18/11/2009 às 20h27 - Atualizado em 18/11/2009 às 20h27

Inaugurada obras de restauração do Palácio Anchieta nesta quinta-feira

Folha Vitória
Redação Folha Vitória

Foto: Bruno Coelho
O Palácio Anchieta será entregue à sociedade capixaba totalmente restaurado, nesta quinta-feira (19), durante solenidade de inauguração, realizada a partir das 10 horas, no Salão Afonso Brás. A restauração do Palácio Anchieta, a primeira de sua história, teve início em julho de 2004. O Palácio Anchieta é dos principais patrimônios históricos do Espírito Santo e uma das edificações mais importantes da arquitetura jesuítica no Brasil. Com a conclusão do trabalho de restauro, o prédio será aberto à visitação pública e passa a ser utilizado a partir de um novo conceito de ocupação.

Em 458 anos de história, o Palácio Anchieta passou por diversas obras e reformas, que foram moldando o conjunto jesuítico original. Apesar das sucessivas intervenções ao longo do tempo, o Palácio Anchieta guarda verdadeiras relíquias históricas, que poderão ser vistas por capixabas e visitantes a partir de agora. Além de constar do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (IPHAN/MINC), o prédio é tombado pelo Conselho Estadual de Cultura.

Restauro

A restauração do Palácio Anchieta teve a finalidade de garantir longevidade à edificação, respeitando seus valores simbólicos e culturais. O objetivo foi revitalizar o edifício, promovendo a valorização de elementos ocultados durante décadas por sucessivas reformas e resgatando a historicidade do prédio.

Os trabalhos de pesquisa arqueológica identificaram uma série de vestígios que contribuíram para valorizar a história do edifício, permitindo, por meio dos achados, uma nova leitura dos usos do Palácio através do tempo.

A restauração do Palácio Anchieta foi feita em seis etapas. O Governo do Estado investiu R$ 5 milhões nas obras, que também contaram com recursos da Lei Rouanet.

No térreo e no primeiro pavimento, haverá diversas salas e equipamentos de uso coletivo dedicadas à história do prédio, à trajetória capixaba e às potencialidades do Espírito Santo, entre outros. No segundo andar do prédio estão localizados, além do gabinete do governador, o Salão Nobre, o Salão Negro, o Salão Dourado, o Salão do Piano e o Salão São Tiago, num total de aproximadamente dois mil metros quadrados.

Salão Afonso Brás

O Salão Afonso Brás foi aberto ao público no dia 13 de maio deste ano. Logo na inauguração de sua restauração, recebeu a exposição internacional "Por Dentro da Mente de Leonardo Da Vinci". Localizado no primeiro pavimento, o salão possui 630 metros quadrados. No passado, o local abrigava a Igreja de São Tiago, que, juntamente com a residência e o Colégio dos Jesuítas, ofereceu a base construtiva do atual Palácio Anchieta. Esse conjunto jesuítico teve sua construção iniciada na segunda metade do século XVI.

Durante restauração do Salão Afonso Brás, prospecções arqueológicas encontraram numa parede lateral da construção vestígios da antiga igreja. Segundo especialistas, trata-se do esgrafito, uma técnica de afresco de origem árabe disseminada na Europa a partir do século XIV. O esgrafito é raro no Brasil.

O nome escolhido para o Salão é uma homenagem a Afonso Brás, um sacerdote jesuíta português, um dos fundadores de São Paulo. O padre foi enviado ao Brasil em 1550, e esteve inicialmente na Capitania do Espírito Santo. A antiga Igreja de São Tiago foi construída em 1551, sob as ordens de Afonso Brás.

Descobertas

No decorrer dos trabalhos, que envolvem prospecções arquitetônicas e escavações, foram descobertos inúmeros vestígios relevantes para a história do prédio, além do já citado esgrafito da nave lateral da antiga igreja, que poderão ser vistos durante a visitação do Palácio, tais como:

- Fundações do colégio jesuítico - vestígios de alicerces da ala mais antiga do edifício, apresentando a compartimentação interna do século XVI;

- Poço d'água do pátio central - construído pelos jesuítas, sofreu alterações ao longo dos séculos. Informações preliminares indicam que funcionou até 1905;

 - Altar-mor - cômodo remanescente da igreja jesuítica, onde a lápide do túmulo do Padre Anchieta é mantida exposta, e onde também foram identificados vestígios construtivos da capela primitiva; e

 - Configuração primitiva do pátio central - arcadas e paredes originais que conformavam os limites do pátio primitivo foram evidenciadas, permitindo o registro do sistema construtivo e configuração deste espaço à época dos jesuítas.

Confira, abaixo, a linha do tempo do Palácio Anchieta, que vai estar no livro “Palácio Anchieta – Patrimônio Capixaba”, de José Antônio Martinuzzo, a ser lançado no próximo dia 25 de novembro:

