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Nova equipe tem um desafio enorme, diz Eduardo Giannetti

Economia

Nova equipe tem um desafio enorme, diz Eduardo Giannetti

- Os objetivos anunciados pela equipe econômica nesta semana foram certeiros, mas dependem de algumas condições. Uma delas é descobrir a real situação das contas públicas, na avaliação do economista e escritor Eduardo Giannetti, assessor da candidata à Presidência da República nas eleições deste ano, Marina Silva. "A nova equipe tem um desafio enorme, inclusive no quesito transparência. Tem muito esqueleto guardado e que precisa aparecer, por pior que já esteja o cenário traçado pela LDO (projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias)", diz.

Ao comentar o objetivo da nova equipe em reverter a trajetória ascendente da relação dívida bruta e PIB, hoje em 61,7%, Giannetti afirmou que "esse é o conceito mais relevante". É nesse indicador, argumenta o economista, que aparece a real situação do endividamento do setor público. Não é na dívida liquida.

Nos trechos da entrevista reproduzidos abaixo, o economista também considera positivo a decisão de a nova equipe ter enfatizado a necessidade de aumentar a taxa de poupança das pessoas, dos setores privado e público. Mas para isso, diz, terá de aguentar a chiadeira dos poucos segmentos e empresas beneficiados. "Vai ser uma verdadeira operação desmame."

Se a presidente Dilma Rousseff irá suportar a dor do ajuste e liberar a equipe para aplicar os remédios, é outra dúvida. "Acho que ela não vai dar atenção à pressão dos aliados da campanha e do Dilma 1 agora. Mas o fato é que não tem ajuste indolor. Não há como enfrentar a gravidade do problema que o Brasil tem sem efeitos no desemprego, na inflação", afirma.

Volta à horizontalidade

"É fundamental e muito correta a colocação do (futuro ministro da Fazenda, Joaquim) Levy sobre a necessidade de aumentar a taxa de poupança. Para isso, ele deverá retomar uma filosofia de que é preciso lembrar que a política econômica tem duas dimensões básicas: uma 'macro' e uma 'micro'. O governo Dilma 1 comprometeu as duas dimensões. Na 'micro', o governo Dilma 1 rompeu com a filosofia da horizontalidade que prevaleceu no governo do Fernando Henrique e no Lula 1, o que melhorou o ambiente de negócios. O conceito da horizontalidade significa que uma eventual mudança nas regras do jogo vale para todos os setores da economia e se colocam ao lado do mercado, melhorando as instituições para que o mercado financeiro funcione de forma plena. A Dilma trocou esse cuidado microeconômico pelo 'microgerenciamento' e passou a beneficiar setores e empresas. Abriu um balcão de negociação. Para muitas empresas, ficou muito mais vantajoso negociar melhores condições com o governo do que aumentar a eficiência, investir em produtividade e em inovação."

Estrago milionário

"O tamanho do estrago de 2009 para cá está em torno de 9% do PIB. Esse é o montante estimado para o aumento da oferta de crédito feita com recursos do Tesouro Nacional. Não há problema algum em usar esse expediente num momento de crise. O problema é que o governo descobriu esse brinquedo e o usou até estragar."

Dívida bruta/ PIB é o mais relevante

"Dado tudo o que aconteceu, o conceito relevante para a política fiscal é a relação entre dívida bruta e PIB, hoje em 61,7%. Quando o governo passou a fazer as medidas parafiscais, a dívida líquida passou a perder relevância. Porque passou a fazer repasses para o BNDES que não aparecem na dívida líquida. Ou seja, aumentou muito a oferta de crédito por endividamento do Tesouro Nacional. Hoje está em torno de 9% do PIB. Uma boa parte desse dinheiro não vai voltar para o Tesouro."

Superávit primário crível

"Prefiro um número real, embora longe do ideal, do que um número que não é crível. Eu me sinto mais confiante ouvindo o Levy falar em uma meta de 1,2% do que ao ouvir o Mantega dizer que vai cumprir uma meta de 2% ou 2,5%."

O papel do BNDES

"Numa democracia, é natural que existam subsídios. Mas eles precisam estar explicitados no orçamento e devem ser publicamente debatidos. Estamos falando de subsídios de em torno de 0,6% do PIB (segundo estimativas), que são maiores do que o Bolsa Família. Tem muito esqueleto guardado e que precisa aparecer, por mais que seja complicado o cenário desenhado pela LDO."

Medidas para controlar a inflação

"Achei interessante o (presidente do Banco Central, Alexandre) Tombini ontem sinalizar que vai apertar mais a política monetária. Uma variável que alimenta a inflação é a expectativa de alta dos preços. Todo mundo sabe que os preços administrados estão represados. Quando a nova equipe restabelecer o realismo tarifário, a expectativa quanto à inflação vai reverter. Também há uma expectativa de desvalorização cambial. Quando acontecer, a pressão cambial sobre a inflação também tende a ser revertida. A questão é que o sistema de metas e inflação é, em grande medida, um jogo de expectativas. E esse jogo, na gestão anterior do BC, não foi bem feito. Foi importante a ênfase do Tombini sobre o sistema de metas e o objetivo de alcançar o centro da meta."

Incentivos corretos

"A poupança doméstica está realmente muito baixa. É preciso dar os incentivos corretos para que as pessoas poupem, além de o governo deixar de ser um 'despoupador'. O dado mais central da economia brasileira hoje é que o Estado brasileiro arrecada 36% do PIB, gasta o equivalente a 5% do PIB a mais do que arrecada e o investimento do setor público fica em torno de 2,5%. O aumento da taxa de poupança, mencionada por Levy, traz implícita a redução da participação do BNDES."

Operação desmame

"A reforma microeconômica que precisa ser feita é o que pode ser chamado de 'operação desmame'. Há um empresariado que fica pendurado no governo e que tem benefícios negociados individualmente. Fazer esse desmame será muito complexo. Mas se a equipe vai reduzir o papel do BNDES, se vai acabar com o protecionismo tarifário, se vai reverter desonerações, vamos ver uma chiadeira violenta de um pessoal que está com o microfone. Quando você desmama um segmento, ele fica muito vocal."