Desfile da Campeã do Carnaval de Vitória 2025, Boa Vista (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)
Desfile da Campeã do Carnaval de Vitória 2025, Boa Vista (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

Falta pouco para as escolas de samba do Carnaval de Vitória colorirem o Sambão do Povo. Você já conhece as histórias que serão contadas na avenida neste ano? Os enredos escolhidos pelas agremiações fazem homenagens e celebram orixás, a cultura e a ancestralidade.

A seguir, confira, na ordem em que desfilam, os enredos das escolas do Grupo Especial do carnaval capixaba.

CARNAVAL DE VITÓRIA 2026 – ENREDOS DAS ESCOLAS DO GRUPO ESPECIAL

Pega no Samba

Desfile da Pega no Samba em 2024 (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

A Pega no Samba leva para a avenida o enredo “Okê Caboclo Sete Flechas – Guardião Ancestral da Natureza”, que exalta o Caboclo Sete Flechas como símbolo de proteção, sabedoria ancestral e defesa do meio ambiente.

A narrativa parte da cosmovisão dos povos originários, com destaque para os pataxós, e retrata a relação de comunhão entre o ser humano, a terra, a fauna e a flora. Desse vínculo nasce um líder mítico que, após a morte, se transforma em entidade espiritual associada à cura, à justiça e à orientação.

O desfile assinado pelo carnavalesco Jorge Mayko propõe uma reflexão sobre a preservação da natureza, o combate à intolerância religiosa e a valorização das raízes culturais como caminhos para o equilíbrio e o futuro coletivo.

Novo Império

Ensaio técnico da Novo Império em 2026 (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

A Novo Império leva para a passarela do samba o enredo “Aruanayê – Guardiãs dos Mistérios Ancestrais”, uma narrativa simbólica que exalta a força feminina como elo entre ancestralidade, espiritualidade e natureza.

A história se passa em um território mítico do Espírito Santo e nasce do encontro entre xamãs africanas e guerreiras indígenas, mulheres guardiãs de saberes ligados à cura, à proteção e ao equilíbrio dos elementos naturais.

Da aliança entre essas figuras surge Aruanayê, personagem central que representa um pacto coletivo de resistência diante das ameaças externas e do apagamento cultural.

Sob a influência da lua cheia, o desfile do carnavalesco Osvaldo Garcia percorre rituais, batalhas espirituais e manifestações da Mãe Terra, que responde à união das guardiãs com força, proteção e renovação.

Unidos de Jucutuquara

Ensaio técnico da Unidos de Jucutuquara em 2025 (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

A Unidos de Jucutuquara leva para a avenida o enredo “Arreda homem que aí vem mulher”. O desfile do carnavalesco Marcelo Braga vai retratar Maria Padilha, entidade cultuada nas tradições afro-brasileiras e associada às encruzilhadas, aos caminhos e às transformações.

O enredo constrói uma narrativa simbólica que apresenta Padilha como uma força ancestral em constante movimento, formada e ressignificada ao longo do tempo por meio da oralidade, dos ritos e da cultura popular.

A agremiação vai transformar a trajetória em um manifesto educativo e quer reafirmar o carnaval como espaço de reflexão social ao associar a força simbólica de Maria Padilha às lutas contemporâneas contra o machismo, o racismo e a intolerância religiosa.

Mocidade Unida da Glória (MUG)

Desfile da MUG em 2024 (Foto: Dyhego Salazar/Folha Vitória)

“O diário verde de Teresa” será o enredo apresentado pela Mocidade Unida da Glória (MUG). Inspirado nos escritos da princesa e cientista alemã Teresa da Baviera, que percorreu o Espírito Santo em 1888, a vermelho e branco de Vila Velha vai destacar a fauna e flora capixaba.

A narrativa acompanha a viagem da naturalista por rios e matas. Teresa catalogou espécies, registrou paisagens e observou os modos de vida locais em seu diário, que agora inspira o desfile do carnavalesco Petterson Alves.

