Janot se diz 'consternado com corrupção dos mais altos dignatários da República'

Ele, que tem quatro anos de mandato, deverá ser substituído pela subprocuradora-geral da República Raquel Dodge, que foi indicada pelo presidente Michel Temer

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Ele defende enfaticamente o instituto da colaboração
Foto: Agência Brasil

São Paulo - O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, avalia que, sem a delação do empresário Joesley Batista, da JBS, não seria possível identificar "o complexo esquema de pagamento de propina" envolvendo o presidente Michel Temer, o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures - ex-assessor especial do peemedebista -, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o procurador Ângelo Goulart.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Janot defende enfaticamente o instituto da colaboração. Ele classificou de "decisão histórica" o recente julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que "confere segurança jurídica aos colaboradores".

O procurador pondera que, apesar do amplo conhecimento do Ministério Público em grandes investigações, há muita dificuldade em desmontar organizações criminosas, "já que a regra, nesses casos, costuma ser a Omertà, ou seja, o silêncio como garantia de vida". "Com as colaborações premiadas, os réus confessam os crimes, apresentam detalhes do funcionamento dos esquemas e ajudam na indicação dos líderes", afirma.

Com quatro anos de mandato, a serem completados no dia 17 de setembro, Janot deverá ser substituído pela subprocuradora-geral da República Raquel Dodge - indicada por Temer. Na quarta-feira próxima, dia 12, Raquel será sabatinada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado.

Janot deixa o comando do Ministério Público com um sentimento, segundo suas próprias palavras. "Tenho a convicção de que não me omiti." E com uma certeza. "Os inimigos da Lava Jato são os mesmos que integram os esquemas desvelados na Operação."

O procurador também se diz desolado com os casos de corrupção. "Fico consternado em ver que, após 3 anos e meio de investigações que já culminaram em mais de 157 condenações, ainda tenhamos que deparar com crimes de corrupção e lavagem de dinheiro em curso, praticados pelos mais altos dignatários da República, enquanto o Brasil passa por uma grave crise econômica, com índice recorde de desemprego e inadimplência, por exemplo", diz.

Com 33 anos de Ministério Público, Janot trava um embate histórico com o presidente Temer, a quem acusa formalmente por corrupção passiva no caso JBS. Ele está convencido de que Temer era o destinatário real da propina de R$ 500 mil - 10 mil notas de R$ 50 - que o ex-deputado Rocha Loures (PMDB-PR) recebeu em uma mala preta na noite de 28 de abril no estacionamento de uma pizzaria em São Paulo.

Na mesma investigação com base na delação da JBS, o procurador denunciou e pediu a prisão do senador Aécio Neves (PSDB-MG), por supostamente pedir propina de R$ 2 milhões a Joesley.

Outro alvo da ofensiva de Janot é um colega da própria instituição que comanda, o procurador Ângelo Goulart, preso sob suspeita de atuar como infiltrado do delator da JBS, em troca de uma mesada de R$ 50 mil.

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