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Cachoeiro pode decretar situação de emergência por causa da seca no campo

Geral

Cachoeiro pode decretar situação de emergência por causa da seca no campo

O interior do município vem sofrendo com a grave crise hídrica, que atinge Cachoeiro, e muitos produtores já não têm água para consumo próprio nas propriedades

Foram discutidas medidas para amenizar os prejuízos causados pela seca no interior de Cachoeiro Foto: ​Alissandra Mendes

Nesta quinta-feira (12), o prefeito de Cachoeiro Carlos Casteglione (PT), se reuniu com representantes de vários segmentos do município para discutir a crise hídrica que atinge a zona rural. O objetivo foi fazer um diagnóstico da atual situação e traçar estratégias de enfrentamento da estiagem.

Participaram da reunião representantes da Odebrecht, Agersa, Secretaria de Meio Ambiente, Defesa Civil, Incaper, Sindicato Rural, representante do Comitê da Bacia do Rio Itapemirim e da cooperativa Selita, uma das mais afetadas com o longo período de estiagem.

O prefeito Carlos Casteglione demonstrou preocupação e disse que o momento é de alerta máximo. “O cenário é crítico e exige de nós estarmos diariamente dialogando e nos mantendo atualizados sobre as informações. Precisamos encontrar caminhos para garantir o abastecimento de água dos nossos homens e mulheres do campo. Se preciso for, vamos decretar situação de emergência. O momento é de extrema cautela”, destaca.

Para o secretário de Meio Ambiente, Paulo Stelzer, é preciso intensificar as ações educacionais de consumo consciente. “A falta de água no campo reflete diretamente na cidade. Por isso, é importante que todos nós estejamos atentos e fazendo o uso consciente da água, para garantir esse bem essencial à vida de todos”, explica.

‘Situação é gravíssima’

Os produtores rurais amargam um grande prejuízo com a falta d'água Foto: ​Alissandra Mendes

O presidente do Sindicado Rural de Cachoeiro de Itapemirim Wesley Mendes, frisou que a situação no interior é grave. “Estamos vivendo a pior crise hídrica de nossa história, que teve início em 2013 e já se arrasta há três anos. Nesse tempo, tivemos cerca 50% menos de chuva em nossa região. Em 2015, o prefeito decretou situação de emergência na área rural da cidade, e os produtores foram atendidos com caminhões pipa que enchiam as caixas d’água para que os produtores e os animais não morrem de sede”, comenta.

A crise hídrica afeta diretamente a economia rural. Segundo Wesley, um levantamento feito em apenas uma agência bancária de Cachoeiro, revela que o índice de produtores endividados subiu 400%. “Nunca o número de produtores inadimplentes superou a marca de 1%. Somente em uma agência, tivemos um registro de 5% de dívidas rurais. Criamos uma cenário grave”, explica.

Mendes comentou ainda, que muitos produtores estão sem água para beber em suas propriedades. “Tivemos uma perda expressiva na produção em 2015 e todos os produtores foram atingidos em suas rendas. As dívidas vencem e, se perdem a produção, perdem também a capacidade de renda. O produtor não consegue pagar suas contas em dia e acreditamos, que esse cenário siga negativo até 2020. São dados alarmantes e preocupantes. Além de tudo isso, temos a grande preocupação do êxodo rural, já que muitos produtores estão sem água para beber em suas propriedades”, finaliza o presidente.

Pecuária de leite

Entre maio e março, a pecuária de leite teve uma baixa de 42% na produção Foto: ​Alissandra Mendes

A cooperativa Selita, a maior do sul do Estado, teve uma baixa de 42% na produção dos meses de março a maio, o que representa um prejuízo na produção industrial da empresa. Segundo o presidente da cooperativa, Rubens Moreira, o prejuízo para o produtor é incalculável.

“É uma período de seca que se estende por vários anos e atinge o rebanho e também dentro de nossa usina, que fica com a capacidade ociosa. Não é porque tivemos uma baixa de 42% que vamos demitir 42% do nosso quadro de funcionários, então a nossa receita está reduzida e os efeitos da crise hídrica se estendem”, explica.

Para amenizar os prejuízos no campo, a cooperativa oferece um crédito de R$ 5 mil para seus associados. O valor pode ser pago em 10 parcelas sem juros. “A decadência começa no campo e se estende. Além do incentivo ao produtor, estamos melhorando o preço do leite e neste mês pagamos 25% acima do que foi pago há três meses”, comenta Rubens.

De acordo com o presidente, por causa da queda da produção leiteira, a cooperativa parou de fabricar o leite em pó. “Estamos direcionando para nossos produtos refrigerados e leite. Parte de nossa indústria está parada”, completou.

