Foto: Canva
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A língua que você fala muda o que você vê. Literalmente. Dependendo de como seu idioma nomeia as cores, por exemplo, você enxerga ou não certos elementos. Parece estranho, mas não é. A ciência comprova.

Essa relação entre linguagem e percepção é estudada pela hipótese Sapir-Whorf, hoje reformulada como relatividade linguística. A teoria sustenta que não observamos a realidade de forma neutra, mas através das categorias que nossa língua nos oferece. Essas categorias orientam o que notamos, diferenciamos ou ignoramos.

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A língua não determina o pensamento, mas direciona a atenção e a forma como damos sentido ao mundo. Sociedades que convivem com neve possuem centenas de palavras para descrevê-la. Cada nuance tem um nome. Para quem fala português, neve é neve. Para quem vive no Ártico, existem dezenas de tipos diferentes.

O grego e o russo possuem palavras distintas para azul claro e azul escuro. Algo menos marcado em línguas como o alemão. O resultado? Gregos e russos discriminam tons de azul com mais facilidade que alemães. Um experimento comparou espanhóis e suecos. Em espanhol, descreve-se duração com distância. Em sueco, com volume.

Os suecos tiveram dificuldade em estimar o tempo quando viam linhas. Quando trocaram linhas por recipientes enchendo, o cenário mudou. Eles acertaram mais. A linguagem não apenas expressa pensamentos, ela ajuda a moldá-los. Quando rotulamos pessoas e comportamentos, criamos realidades. Esses rótulos geram preconceitos, impactam como percebemos e interagimos com o mundo.

Palavras carregam conotações emocionais que modificam sentimentos sobre determinado tópico de acordo com a cultura. Em ambientes educacionais, a forma como professores comunicam conceitos afeta significativamente a compreensão dos alunos. Jargões excessivos criam barreiras.

simples torna conhecimento acessível. A comunicação não é apenas transmissão de informações. É reorganização de ideias. Quando expressamos uma opinião, não apenas a comunicamos, nós a organizamos. Nossos pensamentos informam nossa comunicação, e nossa comunicação altera nossos pensamentos.

Debates públicos exemplificam isso. A linguagem escolhida por um orador influencia a opinião do público. Metáforas, comparações e narrativas guiam perspectivas. É possível pensar sem linguagem? Pensamentos podem ocorrer em formas não verbais, como imagens mentais. Mas a linguagem estrutura, estabiliza e socializa o pensamento.

Os estudos ainda podem ser considerados pequenos, suas abordagens limitadas. No entanto, sugerem necessidade maior de compreensão da linguagem, principalmente do idioma que aprendemos nos primeiros anos de vida. A linguagem que falamos não é neutra. Ela define limites, e também possibilidades de como enxergamos o mundo.

Maya J. Gobira Meneghelli

Colunista

Francesa, linguista pela Ufes e mestre em comunicação política pela Universidade Internacional de Valência, pesquisa sociedade e discursos de lideranças femininas. Atua em estratégias de comunicação política e corporativa, media training e posicionamento, além de ser especialista em imagem e comunicação não verbal.

Francesa, linguista pela Ufes e mestre em comunicação política pela Universidade Internacional de Valência, pesquisa sociedade e discursos de lideranças femininas. Atua em estratégias de comunicação política e corporativa, media training e posicionamento, além de ser especialista em imagem e comunicação não verbal.