Arquitetura da periferia por Fredone Fone na Exposição 20/20

Do pátio do Museu Vale observam-se ao longe favelas com suas casas por rebocar. São nessas comunidades que vizinhos se reúnem, de tempos em tempos, para “bater uma laje” e depois compartilhar um mocotó, em uma mostra tradicional do que hoje chamam modernamente de trabalho colaborativo. Essa arquitetura da periferia, permeada de relações sociais, é que forma e inspira o artista capixaba Fredone Fone, que participa da Exposição 20/20, realizada em comemoração aos 20 anos do Museu Vale.

Idealizador da fachada de entrada, do piso e da guarita, nos quais aplicou a vida das suas tintas com as características cores vermelho, preto, branco e cinza, Fredone traz para a exposição mais que a sua linguagem artística, traz sua história de vida que forjou a sua formação.

“Trabalhei como pintor e pedreiro dos 10 aos 20 anos com meu pai. Ele é que me ensinou as técnicas de construção e me apresentou os materiais que uso. Meu pensamento crítico está ligado às culturas do hip hop, skate e grafite que vivencio desde a minha adolescência. Faço pintura abstrata, usando elementos geométricos”, conta Fredone.

E é isso que se vê no resultado final do vibrante trabalho de Fredone no Museu. Uma explosão de formas e cores de um artista que entrou pela primeira vez em um cinema aos 20 anos e que sempre teve, e faz questão disso, como sua vitrine a rua. “De certa forma, mesmo no Museu, continuo na rua, porque estou aqui do lado de fora, no muro e no chão, onde o pescador passa e vê a fachada que pintei, sem o status daquela arte que não se pode tocar, mas que se mistura com a cidade”, explica Fredone.

O processo de criação do artista para a Exposição 20/20 partiu de um desenho cuidadosamente feito em casa para a fachada, até o improviso de lidar com um período de muita chuva e concluir a pintura do piso três horas antes da abertura da mostra, interagindo com os pintores do próprio galpão. “É incrível como o ofício da pintura aproxima as pessoas. Uso o mesmo rolinho dos pintores tradicionais, mas com status de arte”, relata Fredone.

Com simplicidade peculiar e jeito de fazer arte que ele considera meio destoante, Fredone conta que sequer costumava visitar museus até o seu trabalho começar a ser visto por um público diferente dos seus grupos de amizade. “Venho da rua e acho muito interessante perceber que a minha trajetória tem sido acompanhada por outros públicos. Não imaginaria isso há dez anos. Esta é uma oportunidade de expor o meu ponto de vista que traz a poética periferia, além da luta pela moradia”, conclui Fredone.

Serviço
Exposição 20/20 até 25/02/2019
Terças a sextas, das 8h às 17h, sábados e domingos, das 10h às 18h
Em janeiro, terças a domingos, das 10h às 18h
Entrada gratuita
Museu Vale – Antiga Estação Pedro Nolasco, s/n, Argolas – Vila Velha/ES
Informações: (27) 3333-2484

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *