Delegada Gabriela Enne em coletiva sobre o caso do PM agredido (Foto/divulgação: SESP)
Delegada Gabriela Enne em coletiva sobre o caso do PM agredido (Foto/divulgação: SESP)

O homem preso por agredir o cabo da Polícia Militar Mariusom Marianelli Jacintho afirmou à Polícia Civil que “perdeu a cabeça” no momento da agressão e agiu de forma impulsiva. A informação foi confirmada pela delegada Gabriela Enne, do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP), responsável pelas primeiras diligências do caso.

A agressão ocorreu na tarde da última sexta-feira (26), em um posto de combustíveis em Coqueiral de Itaparica, em Vila Velha. O policial foi atingido por dois golpes com um cano de PVC com base de concreto e segue internado em estado grave.

Segundo a delegada, o suspeito foi ouvido após se apresentar voluntariamente à Delegacia de Homicídios, acompanhado de um advogado. Durante o interrogatório, que durou cerca de uma hora, ele relatou de forma detalhada como ocorreu a confusão que antecedeu o ataque.

De acordo com o depoimento, Kennedy Thaumaturgo Rocha Júnior estava em uma loja de roupas masculinas de sua propriedade, instalada em um contêiner no posto de gasolina, quando ouviu uma discussão entre a vítima e um funcionário de um lava-jato. A discussão teria começado após o policial urinar em uma área externa do estabelecimento.

A delegada destacou que, embora o ato da vítima tenha sido inadequado, o policial urinava em um local voltado para uma parede. Ainda assim, houve repreensão por parte de pessoas que estavam no local, incluindo o autor da agressão, o que resultou em troca de xingamentos.

Ainda segundo a Polícia Civil, em determinado momento, o policial se afastou e passou a discutir à distância, próximo ao próprio veículo. Foi então que o suspeito se levantou, caminhou até um cano de PVC com base de concreto, que estava a cerca de cinco metros, e correu em direção à vítima, desferindo dois golpes — um na região da clavícula e outro na cabeça. O policial caiu ao solo imediatamente.

Na sequência, o irmão da vítima tentou afastar o agressor, e o filho do suspeito também interveio na confusão.

Durante o depoimento, o suspeito alegou que teria ouvido a vítima pedir uma arma à companheira, que estava dentro do carro. No entanto, essa versão não é confirmada pelas provas.

Nas imagens de videomonitoramento, inclusive ofertadas pelo próprio advogado do agressor, existem áudios e em nenhum momento foi possível ouvir a vítima solicitando essa arma.

Gabriela Enne, delegada

Após a agressão, a companheira do policial saiu do veículo com uma arma em punho. Segundo a delegada, a atitude ocorreu por medo de novas agressões.

Ela verificou que a vítima caiu ao solo e não levantava mais. Com receio de que ele fosse mais agredido, pegou a arma e apontou para as pessoas para afastá-las, com o objetivo claro de legítima defesa de terceiro.

Gabriela Enne, delegada

O chefe da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vila Velha, delegado Daniel Fortes, reforçou que as imagens mostram de forma clara que apenas o suspeito praticou a agressão que deixou o policial gravemente ferido. Segundo ele, não há indícios de participação de terceiros no ataque.

Daniel Fortes também destacou a banalidade do motivo da briga, ressaltando que a situação poderia ter sido resolvida com o acionamento da Polícia Militar ou da Guarda Municipal. “Não cabe à população fazer justiça com as próprias mãos”, afirmou o delegado.

Durante o depoimento, ainda conforme a delegada Gabriela Enne, o suspeito demonstrou arrependimento e afirmou que, se pudesse voltar atrás, teria agido de outra forma. Segundo ele, a atitude foi impulsiva e tomada sem reflexão.

O suspeito fugiu logo após a agressão e foi monitorado pelos serviços de inteligência da Polícia Civil. Durante a madrugada, a Polícia Civil representou pela prisão preventiva, que foi decretada pela Justiça. Após tomar conhecimento do mandado de prisão, o homem decidiu se entregar espontaneamente no domingo (28).

Ele teve a prisão preventiva cumprida por tentativa de homicídio. As investigações continuam e o inquérito será encaminhado à Justiça após a conclusão das diligências.

O outro lado

Após a coletiva de imprensa da Polícia Civil, a defesa de Kennedy se pronunciou e sustentou a afirmação de que o policial teria pedido à companheira para pegar uma arma e que essa fala por parte da vítima teria motivado a reação do suspeito contra a vítima.

Segundo nota assinada pelo advogado de Kennedy, Anderson Burke, os áudios dos vídeos coletados como prova da agressão registram, sim, a fala do cabo Mariusom sobre a arma, exatamente no momento mencionado por seu cliente em depoimento.

O advogado afirma que houve um equívoco na análise feita pela polícia.

“Entendemos que o equívoco foi causado possivelmente pela utilização de equipamentos de reprodução de áudio com tecnologia inadequada para a correta captação e compreensão do áudio das mídias disponibilizadas. Com efeito, sequer seria necessária a realização de perícia para constatar que, nos exatos momentos (hora, minuto e segundo) mencionados no interrogatório de Kennedy, constam em mais de um vídeo as seguintes verbalizações atribuídas a Mariuson:

– às 17h50min16s, a expressão “você quer morrer?”;

– às 17h50min24s, a expressão “cadê minha arma?”.

Essas falas ocorrem precisamente nos instantes indicados no interrogatório, o que reforça a coerência entre o relato do investigado e o conteúdo audiovisual apresentado exatamente nos momentos apontados”, diz a nota.

Diante disso, o advogado afirma que vai requerer realização de perícia audiovisual no material.

*Com informações do repórter Paulo Rogério, da TV Vitória/Record.

Leiri Santana, repórter do Folha Vitória
Leiri Santana

Repórter

Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e especializada em Povos Indígenas.

Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e especializada em Povos Indígenas.