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'Produtores que estão alegres hoje vão chorar amanhã', diz líder da bancada ruralista no Senado

Política

'Produtores que estão alegres hoje vão chorar amanhã', diz líder da bancada ruralista no Senado

Ex-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e ex-ministra da Agricultura, a senadora, que era símbolo da retórica antiambiental, afirmou que "evoluiu"

Foto: Agência Senado

Uma das líderes da bancada ruralista no Senado, Katia Abreu (PDT-TO) disse que a política do presidente Jair Bolsonaro para o meio ambiente pode fechar o acesso de produtos brasileiros no exterior e causar prejuízos ao agronegócio. "Os agricultores que estão alegres hoje vão chorar amanhã." Ex-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e ex-ministra da Agricultura, a senadora, que era símbolo da retórica antiambiental, afirmou que "evoluiu". Esse discurso, na avaliação dela, é "antimercado" e representa atraso. Para ela, cabe ao Congresso atuar como um "aceiro".

A sra. já foi muito associada ao desmatamento, mas tem feito discursos a favor da preservação da Amazônia no Senado. O que mudou?

Eu tinha um discurso radical, para o lado dos meus. Tenho muito orgulho de ter evoluído. Meu pensamento estava dentro de uma caixinha: "Isso é ambientalista que quer destruir a agricultura brasileira, que já destruiu suas matas". Aquela coisa decorada. E não tem nada a ver. Abri meus olhos e aprendi o quanto a Amazônia era importante para garantir as chuvas no sul e centro do Brasil. Aprendi sobre a importância de se manter as nascentes dos rios.

O discurso do governo pode prejudicar o agronegócio?

O Bolsonaro está se comportando como antimercado. Hoje, as empresas mais valorizadas na bolsa têm um componente fortíssimo tecnológico e de sustentabilidade. Todo mundo já incorporou isso como necessidade, e não como uma coisa de politicamente correto. Quem é que não está vendo, mais do que nós, agricultores, que as chuvas mudaram, a temperatura mudou, rios que não secavam antes, que eram perenes, e hoje secam? Quem nega isso está fora da realidade. O presidente precisa entender que meio ambiente e agronegócio não são uma questão gastrointestinal.

Por que o agronegócio apoia esse discurso?

Os produtores estão enganados. Os produtores estão alegres hoje e poderão chorar amanhã. Temos o agro que produz na roça, que apoia o Bolsonaro. Mas o agro tem outras cadeias: a produção de insumos, o processamento e industrialização e os transportadores. Esses três últimos estão desesperados, porque quem vai bater na porta com a cara e a coragem para vender são eles.

Como isso pode prejudicar as vendas dos produtos brasileiros?

Eu tenho muito medo de que percamos mercado. Estamos no auge de um acordo delicado, que é União Europeia e Mercosul. Os agricultores na Europa são fortíssimos e altamente subsidiados, não conseguem competir conosco sem isso. Então, qualquer coisa vai ser desculpa para atrasar a implementação desse acordo por três, quatro, cinco anos. É do que precisam para arrumarem barreiras técnicas aos nossos produtos. Imaginem os comerciais que essas associações poderosas da Europa podem fazer contra nós lá, na TV e internet? E farão: "O Brasil aumenta o desmatamento e acaba com a Amazônia".

Qual é o papel do Congresso neste contexto?

Quando uma fazenda pega fogo, em vez de tentar apagar o fogo, ele te queima, você vai lá na frente, faz um aceiro (raspagem do chão com trator) para o fogo parar ali. Aí você pega e rapidamente controla o fogo, queima aquele pedaço e acabou. Então, nós precisamos fazer o contrafogo. Temos a legislação mais rigorosa do mundo, muito boa para seus objetivos. No Senado, garanto que não há ambiente para flexibilizá-la.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.