Avenida Reta da Penha
Vista de drone da Avenida Nossa Senhora da Penha, em Vitória. Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

A Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) aprovou a atualização das taxas para escrituras e registro de imóveis no Estado cobradas por cartórios. A revisão das cobranças foi um pedido do Tribunal de Justiça capixaba (TJES), feito em outubro deste ano.

O texto aprovado, no entanto, é uma emenda substitutiva apresentada pelo deputado estadual Alexandre Xambinho (Podemos). Ao mesmo tempo em que ele reduz as taxas para imóveis de até R$ 300 mil, chega a triplicar as cobranças aos imóveis na faixa dos R$ 10 milhões, isso porque o aumento é progressivo.

A atualização das tabelas se fez necessária, conforme o presidente do TJES à época da apresentação do projeto, Samuel Meira Brasil Junior, porque os valores utilizados já não retratam mais a realidade socioeconômica do Estado – as taxas foram definidas em 2001 e, desde então, permanecem as mesmas.

O texto explica que, em 2001, o valor de R$ 200 mil – utilizado como teto – representava um imóvel residencial de considerável padrão. Contudo, atualmente, este valor “deixou de retratar a realidade dos preços médios do mercado imobiliário”.

Um exemplo disso é o preço do metro quadrado na Praia do Canto, em Vitória. Conforme a coluna Edu Kopernick, um imóvel de 200 metros quadrados na região pode custar acima de R$ 7 milhões.

Diante desse cenário, segundo o tribunal, “carece de fundamento razoável” o fato de que os emolumentos recolhidos para elaboração de escritura de compra e venda de um imóvel com valor de R$ 200 mil sejam os mesmos cobrados para os imóveis de R$ 1 milhão.

Por isso, o projeto estabeleceu como teto o valor de R$ 1,050 milhão. A partir deste valor, as taxas cobradas seriam as mesmas. No entanto, a emenda de Xambinho determina outro cálculo, sendo para o registro:

  • Acima de R$ 200 mil até R$ 1,2 milhão, há um acréscimo de R$ 37,5 de emolumentos a cada R$ 5 mil de base de cálculo;
  • Já acima de R$ 1,2 milhão até R$ 10,2 milhões, há um acréscimo de R$ 75 de emolumentos a cada R$ 150 mil de base de cálculo.

E para a escritura:

  • Acima de R$ 200 mil até R$ 1,2 milhão, acréscimo de R$ 50 de emolumentos a cada R$ 5 mil de base de cálculo;
  • Já acima de R$ 1,2 milhão até R$ 10,2 milhões, há um acréscimo de R$ 100 de emolumentos a cada $ 150 mil de base de cálculo.

O texto ainda depende da análise do governador Renato Casagrande, que pode vetar ou sancionar a medida.

O presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Espírito Santo (Ademi-ES), Alexandre Schubert, explica as mudanças na prática:

Houve um corte na faixa de R$ 300 mil, uma deflação de 7,7%. A partir daí, os imóveis de maiores valores, a partir de R$ 300 mil, vão sofrendo um reajuste bastante significativo. Por exemplo, ao se comprar um imóvel de R$ 400 mil, eu tenho um acréscimo de 7,8%, um imóvel de R$ 600 mil vai ficar mais caro 39%, um imóvel de R$ 1 milhão vai ficar o dobro.

Alexandre Schubert, presidente da Ademi-ES

Segundo Xambinho, o objetivo era reduzir em até 21,36% os custos dos emolumentos incidentes sobre a aquisição de imóveis cujos valores se enquadrem na faixa de até R$ 300 mil.

A emenda também estabelece um desconto de 50% dos emolumentos na aquisição da casa própria feita pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH).

O Sindicato dos Notários e Registradores do Espírito Santo (Sinoreg/ES) avaliou que o projeto representa um avanço com efeitos positivos para a população capixaba, em especial a “de menor renda, ao reduzir o custo para aquisição de imóveis de até R$ 300 mil, bem como flexibilizar o acesso ao desconto de 50% para moradias do Programa Minha Casa, Minha Vida.”

