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Drogas e paranoia trazem de volta a América de 1970 em 'Vício Inerente'

Redação Folha Vitória

São Paulo - Você já leu na capa - nasceram um para o outro, o diretor Paul Thomas Anderson, o PTA, e o escritor Thomas Pynchon. Ambos gostam de narrativas complexas, muitas subtramas e personagens consumidos pela paranoia. O Doc Sportello de Joaquin Phoenix em Vício Inerente é típico. Detetive particular em Los Angeles, em 1970 - o ano em que PTA nasceu -, Doc vive em meio à névoa das drogas que consome. De cara, a narradora informa que aquele não foi, do ponto de vista do zodíaco, um bom ano para drogados. E a culpa é do policial com o curioso apelido de BigFoot, interpretado por Josh Brolin.

BigFoot é Pé Grande em inglês e Doc, faça a ilação que quiser, deve ter os pés mais sujos da história de Hollywood - que exibe a todo momento para a câmera.

Joaquin Phoenix deve ter feito o sacrifício de não lavar os pés durante toda a filmagem, o que motiva um comentário divertido da juíza Reese Whiterspoon, com quem ele vai para a cama. Só para lembrar - Phoenix e Reese formaram dupla em Johnny & June, a cinebiografia de Johnny Cash e June Carter, quando ela ganhou o Oscar, embora quem merecesse de fato fosse ele, que nada levou. São histórias da Academia que o vento (não) levou.

Desde a cena inicial, o policial parece empenhado em infernizar a vida do detetive particular, que, por sinal, facilita sua tarefa ao acordar na cena de um crime, com um morto ao lado e perante toda a força-tarefa da polícia de Los Angeles. BigFoot tentou carreira no cinema, não conseguiu ir adiante. Parte da beleza de Vício Inerente vem do fato de o roteiro - do próprio PTA - criar o antagonismo entre Phoenix e Brolin. Normalmente, ele levaria a uma curva, ou arco dramático, mas não é o que ocorre e o final dá novo sentido, muito mais intenso - com direito a lágrima e tudo -, à ligação dos dois. E, ah, sim, vale assinalar que, se Joaquin Phoenix é (muito) bom, Josh Brolin consegue ser, pelo menos aqui, ainda melhor que ele.

E há a mulher, Shasta, o objeto de desejo de Doc. Os dois drogavam-se juntos, a droga terminou antes do amor e ela foi ser amante de um chefão do mercado imobiliário. Mickey Wolfman é judeu, mas não se desloca sem a guarda de uma gangue de neonazistas. PTA (e Pynchon) fazem um filme de opostos, subvertem o que seria o maniqueísmo tradicional do cinemão. A trama, propriamente dita, deslancha quando Shasta ressurge na vida de Doc pedindo ajuda. Ela suspeita de que Wolfman será alvo de um golpe por parte da mulher e do amante, que vão interná-lo (como louco) num instituto psiquiátrico. Wolfman e a própria Sasha desaparecem, Doc acorda na cena do crime e, quanto mais investiga, mais se enreda (com um barco que serve de fachada para uma organização de traficantes, com prostitutas especializadas no oral, etc.). BigFoot está sempre no seu encalço, nessa Los Angeles assombrada pelos crimes da seita de Charles Manson. No desfecho, a redenção do herói é transferida - para outro integrante da trama.

Embora autor de uma obra ainda curta - apenas sete títulos -, PTA não deixa de praticar a referência, e a autorreferência. O filme tem o visual da produção barata de Hollywood, pós-Sem Destino/Easy Rider, quando sexo, drogas e violência, mais que rock’n’roll, ditavam as cartas. Quando Doc visita a mulher de Wolfman, a casa está abrigando uma festa que se assemelha àquelas da indústria pornográfica de Boogie Nights, com direito a close do short (justinho) do amante cafajeste quando ele avança para a câmera sem mostrar a cara, mas exibindo o resto.

Críticos como Harold Bloom, que considera Pynchon um dos quatro autores canonizáveis do romance pós-moderno dos EUA (com Don DeLillo, Cormac McCarthy e Philip Roth), assinalam que o escritor cria uma realidade entrópica tangível apenas pela paranoia. Estão falando de Pynchon, ou de PTA? São autores gêmeos, na literatura e no cinema. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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