Discurso de Moro mirou bandeiras e falhas de Bolsonaro

Crédito: Robert Alves

O primeiro discurso do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, agora oficialmente como político, já sinaliza o tom e o rumo que tomará sua campanha, caso o nome dele seja confirmado como candidato a presidente da República pelo Podemos. Ainda que Moro tenha feito fama como algoz do ex-presidente Lula e tenha citado manchas das gestões petistas em sua fala de uma hora ontem (10), foi contra Bolsonaro que ele mirou toda sua artilharia.

Boa parte do discurso foi pautado em falas de combate à corrupção. Contou o motivo de ter deixado o Ministério da Justiça: “Queria combater a corrupção, mas para isso eu precisava do apoio do governo e esse apoio foi negado”. Disse, com todas as letras, que “é mentira dizer que acabou a corrupção”. E foi interrompido pelos aplausos de uma plateia em polvorosa – que o interromperia outras 48 vezes – ao bradar: “Chega de mensalão, chega de petrolão, chega de rachadinha, chega de orçamento secreto!”.

Mas Moro não ficou só nesse tema. Ele atacou os pontos frágeis do governo Bolsonaro, como a gestão da pandemia, homenageando a ciência e os profissionais de saúde, a quem chamou de verdadeiros heróis; citou “a economia que não vai bem”, dando exemplos da inflação e dos juros altos e a parcela da população desempregada e empobrecida; citou a falta de compromisso com a gestão fiscal, com a proteção das florestas, o ataque às instituições e à democracia. “Chega de ofender ou intimidar jornalistas. Os jornalistas são essenciais para o bom funcionamento da democracia e agem como vigilantes de malfeitos dos detentores de poder.”

Sergio Moro discursa: “Chega de orçamento paralelo”
Crédito: Robert Alves

Em seguida, Moro fez uma apresentação do que seriam os principais eixos do seu plano de governo – Moro não admitiu que será candidato a presidente da República, mas sua postura, seu discurso e até a entonação de sua voz, que melhorou após iniciar tratamento com fonoaudiólogo, não deixam dúvidas que o alvo é o Palácio do Planalto. E as pautas citadas por ele conversam com o mesmo eleitorado de Bolsonaro, ou melhor, com o eleitorado que votou em Bolsonaro em 2018, mas hoje diz estar arrependido.

Moro disse que quer acabar com a reeleição para cargos executivos e com o foro privilegiado, também quer voltar com a prisão em segunda instância – pautas que um dia foram encampadas por Jair Bolsonaro. Moro disse que é necessário que os políticos deem o exemplo, fazendo sacrifícios. Aliás, a classe política foi bastante criticada pelo ex-juiz que afirmou ter aceitado o convite de filiação para mudar de “dentro para fora”.

Prometeu independência do Ministério Público, respeito à lista para o cargo de PGR, autonomia da Polícia Federal com diretores cumprindo mandatos. Enfatizou o combate à criminalidade, principalmente o tráfico de drogas, a proteção da família, o livre mercado com a abertura da economia, “o potencial empreendedor” de cada brasileiro, a venda de estatais, reformas estruturantes. Moro ainda acenou às Forças Armadas e citou valores cristãos para anunciar uma força-tarefa para erradicar a pobreza – em dado momento, ao dizer que poderia lutar sozinho pelo Brasil, Moro chegou a citar a história bíblica de Davi e Golias.

Moro atacou os pontos fracos da gestão Bolsonaro e chamou para si as principais bandeiras que o Presidente usou em sua campanha, deixando claro qual eleitorado ele vai disputar: Moro, na corrida presidencial, tira votos de Bolsonaro e divide a votação com outros nomes cotados para a “terceira via”, com inclinação à direita.

Falta carisma

Embora tenha melhorado na oratória – no início do discurso, Sergio Moro ironizou as críticas à sua voz –, o ex-juiz ainda precisa de um intensivão para pegar os bons trejeitos políticos. Isso porque uma campanha não se faz só com um discurso redondo (e parecido com a apresentação de um trabalho escolar) e com a razão. Eleitor também gosta de discurso apaixonado, espontâneo, estilo espetáculo. Política também é emoção.