“O Sinoreg/ES entende que o debate conduzido ao longo do processo legislativo foi fundamental para a construção de entendimentos entre os diferentes setores envolvidos, considerando a capacidade contributiva daqueles com maior poder aquisitivo, reforçando assim o compromisso institucional de todos com soluções que promovam justiça social, segurança jurídica e desenvolvimento.”

Críticas ao projeto aprovado

A proposta, no entanto, foi criticada por entidades do setor imobiliário. O vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Espírito Santo (Sinduscon-ES), Leandro Lorenzon, disse que a alteração causa surpresa por aumentar substancialmente o valor dos emolumentos.

"Os imóveis de R$ 400 mil até R$ 1 milhão, que envolvem a classe média e até boa parte da classe econômica, aumentam as taxas em torno de 34%. Depois, de 1 milhão para cima, chega até a triplicar. Então, são aumentos muito substanciais."

Lorenzon também explica que a redução de taxas para imóveis de até R$ 300 mil tem um impacto ínfimo, visto que "já não há mais imóveis nesses valores, praticamente". "A redução se dá em 15%, 10%, 20%, enquanto o aumento se dá em 50%, 60%, 80%, 100%, 200%. Então, é muito mais aumento do que redução na prática".

A opinião é corroborada pelo advogado João Eugênio Modenesi Filho. “A suposta ‘redução de taxas’ anunciada para imóveis de menor valor contempla imóveis que praticamente não existem mais no mercado capixaba.”

Segundo ele, o que acontece na prática é um aumento real de carga tributária indireta e barreira econômica ao acesso à propriedade formal. “Aumentar custos de registro não combate a informalidade imobiliária – pelo contrário, a incentiva.”

Projeção das novas taxas

O Sinduscon-ES fez uma projeção de como ficarão as taxas caso o projeto seja sancionado pelo Executivo estadual.

Emolumentos para escritura

Valor inicial e final da faixa (em R$)ATUAL (em R$)TJES (em R$)ALES (em R$)VAR. ATUAL X ALES
150.000,01 – 180.000,007.096,903.760,935.577,00-21,4%
180.000,01 – 210.000,008.159,323.948,976.591,00-19,2%
210.000,01 – 240.000,009.009,214.146,427.085,00-21,4%
240.000,01 – 270.000,009.009,214.353,747.475,00-17,0%
270.000,01 – 300.000,009.009,214.571,427.865,00-12,7%
300.000,01 – 340.000,009.009,214.799,998.320,00-7,7%
340.000,01 – 380.000,009.009,215.040,008.840,00-1,9%
380.000,01 – 420.000,009.009,215.291,999.360,003,9%
420.000,01 – 460.000,009.009,215.556,599.880,009,7%
460.000,01 – 500.000,009.009,215.834,4310.400,0015,4%
500.000,01 – 550.000,009.009,216.126,1510.985,0021,9%
550.000,01 – 600.000,009.009,216.432,4511.635,0029,1%
600.000,01 – 650.000,009.009,216.754,0712.285,0036,4%
650.000,01 – 700.000,009.009,217.091,7712.935,0043,6%
700.000,01 – 750.000,009.009,217.446,3613.585,0050,8%
750.000,01 – 850.000,009.009,217.818,6814.560,0061,6%
850.000,01 – 950.000,009.009,218.209,6215.860,0076,0%
950.000,01 – 1.050.000,009.009,218.620,0917.160,0090,5%
1.050.000,01 – 1.150.000,009.009,219.051,1118.460,00104,9%
1.150.000,00 – 1.200.000,009.009,219.503,6519.435,00115,7%
1.200.000,01 – 2.200.000,009.010,519.503,6520.193,33124,1%
2.200.000,01 – 3.200.000,009.011,819.503,6521.060,00133,7%
3.200.000,01 – 4.200.000,009.013,119.503,6521.926,67143,3%
4.200.000,01 – 5.200.000,009.014,419.503,6522.793,33152,9%
5.200.000,01 – 6.200.000,009.015,719.503,6523.660,00162,4%
6.200.000,01 – 7.200.000,009.017,019.503,6524.526,67172,0%
7.200.000,01 – 8.200.000,009.018,319.503,6525.393,33181,6%
8.200.000,01 – 9.200.000,009.019,619.503,6526.260,00191,1%
9.200.000,01 – 10.200.000,009.020,919.503,6527.126,67200,7%
10.200.000,01 – (em diante)9.022,219.503,6527.560,00205,5%
Projeção: Sinduscon-ES. Incluídos ISS, FUNEPJ, FADESPES, FUNEMP, FUNCAD

