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'Luz Negra' mescla ficção e realidade

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Entretenimento

'Luz Negra' mescla ficção e realidade

São Paulo - Apesar de não ser longa, é intensa a relação de Paulo Faria com o centro de São Paulo. Em 2006, o diretor inaugurou a primeira sede de seu grupo - o Pessoal do Faroeste - na Alameda Cleveland, em Campos Elísios. Após uma enchente que culminou na saída do coletivo do imóvel, a companhia passou a ocupar, em 2012, o número 301 da Rua do Triunfo - região onde existiu (e, sem a força de antes, ainda existe) a Boca do Lixo, polo de uma vertente marginal do cinema entre 1960 e 1980. Foi neste local que o Pessoal do Faroeste apresentou as peças Cine Camaleão, A Boca do Lixo (2012) e Homem Não Entra (2013). Esses espetáculos se completam com Luz Negra, montagem que estreia nesta terça-feira, 14, encerrando uma trilogia na qual o grupo faz um mergulho na história da região.

Se Cine Camaleão... aborda a trajetória cinematográfica da Boca - que teve seu apogeu com as produções de pornochanchada - e Homem Não Entra resgata um fato de 1953, quando a região recebeu as mais de mil prostitutas expulsas do Bom Retiro pelo então prefeito Jânio Quadros, Luz Negra volta ainda mais no tempo. O enredo se passa na década de 1930, quando tinha força o movimento Frente Negra Brasileira, pelo qual a população negra buscava uma inserção maior na vida política, cultural e social da época.

Também dramaturgo, Faria constrói uma ficção com toques de realidade, apresentando ao público figuras marcantes do movimento negro. No texto, integrantes da Frente Negra trabalham em um programa vespertino da Rádio Luz Negra. Na ocasião, conduzem uma edição especial sobre a história de Luís Gama (1830-1882), jornalista, escritor e advogado soteropolitano que, após conquistar a própria liberdade, passou a batalhar em prol do abolicionismo. Um dos locutores é Abdias do Nascimento (1914- 2011), ativista que, em 1944, criou a companhia Teatro Experimental do Negro, montando peças que visavam à conscientização racial.

Na dramaturgia de Faria, uma tensão é criada com a presença de Vanda Marchetti. Vivida por Mel Lisboa, a decadente e preconceituosa atriz branca se envolve com os artistas negros em uma tentativa de se manter na mídia. A trama corre até o momento em que é anunciado o Estado Novo, em 1937, quando Getúlio Vargas determinou o fechamento do Congresso Nacional e a extinção dos partidos políticos.

A peça também faz menção ao cantor e compositor Geraldo Filme, relevante para a construção do samba paulistano, com forte ligação com a Vai-Vai e com o bairro da Barra Funda. A figura de Geraldo conversa com a peça, por ele ser negro, e com a região da sede do grupo, que é animada por uma roda de samba local.

"Acho que a ficção trata a história melhor do que a própria história", diz

Faria. "A história nunca é contada como ela é, tem sempre um ponto de vista. A gente faz ficção para dar um foco maior, para ampliar a realidade." Ele cita como exemplo a criação da personagem Flora Eunice, interpretada por Thais Dias. Trata-se de uma advogada negra e rica que nunca existiu, mas que auxilia o público na compreensão do que foi a Frente Negra Brasileira.

Para o diretor, Luz Negra tem a importância de retomar uma fase importante da história que caiu no esquecimento. "Essa questão nunca é discutida. O fim da Frente Nacional foi um grande atraso porque, se tivesse continuado, talvez não fosse necessário, hoje, ter reparações como as cotas."

Única atriz presente em todos os espetáculos da trilogia, Mel Lisboa participou dos processos de pesquisa para as montagens, que têm a coordenação de um acadêmico, envolvem debates e palestras sobre o tema em questão e, em alguns casos, geram documentários em vídeo. "É sempre muito interessante porque, em geral, o Paulo (Faria) trabalha com assuntos que desconheço", diz a atriz.

"Como artista, gosto de projetos que me acrescentem", afirma Mel, destacando que o fato de um profissional atuar na televisão não deve anular possíveis trabalhos no teatro. Para ela, existe, no imaginário de parte do público, uma trajetória em que o ator começa no teatro de grupo, migra para as grandes produções, novelas e, depois, cinema - caminho no qual ela não vê sentido.

É intenso o flerte do Pessoal do Faroeste com a sétima arte. "A ideia é discutir o cinema, mas sempre atrelando a fatos históricos do local", diz Faria. Luz Negra extrapola os projetos anteriores da companhia, que resultaram em curtas: filmada na própria Sede Luz do Faroeste, a peça deve virar um longa em março. A intenção do grupo não é fazer teatro filmado, mas gerar um produto independente que, por meio de parcerias, pode chegar às telonas. Enquanto o projeto não é finalizado, algumas cenas vão dialogar com a peça, com projeções durante a encenação. "Aparece no espetáculo toda a dramaturgia de fotografia do filme", explica Faria. "Uma joia usada por algum personagem, uma vela que é acesa. Tudo que é minimal vira cinema." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.