
A construção dos hábitos alimentares na infância é um dos capítulos mais importantes do desenvolvimento humano. É entre o primeiro e o segundo ano de vida que o paladar começa a ser moldado, e as crianças passam a reconhecer sabores, texturas e a decidir o que gostam ou não de comer.
E é aí que o cenário começa a ficar desafiador. Apenas 22% das crianças brasileiras consomem frutas e hortaliças todos os dias, segundo o Ministério da Saúde. Por isso, a atuação da escola em transformar o processo de comer em parte essencial da educação faz tanta diferença.
Comer é aprender
É o que acontece, por exemplo, na Idade Criativa, escola de educação infantil em Jardim Camburi, em Vitória. Por lá, a alimentação é integrada ao currículo pedagógico — não como imposição, mas como descoberta —, principalmente porque se sabe que os hábitos alimentares construídos na infância acompanham o indivíduo para toda a vida.
Na Idade Criativa, alimentação não é apenas uma pausa no dia: é conteúdo pedagógico, cultura, afeto e conhecimento sensorial. É por isso que o mote que guia o trabalho da escola faz tanto sentido: “Educar o paladar também é educar para a vida”.
A escola recebe crianças de quatro meses a seis anos e organiza sua rotina alimentar com cerca de quatro refeições ao dia, todas planejadas com ingredientes naturais, mínima interferência de industrializados e prioridade para alimentos da safra. Mas o diferencial vai muito além do prato.
Na escola, alimentação saudável não é uma etapa da rotina: é parte da formação humana. É cultura, investigação, afeto, memória e cuidado.
As crianças tocam os alimentos, sentem a textura, cheiro, temperatura, aprendem sobre origem, colhem hortaliças da hortinha da escola, participam de oficinas de culinária e observam de pertinho o caminho que a comida faz até o prato.
A diretora da escola, Alessandra Salazar Paganoto, explica que a intencionalidade é clara:
Queremos que as crianças criem memória afetiva com os alimentos. Aqui, elas conhecem a abóbora antes do purê, a cenoura antes do cozimento. Veem, tocam, conversam sobre o alimento, sentem o aroma e sua textura. Isso aproxima, desperta curiosidade e torna o comer algo especial — e não uma obrigação.
Alessandra Salazar Paganoto, pedagoga e diretora escolar
Para ela, alimentar é também cuidar, e como a maioria das crianças fica em período integral, muitas delas conhecem alguns alimentos primeiro dentro da escola, e não em casa. “A responsabilidade é gigante, e fazemos tudo com muito cuidado — desde o fornecedor até o momento de sentar à mesa”, afirma a diretora.
O cardápio diário é pensado para ser colorido, variado, nutritivo, adequado à faixa etária, repleto de alimentos da safra e com o mínimo de industrializados, açúcar e sal.
A nutricionista Maria da Conceição Giacomini, que atua há 29 anos na escola, explica que trabalhar com o paladar infantil exige mais do que apenas servir o prato, é necessário explicar, ilustrar, fazer com que a criança se sinta estimulada.
É preciso motivar, educar e estimular diariamente. Não basta servir. A criança precisa ter contato real com a diversidade de alimentos.
Maria da Conceição Giacomini, nutricionista
As cozinheiras — figuras queridas das crianças e das famílias — preparam tudo fresquinho, com um tempero que já virou marca registrada. Tanto que, segundo a diretora, “há famílias que chegam dizendo: ‘como vocês fazem esse purê de batata?’ A criança diz que o de casa ‘não é igual’. Criamos uma afetividade tão gostosa que, se eu pudesse transformar o cheirinho do feijão da escola em perfume, eu transformaria”.
Alessandra explica que, a alimentação é um dos pilares da escola, e não só por nutrir, mas por educar integralmente. O resultado não poderia ser melhor. A proximidade transforma o alimento em experiência, e, ao tocar, cheirar, observar e explorar os alimentos, a criança perde a resistência e passa a ter melhores e mais duradouros hábitos alimentares.
O papel da experimentação

Para lidar com seletividade alimentar, comum e esperada na infância, a escola aposta no projeto Tá na Mesa, que objetiva aproximar as crianças dos alimentos, criando uma relação verdadeira com o que comem. Por meio dele, a alimentação saudável é estimulada por meio de experimentações, oficinas culinárias, plantio, rodas de conversa, observação dos alimentos e participação ativa das turmas em cada etapa.
As crianças também recebem fornecedores, ajudam a levar alimentos até a cozinha e falam sobre o que comeram, criando uma relação viva e concreta com o alimento.
“É preciso insistência diária, oferta constante e envolvimento da família. A criança precisa ser estimulada a experimentar, mas nunca forçada”, reforça Maria Conceição, alinhada às recomendações de nutricionistas e pediatras.
Essa psicopedagogia da alimentação está inserida em todo o projeto pedagógico da Idade Criativa, o que significa que qualquer tema sempre será conectado ao universo dos alimentos. “A nutrição enriquece o projeto pedagógico, amplia repertórios, traz curiosidade e faz sentido para as crianças”, completa Maria Conceição.
Os resultados aparecem no comportamento: maior aceitação de frutas e hortaliças, mais curiosidade e menos resistência ao experimentar novos alimentos. E esse vínculo com a alimentação também se estende às famílias. A escola promove encontros como “Mamãe vem jantar comigo” e “Papai vem jantar comigo”, momentos em que pais e filhos experimentam juntos o cardápio cotidiano. Nada de cardápio especial, é exatamente a comida que as crianças comem todos os dias.
A ciência é clara: hábitos alimentares construídos na infância tendem a acompanhar o indivíduo ao longo da vida. Por isso, escolas que se comprometem com o tema desempenham um papel transformador.
O próximo passo da Idade Criativa, segundo a diretora, é ampliar o diálogo com as famílias e criar novos momentos de compartilhamento. “Estamos gestando um novo projeto sobre alimentação. Queremos que as famílias participem ainda mais do nosso cardápio”, adianta. Afinal ensinar a comer bem também é uma forma de amar.