O intermediário morreu, vida longa ao intermediário

“Inovação não é uma nova tecnologia, mas mudança cultural causada por ela na sociedade”
Marshall McLuhan

Nenhuma nova tecnologia prometeu matar mais modelos de negócios, empresas e empregos do que a Internet, e nenhuma tecnologia falhou mais miseravelmente como serial killer. O varejo físico, que iria sucumbir com a chegada da Amazon, viveu para vê-la comprar uma cadeia de alimentos naturais e investir em lojas físicas. O e-book, que iria se tornar padrão, tem visto suas vendas declinarem.

Temos visto uma nova onda de promessas chamada blockchain vindo aí, uma tecnologia maravilhosa que vai revolucionar tudo, acabar com os cartórios, com os bancos, com os governos e com todos os intermediários de confiança, levando a economia para o padrão peer-to-peer de transações diretas entre as pessoas e de sociedades auto-organizadas.

Mas, o que isso quer dizer na verdade? Viveremos num mundo sem organizações, pautado pelas relações diretas individuais? Essa é a discussão que traremos para a nova edição do VOS – Vários Olhares Singulares, evento promovido pela Vale e que trabalha os conceitos de coletividade e sustentabilidade, articulando sociedade, instituições e organizações para criar experiências e reflexões sobre assuntos relevantes.

Está cada vez mais difícil fazer previsões e não se envergonhar depois, mas uma coisa é certa: empresas não morrerão e intermediários não desaparecerão, mesmo com a radical mudança que o ambiente de negócios sofrerá nos próximos anos. A única previsão possível é que os modelos centralizados, hierárquicos e lineares serão substituídos ou atropelados pelos modelos distribuídos, horizontais e exponenciais.

Nessas novas estruturas, os intermediários de confiança, aqueles que se colocam numa posição de controle do fluxo de informações ou de valores, verão seu campo de atuação reduzido até a extinção. Os que forem capazes de ressignificar suas atuações e modelos de negócios prosperarão, e os que se prenderem ao modelo do passado e reagirem a fim de impedir a mudança, terão um fim melancólico.

O que isso significa no mundo real?  

Que o novo intermediário será um provedor de serviço, alguém especializado que construirá e facilitará novos fluxos, tornando-se um nó do ecossistema e não a peça central controladora dele. Em termos práticos, imaginemos algumas situações:

O governo hoje investe em estruturas totalmente centralizadas ou descentralizadas de atendimento ao cidadão, poupatempos, agências da receita, secretarias da fazenda, Detrans e etc. Entrega os dois documentos mais importantes da nação, o e-CPF e o e- CNPJ para duas empresas estrangeiras dificultando e encarecendo seu uso pela população e gerando custos pela não adoção em massa destes documentos. Enquanto isso, uma rede de 15 mil cartórios, que poderiam fazer, sem custo para o governo, o papel de porta de entrada do cidadão para o mundo digital, fica presa a processos em papel e estruturas arcaicas de validação de documentos.

Outro exemplo é a própria indústria, que sob modelos centralizados, em cima de uma promessa de economias de escala, vem concentrando suas operações em fábricas cada vez mais distantes dos mercados, e criando cadeias de suprimentos enormes, de fornecedores, distribuidores, atacadistas, representantes e um sem número de intermediários que só agregam custos e pouco valor.

Num modelo distribuído, essas grandes indústrias poderiam dispor suas fórmulas para que a produção fosse feita por empresas locais, com ingredientes locais, evitando-se assim a enorme pegada de carbono dos longos processos logísticos, mitigando o problema da última milha da logística reversa e criando desenvolvimento econômico e social local pelo aumento do giro dos recursos na economia local.

Por fim, a produção distribuída de energia elétrica poderá alterar não só a matriz energética nacional para modelos mais sustentáveis, como o formato do financiamento de expansão do sistema de distribuição de energia nacional. Tirando a carga pesada das costas das geradoras e distribuidoras e compartilhando-a com os produtores residenciais que, ao cobrir seu telhado com painéis solares, passam a assumir o custo do aumento da capacidade de produção.

O desafio agora é como difundir o conhecimento e colaborar para que a mudança cultural que virá pelo uso das tecnologias distribuídas seja abraçada por empresas e instituições públicas, pois nosso sistema educacional nos prepara há dois séculos para processos industriais de replicação e não para uma sociedade digital.

Carl Amorim é palestrante e representante do Blockchain Research Institute no Brasil

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