funcionários e familiares – seja como cidadão, empresário ou líder de alguma entidade ou poder. Como diz um amigo meu: terceirizamos a política, não participamos dela, não nos envolvemos com ela, não apoiamos ou investimos nela e ainda assim queremos que ela funcione? Não irá funcionar nunca se continuarmos agindo assim.

Por isso, cito um exemplo que prova como iniciativa pública e privada, junto com entidades de classe, podem andar de mãos dadas sem que isso configure qualquer tipo de conflito de interesses, pelo contrário. A cidade de Jaraguá do Sul, através de seus políticos e empresários, dá exemplo para todo o Brasil de como um compromisso maior com o espírito público pode melhorar a saúde, educação e a cultura de seus moradores.

Mas, Santa Catarina, apesar de ser um estado diferenciado, também tem os seus problemas. Como tenho dito: ninguém é perfeito. Precisamos mudar nossa forma de ver as coisas, focar nas qualidades nos acertos. Mesmo assim, aqui em SC, os nossos problemas são menores quando comparados a outros estados do Brasil. Temos níveis internacionais de educação e de desenvolvimento econômico e social, reflexo da qualidade dos nossos representantes no executivo e seus gestores; no legislativo e seus deputados; no judiciário e seus magistrados e do MP; do setor econômico e seus empresários; e na área social, através de entidades e ações comunitárias. E, é claro, também da nossa imprensa com muito foco no conteúdo regional de Santa Catarina.

Nosso estado é diferenciado por diversos fatores, entre eles, destaco ao meu ver os principais.
Lembro que a capital nunca foi a maior cidade catarinense, o que sempre foi uma marca do nosso desenvolvimento regional, descentralizado, equilibrado, diversificado e sustentável.

Destaco também a importância do setor agrícola e o sistema integrado de produção: o agronegócio. A força do cooperativismo, que faz de Santa Catarina o estado com a maior taxa de desenvolvimento nessa área. O sistema ACAFE, que atende à demanda por graduação universitária em pequenas e médias cidades, devolvendo profissionais que lá ficam com formação, empreendedora e promotora do desenvolvimento regional.

Não podemos esquecer da nossa colonização, formada por imigrantes vindos das mais diferentes regiões do mundo, especialmente da Europa. Temos a indústria do turismo, que gera emprego e renda com baixo impacto ao meio ambiente. O que dizer então das nossas belezas naturais, um litoral recortado por praias deslumbrantes que, inclusive, convidam muitos a se aposentarem por aqui, desenvolvendo a indústria da construção civil. E, por último, a nossa mídia regional como fator preponderante para o melhor desenvolvimento regional.

Todas essas virtudes são enaltecidas diariamente pela nossa mídia regional, que está aqui representada pela ACAERT, que reúne quase 300 emissoras de Rádio e TV – entre comerciais e educativas – presentes em todas as cidades de Santa Catarina. São pequenas, médias e grandes empresas geridas por seus proprietários, diretores, com comunicadores, apresentadores, comentaristas e funcionários que têm forte identificação e comprometimento com a comunidade que está inserida, que falam com a população, sempre prezando pelo bem e pelo melhor.

É a nossa mídia que abre espaço na programação para a produção de conteúdo local, do jornalismo regional, sempre com a responsabilidade de informar e formar a opinião em contraponto à mídia nacional, mostrando a nossa mídia regional diariamente a nossa realidade a todos os catarinenses.

E esse é um dos meus grandes propósitos como presidente da ACAERT: intensificar, encorajar e fortificar ainda mais a mídia regional, prestando este serviço de percepção de Santa Catarina para empreendedores e para estado de espírito da população para o consumo.
​ ​Por isso, destaco a importância do capital inserido através de anunciantes públicos e privados nesse modelo de Santa Catarina, que acaba revertido no serviço social da informação regional. Este é um círculo virtuoso que permite mais crescimento econômico e social, mais transparência e que precisa ser fortalecido.

QUANTO MAIS CONTEÚDO REGIONAL MAIS DESENVOLVIMENTO SOCIAL E ECONOMICO.

E o segundo propósito, que compartilho com a diretoria da ACAERT, é disponibilizar essa influência da imprensa, essa presença cotidiana junto à população, para ajudar Santa Catarina a se distanciar daquele modelo do Estado e do Cidadão, que citei no início, que não funcionam mais. Neste momento, acredito que mais do nunca, as VERDADES COM CORAGEM devem, ser ditas e farão a grande diferença.

O verdadeiro poder de ação da imprensa está na capacidade de mobilização da sociedade. Precisamos tornar os nossos veículos de comunicação cada vez mais atuantes e presentes, não apenas como meio, mas como setor – porque não somos uma empresa pública que não pode assumir lados – pelo contrário, a inciativa privada tem essa liberdade justamente porque paga impostos, gera empregos e é o motor da economia. PODEMOS TER OPINIÃO, LADOS SEM DEIXARMOS DE SER LIVRES E ISENTOS. ESTA ATITUDE E POSTURA NUNCA FORAM TÃO NECESSÁRIAS.

Santa Catarina precisa valorizar cada vez mais as suas qualidades, por exemplo, o diferencial da nossa mídia em relação ao Brasil, que integra seus comunicadores com a sociedade. Trabalhando diariamente e exaustivamente, para levar cada vez mais informação, de melhor qualidade, para que o cidadão esteja melhor informado, e mais atuante.

E essa mídia também deve reconhecer e dar atenção aos chefes e integrantes dos poderes que estiverem dispostos a serem melhores, dispostos a abraçarem o espírito público, a DIZEREM AS VERDADES COM CORAGEM, a romperem com paradigmas, com o corporativismo, a abrirem mão de vantagens e privilégios pelo bem comum.

Queremos usar este poder, esta influência para transformar a sociedade, ajudar a conscientizar as pessoas das mudanças e reformas que são necessárias. Vamos apoiar toda e qualquer iniciativa – seja ela pública ou privada – que permita a construção de um estado ainda melhor para todos os catarinenses.
Se nosso estado já é diferenciado hoje, e serve de exemplo em muitos setores, tenho certeza de que ele continuará sendo um modelo no futuro, ajudando a pautar o Brasil que queremos. E a mídia regional será uma protagonista desse processo, sempre atuante a favor do nosso estado. Sou consciente de que, como brasileiro, devo olhar sempre pelo meu país, mas antes de tudo sou catarinense e, nesse momento, acredito que devemos priorizar todas essas mudanças pelo bem de Santa Catarina.

Marcello Petrelli, presidente do Grupo RIC SC e presidente Acaert (Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão)​

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