Ao longo do desfile, essa jornada transita entre o real e o encantado, ao retratar o encontro com povos originários, que acolhem a visitante e compartilham saberes ancestrais.

Em visões provocadas pela mata, surgem alertas sobre o futuro, como rios secos, florestas em chamas e ameaças aos guardiões da terra. Ao retornar, transformada, Teresa assume a missão de registrar, preservar e divulgar tudo o que testemunhou.

Imperatriz do Forte

Thiaguinho Mendonça e Amanda Poblete (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

A Imperatriz do Forte cruza a passarela do samba com o enredo “Xirê: festejo às raízes”, uma celebração das tradições africanas e afro-brasileiras que têm na roda e no movimento corporal a base de sua espiritualidade, memória e resistência.

O desfile do carnavalesco Marcus Paulo parte do xirê (sequência ritual de cantos e danças dedicadas aos orixás) para apresentar a roda como princípio ancestral que organiza o tempo, a fé e a vida nas culturas africanas, especialmente entre os povos iorubás, bantos e jejes.

O enredo da verde e rosa mostra como esse saber atravessou o Atlântico com os africanos escravizados e se manteve vivo no Brasil, mesmo diante da violência e do apagamento cultural.

A roda se transforma e se espalha, dando origem a manifestações como o samba de roda, o jongo, a capoeira Angola, o tambor de crioula, o maracatu, o coco e a ciranda, expressões que preservam o sagrado mesmo no espaço da festa popular.

Rosas de Ouro

Desfile da Rosas de Ouro em 2025 (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

O enredo “Cricaré das origens – O Brasil que nasce em São Mateus” narra a história da segunda cidade mais antiga do país desde o período pré-colonial, quando a região no Norte do Espírito Santo era habitada por povos indígenas.

O desfile do carnavalesco Robson Goulart na Rosas de Ouro passa pela chegada dos portugueses, marcada por conflitos, escravidão e resistência, e mostra como o município se reinventou ao longo do tempo como espaço de encontro entre diferentes culturas, formando uma identidade própria.

O Rio Cricaré surge como eixo central do enredo e testemunha viva da história na região. Antes da colonização, suas águas serviam de caminho para os povos originários; depois, tornaram-se rota estratégica de exploração, evangelização e ocupação do território.

A escola da Serra destaca a importância das culturas indígena e afro-brasileira na formação de São Mateus, reverenciando figuras como Zacimba Gaba e Benedito Meia-Légua, além de celebrar sua riqueza natural, cultural e suas tradições.

Unidos da Piedade

Desfile da Piedade em 2025 (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

O enredo “O Canto Livre de Papo Furado” entrelaça a trajetória de Edson Papo Furado à experiência coletiva, resistente e aquilombada da Unidos da Piedade.

Inspirada no disco lançado em 2003, a narrativa vai além da homenagem e propõe uma ode musical a um dos maiores nomes da música capixaba, transformando seu canto em expressão de ancestralidade, memória e liberdade.

Figura presente desde a fundação da agremiação com mais títulos no Carnaval de Vitória, Papo Furado é um dos intérpretes mais longevos da folia capixaba. Durante sua trajetória, “arrupiou” centenas de foliões e se tornou símbolo de resistência e reinvenção.

O desfile do carnavalesco Vanderson César percorre a trajetória de Papo Furado desde o morro, onde o samba se faz oração e o espaço se transforma em altar, passando pelas águas, fontes e quintais da infância, onde surgem os primeiros sons, os batuques de congo, os cantos de São Benedito e os aprendizados herdados da família e das tradições negras.

Independente de Boa Vista

Desfile da Boa Vista em 2024 (Dyhego Salazar/Folha Vitória)

Atual campeã do Carnaval de Vitória, a Independente de Boa Vista aposta em João Bananeira para manter o título na comunidade. O enredo “João do Congo – A Voz que Dança nas Folhas da Resistência” exalta o Congo como uma das matrizes mais profundas da identidade cultural capixaba.

