Crise hídrica, zona de conforto e a síndrome seletiva da torneira vazia

Por Francine Leite, repórter da série

Certo dia, quando comecei a me dedicar a essa série de reportagem, pensei em como a gente, além de refém, é acostumado com a água.

É só olhar um pouquinho para trás. Eu mesma, veja só – cresci a leite direto da vaca, remédio de folha de laranja e água de nascente. Durante 16 anos bem próximos à natureza, vivi rodeada pelo frescor e conforto do recurso hídrico abundante. Hoje, mais de 10 anos depois, agora mais perto da poluição do que do meio ambiente, vejo um pouco daquilo que eu vivi ir por água abaixo, como um hiato.

A culpa é de quem?

A companhia de tratamento e distribuição de água diz que foi a falta de chuvas e o gasto sem controle que provocaram toda essa seca. A batata quente (e a torneira vazia) fica com a população: assustados com a seca, os capixabas já economizaram mais de 7 bilhões de litros d’Água este ano. Medo ou consciência?

Em alguns casos, a consciência até pesa. Mas na maioria das vezes, o medo é prejudicar o bolso e perder o banho quente três vezes por dia.

São tantas formas visíveis de desperdício, que o olhar só vai até onde é mais fácil ver, né? Mas e os nossos sistemas públicos? Estão ok? Nossos encanamentos, dutos, tubulações… O que será que acontece antes da água chegar na nossa casa ou quando tudo vai pro ralo?

Esse foi o tom da segunda reportagem que fizemos sobre a crise hídrica. Um convite para uma mudança de olhar. Para o fim da indignação seletiva. A dona de casa que lava a calçada com água de mangueira não está certinha. Muito menos a companhia de abastecimento que deixa um rastro de vazamentos no caminho.

O manejo da água não pode ser mais o mesmo de 16 anos atrás, quando eu me dava ao luxo de beber água direto da fonte e a população em geral desfrutava de um recurso até então abundante. A zona confortável não mais existe. Água agora é um apelo para a sobrevivência.

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