Linha do Tempo

1524 – Nasce, em Portugal, o padre Afonso Brás, que ingressa na Companhia de Jesus em 1546 e vem para o Brasil na segunda leva de jesuítas, em 1550. É o fundador da obra jesuítica no Espírito Santo.
1534 - Inácio de Loiola funda, na França, a Companhia de Jesus, com missão evangelizadora para fazer frente à Reforma Protestante.
1534 – Aos 19 de março de 1534, nasce em Tenerife, nas Ilhas Canárias, arquipélago pertencente à Espanha, o padre José de Anchieta. É o mesmo ano de fundação da Companhia de Jesus, ordem na qual ingressou em 1551. Chegou ao Brasil em 1553.
1535 – Aos 23 de maio, começa oficialmente a colonização espiritossantense, com a chegada de Vasco Fernandes Coutinho.
1551 – Aporta em terras capixabas o jesuíta Afonso Brás, aqui chegado em companhia do irmão leigo Simão Gonçalves.
1551 - Aos 25 de julho, padre Afonso Brás inaugura a construção primitiva da Igreja de São Tiago.
1559 – Incêndio destrói a primeira sede da Igreja de São Tiago.
1570 – Nessa década, missionários mobilizados pelo padre Inácio de Tolosa dão início à construção de uma nova sede para a Igreja de São Tiago, agora em pedra, no mesmo local da anterior, erguida com madeira.
1587 – Anchieta conclui a primeira ala do Colégio, voltada para a praça (atualmente, Praça João Clímaco).
1597 – Aos 09 de junho, em Reritiba, atual município de Anchieta, morre o padre Anchieta, enterrado junto ao altar-mor da Igreja de São Tiago.
1609 - Parte dos ossos do religioso é retirada para envio ao Colégio da Bahia e posterior traslado a Roma. O percurso não foi cumprido devido ao naufrágio da caravela.
1707 – Após 120 anos da construção da primeira ala do colégio, ergue-se a segunda, de frente para a baía de Vitória.
1734 – Constrói-se a terceira ala, fechando o pátio interno, juntamente com a segunda torre da igreja.
1734 - O túmulo de Anchieta é novamente aberto, tendo sido retirados os últimos restos mortais do jesuíta.
1747 – É erguida a quarta ala, contígua à igreja, formando o quadrilátero imponente do que seria, por muitos anos, a maior construção do Estado.
1759 – Por decreto do então rei de Portugal, Dom José I, os jesuítas são expulsos do reino e de todas as possessões da Coroa. É o fim do Colégio de São Tiago.
1796 – Um novo incêndio ocorre nas dependências do conjunto.
1798 – Já recuperado do incêndio de 1796, o antigo Colégio é denominado Palácio do Governo, passando a abrigar também o Hospital Militar e o batalhão de polícia, entre outros.
1860 – Após importantes obras de reforma, em função do abandono de décadas a que foi submetida a construção, o palácio recebe Suas Majestades Imperiais o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Dona Teresa Cristina Maria. A visita dura 15 dias.
1883 – É construída uma escadaria na ladeira que dava acesso ao Cais do Imperador, melhorando a ligação entre o porto e o edifício. 
1901 – O prédio é adquirido da União em 23 de dezembro.
1908 – O palácio recebe sistema de iluminação elétrica gerada por motor de corrente contínua.
1908 – Assume o governo o presidente Jerônimo Monteiro, responsável, durante o seu mandato, até
1912, pela reconstrução do palácio, transformando radicalmente as feições do conjunto. Uma nova escadaria é construída, seguindo o estilo eclético implantado pelo engenheiro francês Justin Norbert, contratado para executar as obras.
1911 – A Igreja de São Tiago é comprada do Bispado em 23 de novembro, ampliando em um terço a área coberta do palácio. No processo de reconstrução, a torre menor é destruída, tendo sido mantida a maior, com o relógio e os sinos.
1922 – Demolida a segunda e última torre da Igreja de São Tiago, apagando de vez os principais vestígios da herança jesuítica na fachada do conjunto.
1922 – É construído um túmulo simbólico em homenagem à memória de Anchieta. O antigo, com lápide esculpida em Portugal, havia sido removido por ocasião da adaptação da Igreja de São Tiago para receber a maquinaria da Imprensa Oficial e a sede da Secretaria de Governo, entre 1912 e 1916.
1924 – Amplia-se o uso de área no pavimento térreo, incluindo a instalação do primeiro elevador do edifício, que ganha pintura amarela, cor oficial dos prédios da administração pública.
1935 – Aos quatro séculos da chegada dos portugueses, planejava-se preparar o palácio para os festejos. Em função da precariedade das instalações, o conjunto passa, nos anos seguintes, por uma completa reconstrução interna, incluindo a instalação de lajes de concreto armado, como a que transformou a antiga Igreja de São Tiago em dois grandes salões.
1939 – O terceiro incêndio da história do palácio ocorre no andar térreo, onde funcionava o Diário da Manhã, órgão oficial do governo.
1945 – Em 09 de junho de 1945, em mais um aniversário da morte do padre José de Anchieta, o então governador, Jones dos Santos Neves, faz publicar o decreto de nº 15.888, denominando de Palácio Anchieta a sede do Governo estadual.
1983 – O edifício é tombado pelo Conselho Estadual de Cultura.
2004 – Inicia-se a primeira obra de restauro do Palácio Anchieta.
2006 – Com a finalização da primeira etapa da obra, o Palácio Anchieta passa a abrigar apenas os setores ligados ao Gabinete do Governador.
2007 – Novos equipamentos, como um segundo elevador, são instalados com vistas à intensificação do uso público do prédio.
2009 – Todas as instalações do edifício (elétrica, hidráulica e telefônica) e os sistemas de climatização e drenagem são modernizados. O telhado passa por reforma completa.
2009 – Procede-se à restauração do acervo artístico e do mobiliário do palácio e à realocação da Capela junto ao túmulo simbólico de Anchieta.
2009 – A restauração é concluída, tendo sido recuperados vestígios de todas as fases históricas do conjunto.
2009 – O palácio é aberto à visitação pública, incluindo salas especialmente montadas para contar a história do prédio ao longo de quase cinco séculos.

A Rede Vitória faz parte do
4Ps Todos os direitos reservados © 2007-2014