
Pode-se considerar que as classes menos favorecidas têm conseguido acessar universidades com mais consistência, entrar no mercado de trabalho. O portão abriu um pouco. Mas quando esses profissionais chegam lá, costuma faltar algo. Não faltam capacidade ou inteligência. Faltam ferramentas.
Ferramentas comunicacionais que ninguém ensinou. Saber se posicionar, se apresentar, escrever e-mails profissionais, construir argumentos sólidos, fazer networking, ler o ambiente, entender códigos sociais, compreender linguagem corporal, atuar em reuniões, em entrevistas, em ambientes formais. Manejar uma comunicação objetiva, clareza e com intenção.
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Além disso, existe outro gap: o de referências de mundo. Cultura, acesso a debates, repertório, leitura, viagens, experiências, o simples hábito de conversar sobre certos temas. Isso não tem nada a ver com inteligência. Tem a ver com contexto, com oportunidades, com convivências.
E o mercado cobra isso sem dizer claramente que está cobrando. Organizações como UNICEF reconhecem a comunicação como meio eficaz de informar, influenciar, mobilizar e promover comunidades.
Relatórios da ONU destacam que políticas públicas promovendo alfabetização digital e acesso equitativo à comunicação abrem portas para participação cidadã, protagonismo comunitário e inclusão econômica. A comunicação não é neutra. Ela constrói narrativa, visibilidade, poder.
Tecnologias digitais ampliam essa capacidade, dando voz a setores antes invisíveis. Quando direcionada à inclusão e acesso, comunicação vira ferramenta de ascensão. Por isso eu defendo a comunicação como ferramenta de promoção social. Ela pode mudar trajetórias, organizar ideias, dar forma ao pensamento, criar credibilidade, abrir portas graças aos novos recursos.
Vejo isso de perto no Projeto Incluir Direito da UERJ, que visa aumentar o número de candidatos negros aprovados nos processos seletivos dos escritórios associados ao CESA, com enfoque nos alunos cotistas do curso de Direito.
O projeto tem foco no aperfeiçoamento acadêmico e profissional, preparando para o mercado real. Colaboro ministrando aulas de comunicação não verbal, porque sei que isso muda o jogo para estes jovens que logo entrarão em ambientes competitivos.
Falar de inclusão sem falar de comunicação é como colocar alguém num palco sem microfone. A pessoa está lá, mas não consegue ser realmente ouvida. Saber se comunicar é fundamental.