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'Ãrrã' coloca uma lente de aumento sobre o que está embutido no dia a dia

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'Ãrrã' coloca uma lente de aumento sobre o que está embutido no dia a dia

São Paulo - Ãrrã é daquelas expressões comuns em qualquer conversa, que, de certa forma, demonstra o interesse por aquilo que o outro está falando. O termo batiza o novo espetáculo da Cia. Empório de Teatro Sortido, que estreia nesta quinta-feira, 17, no Sesc Belenzinho, escrito e dirigido pelo cantor, músico e compositor - em carreira solo e no grupo 5 a Seco - Vinicius Calderoni. Com um jogo cênico que envolve múltiplos personagens, a peça, define o autor, busca a beleza no ínfimo e no banal contidos nas relações interpessoais.

"Ãrrã é a expressão mais banal e usual, falamos isso o tempo inteiro. É uma concordância, você assente sem perceber. Quando a gente começa a reparar, é insuportável. E eu acho que essa peça é um pouco sobre isso, colocar uma lente de aumento sobre aquilo que está mais embutido no dia a dia sem ser percebido", comenta Vinicius.

O autor teve as ideias iniciais para Ãrrã em 2011, enquanto escrevia, em lugares públicos, sua estreia como dramaturgo e diretor, Não Nem Nada. "Escutar as vozes das outras pessoas ajudou muito na própria dramaturgia, roubando frases", lembra. Mas só no ano seguinte, depois de ter finalizado seu primeiro trabalho teatral - montado em 2014 e finalista do Prêmio Shell nas categorias de melhor autor e melhor atriz (Renata Gaspar) - que ele organizou suas anotações para investigar situações em que os pensamentos das personagens vão fluindo paralelamente ao que está acontecendo no local em que estão fisicamente - sem necessariamente ter relação com o ambiente ao redor.

Assim, em uma das sequencias da peça, ele vasculha a mente de pessoas que foram assistir à apresentação de um violoncelista inglês: o rapaz apaixonado platonicamente pela amiga, um senhor de mais idade com dificuldade para encontrar seu assento, o músico iniciante que sonha em estar naquele palco e o crítico inseguro querendo ser reconhecido, entre outros tipos. São três blocos em que as situações são as mais variadas - de um garoto que visita o planetário pela primeira vez ao primeiro encontro de um casal em um restaurante e até uma moça sofrendo um ritual de mutilação genital em uma aldeia africana, por exemplo.

Se em Não Nem Nada eram quatro atores que também se dividiam em personagens diversos, em Ãrrã, isso cabe a uma dupla interpretar os devaneios criados por Vinicius: Luciana Paes e Thiago Amaral, da Cia. Hiato. A atriz já estava escalada para o espetáculo e mostrou, sem Vinicius saber, o texto ao colega de grupo, que logo procurou o amigo para também participar da montagem.

Com apenas duas pessoas, muda também a dinâmica dos jogos, assim como a concepção do cenário, que é composto apenas por uma espécie de prancha de madeira móvel. "As cenas se interligam, mas existe um tempo entre o momento em que você vê uma nova figura que o ator começa a incorporar e o tempo em que ele vai corrigindo o foco até entrar nessa figura de verdade. É como se existisse um espaço de três, quatro falas em que o ator está encontrando o lugar exato daquele personagem, enquanto o cenário e a luz estão mudando", explica Vinicius.

Ele vê nesse trabalho uma aproximação maior com o cinema, com os conceitos de zoom in (aproximação) e zoom out (afastamento) aplicados no teatro. "O zoom in de olhar o ínfimo, as nossas precariedades, as nossas fragilidades, com beleza. Por outro lado, o zoom out é de olhar de fora", diz Vinicius, que tem o filme Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson, com várias tramas se intercalando, como referência para o projeto.

Com outra ideia isolada para uma peça em vista, o dramaturgo percebeu que teria então uma trilogia, que chamou de Placas Tectônicas. Chorume, ainda não escrita, completa a trinca, também com número par de atores (seis), e tendo como matéria-prima, como ele diz, uma "literatura imprópria para o teatro" como a descoberta em manuais de instalação de geladeira, publicações de consultoria financeira, dedicatórias feitas em livros encontrados em sebos e placas de trânsito. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.