
A presença da China no Espírito Santo ganhou um novo capítulo nesta semana. Uma comitiva do país asiático esteve em Jaguaré durante a primeira edição da Feira Internacional do Café Conilon (FICC) para conhecer de perto a produção da variedade que faz do estado o maior produtor de conilon do Brasil. O objetivo: abrir caminho para aumentar as compras de café capixaba, estreitar a cooperação tecnológica e aproximar pequenos produtores do mercado chinês.
A visita, a primeira oficial ao Espírito Santo realizada por representantes diplomáticos chineses, reuniu o cônsul-geral adjunto da China no Rio de Janeiro, Wang Haitao; o cônsul comercial, Jorge Zhou You; e a vice-cônsul, Inês Wang Zhiyi. A articulação local contou com o apoio do presidente da Câmara do Comércio Brasil-China no Estado, Carlos Eiras.
Comitiva vê qualidade, volume e potencial de parceria com o conilon capixaba
O cônsul-geral adjunto destacou que o Espírito Santo reúne atributos valorizados pelo mercado chinês: qualidade, capacidade industrial, produção familiar e regularidade de fornecimento.
“A indústria de café conilon se desenvolveu nos últimos quatro anos. Agora a indústria de café já tem toda a série, toda a cadeia industrial. Já podem produzir para os supermercados. Portanto, já podemos comprar café conilon aqui nos supermercados. Os produtores, mesmo os mais pequenos rurais, também podem ganhar mais dinheiro. Portanto, os produtores familiares podem gozar de uma vida melhor”, afirmou.

O aumento do consumo de café pelos chineses também foi destacado pelo diplomata, o que abre mais oportunidades para o conilon ganhar espaço no mercado asiático.
“Com o desenvolvimento econômico da China, cada vez mais chineses gostam de beber café ou bebidas à base de café. Portanto, a demanda está a crescer. Acho que a China vai comprar ainda mais cafés do Brasil. Isso abre um espaço natural para o Brasil, maior produtor do mundo, e para o Espírito Santo, líder no conilon”, disse.
Wang Haitao também citou o interesse do mercado chinês em outras cadeias produtivas capixabas. “O estado do Espírito Santo produz também rochas ornamentais e meios materiais de construção. Também há muitos tipos de frutas. Essas coisas são interessantes para o mercado chinês também”, afirmou.
Para ampliar oportunidades, ele destaca que qualidade e escala serão determinantes: “Se o estado do Espírito Santo puder produzir produtos de boa qualidade em volume suficiente, acho que o mercado chinês pode comprar mais coisas do Brasil, do Espírito Santo”.
A comitiva foi recebida pelo prefeito Marcos Guerra, que destacou a força produtiva do município. “Jaguaré produz, atualmente, 1 milhão de sacas por ano. Esse número é significativo e nos coloca em segundo lugar no Espírito Santo. Mas o que mais nos orgulha é a origem: 90% dos produtores pertencem à agricultura familiar”, afirmou. Guerra ressaltou a importância da China na pauta de exportações capixaba e disse que o encontro abre portas para novos negócios.
Esse dado chamou a atenção do consulado, que vê em Jaguaré diversas possibilidades de cooperação futura, entre elas, a construção conjunta de um projeto de intercâmbio entre o município capixaba e a China.
Além da demanda crescente, a comitiva apresentou interesse em contribuir com tecnologia agrícola, especialmente em máquinas e sistemas que aumentam produtividade, reduzem custos e diminuem a necessidade de mão de obra.
O cônsul também sugeriu que a prefeitura estimule os pequenos produtores a promoverem seus cafés na internet, facilitando negociações diretas com compradores chineses. “Esse encontro é muito importante. Vocês são o maior produtor no Espírito Santo e no Brasil. Vamos nos conhecer mais e, no futuro, seremos amigos de negócios”, afirmou Haitao.
“A China tem tecnologia agrícola avançada e pode cooperar com Jaguaré nesse campo. No futuro, podemos ampliar essa troca para fortalecer toda a cadeia do conilon”, afirmou Haitao.
A relação entre os países já é aquecida: em agosto de 2025 a China habilitou 183 empresas brasileiras para exportar café ao país, uma abertura significativa do mercado chinês ao café do Brasil. Segundo dados do sistema Agrostat, em 2024 a China importou 55,940 mil toneladas de café brasileiro, gerando uma receita de aproximadamente US$ 216,3 milhões.
Mercado internacional olha para o Espírito Santo como protagonista
Presente no evento, o vice-presidente da Cooabriel, Onivaldo Lorenzoni, enfatizou o papel da feira e das conexões internacionais para valorizar o produtor capixaba.
“A Cooabriel, maior cooperativa de café conilon do Brasil, representa mais de 9 mil sócios e não poderia ficar de fora. Uma feira como essa mostra ao mundo a qualidade do nosso conilon. Quem não é visto, não é lembrado e o Espírito Santo tem muito a mostrar.”
Lorenzoni reforçou que a produção local é sustentável e reconhecida internacionalmente. “Quando os compradores chegam aqui, percebem que nossa produção é humana, responsável, sem desmatamento e sem trabalho escravo. Isso faz o mercado internacional confiar e querer conhecer mais. Por isso o conilon deixou de ser coadjuvante e hoje atrai a atenção de grandes compradores.”
Curador da FICC e especialista em café, Marcus Magalhães analisou que o crescimento do consumo de café na China representa uma oportunidade única. “Ter um representante diplomático da China aqui mostra que o conilon vive uma virada histórica. O estado se consolidou como a bola da vez. Durante décadas, a gente dizia: ‘se um dia os chineses começarem a beber café, tudo muda’. Esse dia chegou. O volume de cafeterias, de prateleiras de supermercado e de consumo em hotéis na China é impressionante. O futuro é muito promissor”.
Magalhães Sobre o impacto do tarifaço dos EUA, Magalhães destacou que, apesar da pressão inicial, o cenário abriu oportunidades. “A tarifa doeu, mas fez o setor acordar. Não podemos depender de um único comprador. Precisamos ampliar mercados, e é isso que estamos fazendo aqui na FICC”.
Ele reforçou que o conilon especial ganha cada vez mais espaço. “O conilon evoluiu e hoje temos cafés 100% conilon fantásticos, que surpreendem. O mundo está descobrindo essa qualidade e o estado está no centro desse movimento”.
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