Cafeicultura

De acordo com dados passados por representantes do Incaper na reunião, em Cachoeiro há 986 propriedades que produzem café, um com parque cafeeiro de 2.700 hectares. A produção normal gira em torno de 94.500 sacas de café anualmente. Mas, com a seca do último ano, os produtores tiveram uma perda de 69% da produção.

Com as chuvas no fim de 2015, os produtores conseguiram recuperar parte das lavouras, e a estimativa para este ano é de colher em torno de 60% da safra normal, cerca de 50.500 sacas de café.

As estimativas do Incaper do município de perdas grandes em produções na área da fruticultura, café, pecuária de leite e corte, olericultura e outras culturas alimentares giram em torno de R$ 29 milhões.

Rio Itapemirim

O rio Itapemirim pode atingir, mais uma vez, o nível mais baixo de sua história Foto: ​Alissandra Mendes

No passado, o rio Itapemirim atingiu o menor nível de sua história, mas a captação de água na área urbana de Cachoeiro não foi prejudicada. Para o presidente do Comitê da Bacia do Rio Itapemirim, Paulo Breda, hoje, a área urbana ainda está tranquila, mas a situação exige preocupação.

“Não sabemos como a natureza vai se comportar. O rio não pode baixar mais, mas também não podemos afirmar. Estamos elaborando um plano de emergência para tomarmos as decisões necessárias. Só choveu nos últimos meses 25% dos 100 % esperados para o período, mas não podemos falar do futuro”, comenta.

Segundo Breda, a captação de água para atender a área urbana de Cachoeiro é de 5% da área do rio Itapemirim. “Os moradores da área urbana não terá problemas, pelo menos por enquanto, com a captação de água. Mas, precisamos saber se quando acabar no Caparaó aqui já secou, e isso, somente os estudos do planejamento vão apontar”, completa.

Área urbana pode ser atingida

O monitoramento realizado pela Odebrecht Ambiental, responsável pela captação, tratamento e distribuição da água e também pela coleta e tratamento de esgoto no município, aponta que a média da vazão do Rio Itapemirim passou de uma vazão média de 40.000 litros por segundo, no primeiro trimestre de 2016, para uma média de 14.000 litros por segundo em maio de 2016. 

De acordo com o diretor da concessionária, Bruno Ravaglia, a Odebrecht Ambiental atua buscando garantir o abastecimento contínuo de água para todos os habitantes do município e realizou, ao longo dos anos, investimentos que permitem que Cachoeiro seja menos impactado em relação à crise hídrica. 

“Apesar da incidência mais baixa de chuvas, a população de Cachoeiro não sofre hoje com o desabastecimento de água. Mas a concessionária mantém a atenção no monitoramento 24 horas por dia, acompanhando a vazão do Rio Itapemirim, identificando vazamentos e sempre buscando maneiras eficientes e precisas para conduzir a operação”, afirma.

Previsão para os próximos meses

Foto: ​Divulgação/Incaper

De acordo com a previsão do tempo mensal feita pela equipe do Sistema de Informações Meteorológicas do Incaper, e a trimestral, feita pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) não são animadoras para os produtores. O meteorologista do Incaper, Bruce Pontes, reforçou que a previsão é de, na melhor das hipóteses, chuva dentro do normal, sendo que o normal para esta época do ano, é tempo seco. A temperatura deve ficar um pouco acima da média.

Ainda, segundo o Incaper, maio marca o estabelecimento do período seco no estado. A região Noroeste recebe menos que 30 mm, em algumas áreas. O sudeste do estado é a área capixaba com mais chuva no mês em relação às demais localidades. As temperaturas ficam cerca de 2°C mais baixas, em média, em relação ao mês de abril.

A equipe do Sistema de Informações Meteorológicas do Incaper observou algumas inconsistências entre os modelos de previsão de clima. Isso implica numa baixa previsibilidade em relação à qualidade do regime de chuvas esperada para o próximo trimestre (maio/junho/julho).

São esperadas chuvas dentro do normal na maior parte do estado, lembrando que o mês faz parte do período seco, ou seja, mesmo que a chuva fique dentro do normal, não deverá ser significativa quando comparada às chuvas do período chuvoso. De acordo com o GTPCS/MCTI, o fenômeno ENOS (El Niño Oscilação-Sul) se encontra em decaimento e é provável que a fase fria (La Niña) passe a atuar no fim de 2016. No Espírito Santo, o fenômeno não exerce influência direta no regime de chuvas.