Emolumentos para registro

Valor inicial e final da faixa (em R$)ATUAL (em R$)TJES (em R$)ALES (em R$)VAR. ATUAL X ALES
150.000,01 – 180.000,004.467,422.054,983.718,13-16,8%
180.000,01 – 210.000,005.131,442.157,734.394,16-14,4%
210.000,01 – 240.000,005.662,622.211,684.750,58-16,1%
240.000,01 – 270.000,005.662,622.322,265.043,08-10,9%
270.000,01 – 300.000,005.662,622.438,375.335,58-5,8%
300.000,01 – 340.000,005.662,622.560,295.676,830,3%
340.000,01 – 380.000,005.662,622.688,306.066,837,1%
380.000,01 – 420.000,005.662,622.822,726.456,8314,0%
420.000,01 – 460.000,005.662,622.963,866.846,8320,9%
460.000,01 – 500.000,005.662,623.112,047.236,8327,8%
500.000,01 – 550.000,005.662,623.267,647.675,5835,5%
550.000,01 – 600.000,005.662,623.431,038.163,0844,2%
600.000,01 – 650.000,005.662,623.602,598.650,5852,8%
650.000,01 – 700.000,005.662,623.782,719.138,0861,4%
700.000,01 – 750.000,005.662,623.971,859.625,5870,0%
750.000,01 – 850.000,005.662,624.170,4410.356,8382,9%
850.000,01 – 950.000,005.662,624.378,9611.331,83100,1%
950.000,01 – 1.050.000,005.662,624.597,9112.306,83117,3%
1.050.000,01 – 1.150.000,005.662,624.827,8113.281,83134,6%
1.150.000,00 – 1.200.000,005.662,625.069,1914.013,08147,5%
1.200.000,01 – 2.200.000,005.662,625.069,1914.581,83157,5%
2.200.000,01 – 3.200.000,005.662,625.069,1915.231,83169,0%
3.200.000,01 – 4.200.000,005.662,625.069,1915.881,83180,5%
4.200.000,01 – 5.200.000,005.662,625.069,1916.531,83191,9%
5.200.000,01 – 6.200.000,005.662,625.069,1917.181,83203,4%
6.200.000,01 – 7.200.000,005.662,625.069,1917.831,83214,9%
7.200.000,01 – 8.200.000,005.662,625.069,1918.481,83226,4%
8.200.000,01 – 9.200.000,005.662,625.069,1919.131,83237,9%
9.200.000,01 – 10.200.000,005.662,625.069,1919.781,83249,3%
10.200.000,01 – (em diante)5.662,625.069,1920.106,83255,1%
Projeção: Sinduscon-ES. Incluídos ISS, FUNEPJ, FADESPES, FUNEMP, FUNCAD
Julia Camim

Editora de Política

Atuou como repórter de política em jornais do Espírito Santo e fora do Estado. Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa, é formada no 13º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.

Atuou como repórter de política em jornais do Espírito Santo e fora do Estado. Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa, é formada no 13º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.