Reflexão sobre formas de violência integra a Exposição 20/20

A mostra celebra os 20 anos do Museu Vale e traz obras de 20 artistas nascidos ou moradores do Espírito Santo.

Temática mais do que presente na sociedade, a questão da violência foi ponto de partida para a criação de dois artistas que compõem o quadro de talentos da Exposição 20/20, que marca os 20 anos do Museu Vale. Enquanto Rafael Pagatini aborda em “Retrato Oficial” a questão da ditadura em uma obra que usa dez mil pregos de aço cravados na parede, Thiago Arruda usa a potência da linguagem da xilogravura para retratar um ser deformado em cenas desconfortantes.

 

Para Rafael, gaúcho residente em Vitória que, após seis meses de pesquisa e montagem, traz os retratos dos presidentes militares com destaque nas bocas fechadas impressas sobre os pregos, o objetivo foi criar relações entre a oficialidade do regime, o silenciar do estado de exceção, e o elemento da construção civil que remete à violência.

Exposição 20/20 – Museu Vale – 20 anos

“Desde que me mudei para Vitória, tive interesse em trabalhar com a paisagem social a partir da memória da ditadura militar. Em minhas aulas na Universidade Federal do Espírito Santo, escutava dos alunos relatos de mortes violentas de parentes e amigos, estupro e força repressiva do Estado, que me fizeram repensar minha condição como professor e artista. Como iria reagir a isso, percebendo a violência como um elemento impregnado na cultura, sociedade e história brasileira? Nesse contexto, resolvi estudar como foi a formação recente do Espírito Santo e como esse processo se relacionava com o discurso do progresso que promoveu ainda mais violência”, explica Rafael.

 

De outra perspectiva, o artista Thiago Arruda também aborda tal temática inquietante em quatro xilogravuras figurativas, de 68 x 94 centímetros cada, em preto e branco. As imagens trazem um personagem central que habita as imagens em realidades distintas, fazendo uma relação entre real, burlesco e trágico.

“Meu trabalho trata sobre a agressão, aborda momentos angustiantes ou mesmo terminais. A xilogravura intensifica isso, porque a técnica em si é uma agressão da ferramenta contra a madeira. São várias as alegorias e não há conforto, só desespero que beira o trágico, o cômico, as situações nas quais, por vezes, são impossíveis as tentativas de saída. Isso tem a ver com uma reflexão sobre a vida”, explica Thiago.

 

Segundo o gravurista, seu processo de criação está ligado a uma tentativa de compreensão da realidade, dos processos humanos e das relações interpessoais. “Quando vem a ideia eu fico ‘mastigando’ a imagem, pensando em porque ela precisa existir e em qual técnica ela vai ganhar vida. De alguma forma, estou inserido nos trabalhos com algo que não consigo me ‘livrar’. Isso me traz conforto, apesar de, ao mesmo tempo, as imagens produzirem, a meu ver, desconforto pelas deformidades dos corpos e pelas cenas nas quais proponho. Já o processo de gravação na madeira é rápido, porque eu mergulho e vou até a exaustão”, comenta.

Exposição 20/20 – Museu Vale – 20 anos

Esse conceito de rápido, para o artista, durou em torno de 18 horas de trabalho de entalhe em cada matriz. A impressão foi manual, através da técnica de esfregue (com colher de pau). Para cada imagem, entre entintagem e impressão, gastou-se cerca de 2 a 3 horas. Totalizando, portanto, entre a criação do conjunto das imagens e a produção em si, foram no mínimo 8 meses.

 

Thiago revela que se sente honrado de estar presente na exposição comemorativa do Museu Vale, uma vez que sempre teve o espaço como uma referência. ”É sem dúvida uma instituição consolidada, que respeita os artistas, entende a necessidade de se investir em cultura e tem funcionários apaixonados pelo que fazem. Fiquei muito feliz quando soube da seleção dos artistas. São todos excelentes, alguns referências para mim e outros bons amigos. Ser o único ali que traz a xilogravura me deixa muito satisfeito”, comenta.

 

Sentimento parecido é revelado por Rafael. “Sinto-me feliz de ser lembrado pela curadoria. É um grande incentivo para continuar trabalhando. A história de 20 anos do Museu é importante para a cidade e entendo que a exposição contribui para a visibilidade da produção local. Ao mesmo tempo, expor no Museu também é pensar criticamente sobre a memória que o envolve, não apenas culturalmente, mas histórica, social e politicamente”, conclui Rafael.

 

Serviço

Exposição 20/20

Até 25/02/2019

Terças a sextas, das 8h às 17h, sábados e domingos, das 10h às 18h

Em janeiro, terças a domingos, das 10h às 18h

Entrada gratuita

Museu Vale – Antiga Estação Pedro Nolasco, s/n, Argolas – Vila Velha/ES

Informações: (27) 3333-2484

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