A paternidade do século XXI

No último domingo foi comemorado o Dia dos Pais e nesse mês de agosto vamos dedicar mais atenção a eles. É sempre bom tocar num assunto ainda pouco explorado, em que novos estudos e pesquisas vêm sendo realizados recentemente. Então vamos aproveitar a ocasião para trazer o tema da Paternidade, porém numa perspectiva da Psicanálise.

Temos notado no nosso cotidiano uma nova forma de relação entre pais e filhos. Desde o momento em que o homem sabe que será papai, passando por toda a gestação da sua companheira em que ele participa das consultas pré-natais e no nascimento do filho na sala de parto. Após o nascimento, seja na maternidade e em casa, participa dos cuidados do bebê (embora tenha um curto tempo para a licença paternidade – vamos falar sobre isso em outro momento), como trocar fralda, dar banho, auxiliar a esposa na amamentação, acordar de madrugada, entre outras tantas demandas de um bebê. À medida que a criança cresce, pai e filho interagem cada vez mais, compartilham experiências e uma nova paternidade se configura nas relações familiares e na relação entre o casal.

Sem dúvida que os fatores socioculturais levaram a essa mudança de comportamento. Ao analisarmos ao longo da história da sociedade, os papéis de pai e mãe eram definidos e atribuíam-se a função de cada um no desenvolvimento da criança. O homem era responsável pelo aspecto financeiro e assim sua tarefa se restringia ao trabalho externo. E a mulher, era destinada a organização da vida social, as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos. Graças à inserção das mulheres no mercado de trabalho essa realidade mudou. É importante ressaltar que ainda não vivemos no modelo ideal, porém é inegável a evolução da paternidade nesse sentido. Uma vez que as mulheres não estão período integral em casa e assumem o papel também de provedoras, as tarefas passam a ser divididas e os homens assumem novas funções como os afazeres domésticos e participam de forma mais ativa na vida dos filhos.

A PATERNIDADE PARA A PSICANÁLISE

No aspecto psíquico é importante destacar a relevância da presença do pai desde a vida uterina. O pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott (1896 – 1971), referência nos estudos  na área da Psicanálise Infantil, acredita que o pai é um fator importante desde o momento em que a mãe descobre a sua gravidez, pois a presença dele auxilia em todo o processo de desenvolvimento da criança, uma vez que ele serve de suporte para que a mãe possa centralizar-se nos cuidados para com o filho gerado. O pai oferece a mãe o que Winnicott chama de “holding”, ele é um lugar de amparo, segurança onde a mãe passa a ter como alvo os cuidados para com o filho nos primeiros meses do recém-nascido.

Outra função paterna na relação mãe-bebê se dá pela presença do pai no ambiente. Essa presença faz com que a criança saia da simbiose construída entre ela e sua mãe permitindo a ela a compreensão de que o amor da mãe por ela é dividido com outro. A presença do pai no ambiente desta criança faz com que a mesma aprenda a criar novas relações construindo assim em seu psiquismo a percepção de que ela não é a mamãe e também não é o pai, dando inicio então a construção do seu eu (BELO, GUIMARÃES, FILDES, 2015).

E ainda de acordo com os estudos da paternidade pelo viés da psicanálise, os pesquisadores apontam que o pai na sua relação com o filho construirá a relação deste com o próximo e a importância que este tem no seu círculo social. Segundo os autores, a autoestima que vem de fora, o senso de valor que o outro oferece está estritamente ligado à relação com o pai, pois este é o primeiro outro que existe na vida da criança que passa a se relacionar com ele. A relação com o pai será a pedra angular ou em outras palavras o alicerce no qual a criança construirá sua relação na sociedade e com o mundo.

Por fim, já que a função paterna é a manifestação do outro para a criança e a instauração da Lei (no sentido dos limites impostos), a ausência da figura paterna (ou aquele que exerce esse papel no lar) no aspecto psíquico, levará o filho a manter relações sociais frágeis, marcadas por rompimentos marcantes por não estabelecerem vínculos bem estabelecidos pelo fato de que o outro tem vontade própria e a intolerância com o próximo.

Na linguagem da Psicanálise, o pai vai gerar na criança o comportamento de entender que além das suas vontades e desejos, existe um outro que a frustra por desejar a mesma pessoa (mãe). Nesta relação triangular a criança cresce entendendo que o objeto de seu desejo não é só seu, mas é compartilhado, desenvolvendo a percepção de que o mundo não gira em torno somente dela e que ela terá que lidar com isso se socializando com aqueles que estão a sua volta, aprendendo a dividir o que lhe é prazeroso e até mesmo abrir mão deste prazer.

Quando existe no ambiente familiar alguém que exerça a função paterna, os filhos tenderão a desenvolver em sua personalidade características de autoconfiança, independência e flexibilidade nos relacionamentos sociais. A ausência desta função tenderá a gerar na personalidade dos filhos vários transtornos psicológicos, como: baixa autoestima, desamparo, sensação de inadequação.

Como você pode perceber o tema paternidade é bem vasto, profundo e não se encerra por aqui. O objetivo desse artigo foi trazer uma reflexão sobre o assunto e apontar como a presença do papai é tão importante para o bebê/criança em todo o seu desenvolvimento psíquico e como ele é fundamental para adulto que se tornará.

Fonte: https://www.inesul.edu.br/revista/arquivos/arq-idvol_52_1513263398.pdf

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