Nem passou perto

Moro não citou – não explicitamente – as derrotas que sofreu no STF com relação ao julgamento do ex-presidente Lula.

Pesquisa mostra Moro em 3º

Pesquisa da Genial/Quaest feita entre os dias 3 e 6 deste mês (novembro), com 2.063 entrevistas e com margem de erro de 2,2 pontos, mostra que Sergio Moro aparece em terceiro lugar na intenção de voto para presidente da República. Em dois cenários estimulados ele soma 8% e está atrás de Lula (48%) e Bolsonaro (21%). Na região Sul, é onde Moro tem melhor desempenho (12%) e no Nordeste, o pior (4%). Moro também tem uma rejeição alta, com 60% dos entrevistados afirmando que o conhecem e que não votariam nele.

Conversas com tucanos

Gilson e Moro em filiação Crédito: Divulgação

O presidente do Podemos-ES, Gilson Daniel, que vai coordenar a campanha de Moro no Estado, disse que o partido está conversando com outras siglas, inclusive com o PSDB que está às vésperas de disputar as prévias e definir seu pré-candidato à Presidência. A proximidade de Moro com o PSDB já foi levantada e questionada no mercado político.

 

Sentiu o golpe

Logo após o discurso, bolsonaristas encheram as redes sociais de críticas ao ex-ministro, chamando-o de traidor e traíra. Até os senadores que acompanharam a filiação foram hostilizados. Marcos do Val (Podemos) ficou entre os assuntos mais comentados. “Minha relação com o governo federal continua da mesma forma, trabalhando como aliado e não como alienado. Sou representante do Espírito Santo e preciso priorizar o Estado, e não candidato de A ou B. Como foi o dia de entrada dele (Sergio Moro) no partido, estive presente. Mas só no ano que vem vou me posicionar, na campanha ou não”.

Sentiu o golpe II

A equipe do Palácio do Planalto ofereceu uma entrevista para uma rádio capixaba, de Castelo (cidade natal do governador Renato Casagrande), com o presidente Jair Bolsonaro, e a entrevista ocorreu ontem (10), no mesmo horário da filiação de Moro ao Podemos.

Bolsonaro repetiu que não há corrupção em seu governo, culpou governadores pelo alto preço dos combustíveis, chamou a Petrobras de “monstrengo” e que quer “privatizar parte dela”, disse que não faltou vacinas graças a ele (ele = Bolsonaro) e se mostrou incrédulo com relação à terceira via, chegando a citar um versículo bíblico. Disse ainda que a CPI da Covid ajudou a desgastar a imagem do Brasil e que não é o culpado pela inflação e pelas cenas de “pessoas pegando osso no caminhão de lixo”.

À tarde, enquanto a repercussão sobre a filiação de Moro ainda estava em alta, Bolsonaro almoçou com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e marcou sua filiação para o dia 22, o que foi anunciado logo depois.

Porta fechada

Já no Estado, o PL fechou a porta para a deputada federal Soraya Manato. O presidente do partido e ex-senador Magno Malta, entrou em contato com o ex-deputado Carlos Manato e disse que já tinha acordado com alguns candidatos sobre a chapa federal. Já a situação de Manato entrar no partido para ser candidato a governador, será definido depois. “Vamos conversar em Brasília”, disse Manato.Na noite de ontem, Magno Malta enviou nota à coluna sobre o caso e negou que haverá intervenção da nacional para abrigar a família Manato na sigla.

“É claro que todo conservador que acompanha o presidente Bolsonaro, como o ex-deputado Manato e a deputada Soraya desejam seguir juntos na mesma sigla. Importante dizer que não tem mais coligação e as pessoas que se filiaram ao partido a fim de disputar a eleição, vieram com a minha palavra que disputariam com chances iguais. Posteriormente conversarei com todos os nossos candidatos e com Manato sobre suas pretensões. A sustentação ao presidente Bolsonaro por parte das siglas PL, Republicanos, PP, PTB, Patriota, PSD e outros, é legítima. Mas a Executiva estadual trabalhará com total autonomia sem qualquer decisão de cima para baixo”, diz a nota.