João Bananeira, personagem simbólico e encantado que representa o espírito brincante e resistente do Congo, está no centro da narrativa criada pelo carnavalesco Cahê Rodrigues. Mais do que uma figura individual, ele encarna a transformação da dor da escravização em dança, música e afirmação de liberdade, unindo o sagrado e o popular no som do tambor, da casaca e dos estandartes.

O enredo percorre as origens do Congo, formadas na travessia africana e no encontro com saberes indígenas e devoções populares, destacando sua permanência nos quintais, terreiros e comunidades do Espírito Santo.

Chegou o Que Faltava

Ensaio técnico da Chegou o Que Faltava em 2025 (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

“Orí – Sua Cabeça é Seu Guia” propõe uma reflexão sobre Orí, a cabeça, fundamento da existência na cosmovisão iorubá. A Chegou o Que Faltava convida o público a olhar para dentro, compreendendo a cabeça não apenas como elemento físico, mas como espaço sagrado onde nascem escolhas, memórias, intuições e caminhos.

Ao apresentar Orí como guia do destino humano, o enredo aborda a importância do cuidado integral da cabeça — espiritual, mental, emocional e físico — e reafirma a filosofia africana que aponta o interior de cada pessoa como a verdadeira bússola da vida. Cada Orí é retratado como único, com capacidades e trajetórias próprias, uma assinatura divina que orienta o modo de existir no mundo.

A narrativa do desfile do carnavalesco Roberto Monteiro se organiza como uma jornada iniciática, que acompanha a formação e o desenvolvimento do Orí desde sua origem espiritual até sua manifestação plena.

O percurso passa pelo Orí Inú, ligado ao plano espiritual; pelo Orí Odè, integrado ao corpo e à vida material; e pelo Orí Iranti, guardião da memória ancestral.

O caminho culmina no Orí Meji, a cabeça que guia outras cabeças, símbolo da continuidade, da multiplicação da vida e da renovação dos valores ancestrais.

Andaraí

Sylvio Abreu, 1º Mestre-sala da Andaraí (Foto: Thiago Soares/ Folha Vitória)

O enredo “01/12/46” revisita a trajetória da Andaraí a partir do bairro de Santa Martha, tratando sua fundação não apenas como um fato histórico, mas como um processo marcado por ancestralidade, espiritualidade e resistência popular.

A escola é apresentada como fruto do território e da memória coletiva, onde o chão da comunidade, a fé e o sagrado se entrelaçam para dar origem a uma instituição construída pelo povo e para o povo.

O desfile do carnavalesco Alex Santiago percorre as origens da agremiação, destacando a relação com o futebol de várzea, a formação da batucada e o reconhecimento como escola de samba. Ao longo da narrativa, surgem os momentos de crescimento, os períodos de silêncio e os processos de retomada que marcaram sua história, evidenciando a capacidade de reinvenção da Andaraí ao longo do tempo.

Maeli Rhayra, editora de entretenimento do Folha Vitória
Maeli Radis

Editora de Entretenimento e Cultura

Editora de Entretenimento e Cultura do Folha Vitória. Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Editora de Entretenimento e Cultura do Folha Vitória. Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Foto: Thiago Soares/ Folha Vitória
Gabriel Barros

Produtor web

Gabriel Barros é jornalista formado pelo Centro Universitário Faesa e mestrando em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo. Atua desde 2018 no jornalismo capixaba. Em 2020, passou a integrar a equipe do jornal online Folha Vitória, em coberturas sobre o cotidiano das cidades do Estado, política e cultura.

Gabriel Barros é jornalista formado pelo Centro Universitário Faesa e mestrando em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo. Atua desde 2018 no jornalismo capixaba. Em 2020, passou a integrar a equipe do jornal online Folha Vitória, em coberturas sobre o cotidiano das cidades do Estado, política e cultura.