Nos últimos dias, recebi muitas críticas por causa da última matéria, aparentemente simples, sobre as consequências da retirada de conchas das praias. O argumento mais recorrente foi direto: “existem problemas maiores”, “por que falar disso diante de tantas crises ambientais?”. Confesso que esse tipo de reação sempre me faz parar e refletir, não só sobre o conteúdo do que crio e minhas ações referentes à conservação da natureza, mas também sobre como encaramos a própria ideia de engajamento ambiental.
Sim, existem problemas enormes. Gigantescos. A crise ambiental, com a extinção de espécies, o desmatamento, as grandes queimadas, a poluição dos rios e oceanos, a destruição dos modos de vida tradicionais. Tudo isso é real e dramático. E não, falar de conchas na praia não apaga nada disso. Nunca foi essa a intenção.
O que parece se perder nessa discussão é algo fundamental: problemas grandes não anulam problemas pequenos. E ações grandes não sobrevivem sem uma base de pessoas com causas, que podem ser pequenas, e ações cotidianas, aparentemente simples, repetidas por muitos ao longo do tempo.

E afinal, faz diferença tirar conchas da praia?
Apesar de não querer me estender muito no assunto das conchas, pois o que quero discutir hoje é outra coisa, gostaria de apresentar que as informações científicas sobre o impacto de coleta de material nas praias tem sim um impacto. Como o exemplo do estudo “Vanishing Clams on an Iberian Beach” analisou dados coletados na mesma praia do Mediterrâneo espanhol com 30 anos de intervalo e demonstrou que a quantidade de conchas ao longo da faixa de areia diminuiu quase três vezes no mesmo período em que o número de turistas quase triplicou, sem que houvesse mudanças significativas na dinâmica das ondas, na geomorfologia da praia ou na estrutura das populações de moluscos.
A abundância de conchas apresentou forte correlação negativa com o fluxo turístico, especialmente nos meses de alta temporada. Os autores concluem que a retirada de conchas associada ao turismo, seja por coleta direta, pisoteio ou limpeza mecanizada das praias, pode gerar impactos ecológicos relevantes, como aumento da erosão costeira, alteração na ciclagem do carbonato de cálcio e prejuízos a espécies que dependem das conchas como abrigo, substrato ou recurso ambiental, indicando que pequenas ações repetidas em larga escala podem provocar efeitos ambientais significativos (Kowalewski et al., 2014, PLoS ONE, https://doi.org/10.1371/journal.pone.0083615).
Uma pessoa retirando uma concha da praia, de fato, não causa um colapso ambiental. Mas esse tipo de estudo mostra que milhares de pessoas fazendo isso todos os dias, ao longo de anos, começam a alterar o equilíbrio daquele ecossistema.
Dia desses, estava fotografando e encontrei um caranguejo eremita utilizando uma concha de caracol-africano (uma espécie exótica terrestre altamente invasora)… o que isso quer dizer, não sei ao certo. Se foi falta de outras opções para o caranguejo se abrigar, ou a facilidade de se encontrar essas espécies exóticas invasoras por aqui. Mas o ponto é que isso chamou minha atenção.

De qualquer forma, quando falo sobre a questão das conchas na praia, não esqueci dos grandes problemas, como a poluição por esgoto, resíduo industrial e lixo sólido que chegam diariamente ao mar, a pressão da pesca industrial de arrasto sobre estoques já fragilizados, a degradação de habitats costeiros, o tráfego intenso de embarcações e a presença crescente de espécies exóticas invasoras que alteram o equilíbrio dos ecossistemas marinhos.
Também sei que enfrentamos impactos cumulativos relacionados à urbanização desordenada da costa, à dragagem e ao assoreamento, à perda de áreas naturais como manguezais e restingas e à contaminação da água por metais pesados e outros poluentes.
Tudo isso sempre trato em meus trabalhos, como o último livro, sobre a APA Baía das Tartarugas em Vitória-ES, no qual dediquei um capítulo inteiro para os “DESAFIOS” que encontramos por aqui.
Muitas dessas questões são problemas estruturais, profundos e urgentes, que exigem políticas públicas, fiscalização efetiva, investimentos e decisões difíceis. Reconhecer essas “grandes ameaças” não diminui a importância de falarmos das pequenas coisas do dia a dia, porque todas elas fazem parte do mesmo sistema de pressões que o oceano suporta.
O ponto que quero discutir aqui é que uma pessoa se mobilizando por uma causa “menor” pode parecer pouco. Mas milhares de pessoas agindo localmente, cada uma dentro do que consegue fazer, constroem mudanças estruturais muito maiores do que imaginamos.
Isso para negativo quando para positivo…
A vida de ambientalistas
Há mais de 20 anos trabalho com conservação ambiental. Já estive envolvido em causas de escala nacional e internacional. Já enfrentei ameaças, sanções, ataques políticos e pressões que não aparecem nas redes sociais.
Não menciono isso por vaidade, mas porque sei, na prática, que lutar por “causas grandes” é perigoso, solitário, emocionalmente desgastante e, muitas vezes, invisível, quase sempre não valorizado.
E justamente por isso me entristece ver pessoas que supostamente defendem causas ambientais criticando outros ambientalistas por estarem “apenas” falando de pequenas causas.
A verdade é dura, mas precisa ser dita: poucas pessoas estão, de fato, lutando por algo positivo para o planeta e para a sociedade. A maioria não faz nada. E quem acaba recebendo críticas, ameaças e retaliações são justamente aqueles que estão tentando fazer alguma coisa, ainda que pequena.
Como disse um amigo, Raphael Gaspar, em um comentário genial em resposta às críticas sobre a matéria das conchas na praia: “Se as pessoas retirassem os resíduos das praias, ao contrário de retirarem conchas, seriam menos dois problemas!”
O exemplo importa!
Esse tipo de reflexão revela algo poderoso. Pequenas ações não são irrelevantes. Elas educam, inspiram, criam cultura. Quando alguém recolhe um lixo na praia, mesmo sabendo que no dia seguinte haverá mais lixo, essa pessoa não está “enxugando gelo”. Ela está dando um exemplo. Especialmente quando faz isso na frente de crianças, jovens ou até de adultos que parecem indiferentes, mas guardam uma empatia adormecida.
Não menciono isso por vaidade, mas porque sei, na prática, que lutar por “causas grandes” é perigoso, solitário, emocionalmente desgastante e, muitas vezes, invisível, quase sempre não valorizado.
E justamente por isso me entristece ver pessoas que supostamente defendem causas ambientais criticando outros ambientalistas por estarem “apenas” falando de pequenas causas.
A verdade é dura, mas precisa ser dita: poucas pessoas estão, de fato, lutando por algo positivo para o planeta e para a sociedade. A maioria não faz nada. E quem acaba recebendo críticas, ameaças e retaliações são justamente aqueles que estão tentando fazer alguma coisa, ainda que pequena.
Como disse um amigo, Raphael Gaspar, em um comentário genial em resposta às críticas sobre a matéria das conchas na praia: “Se as pessoas retirassem os resíduos das praias, ao contrário de retirarem conchas, seriam menos dois problemas!”
O exemplo importa!
Esse tipo de reflexão revela algo poderoso. Pequenas ações não são irrelevantes. Elas educam, inspiram, criam cultura. Quando alguém recolhe um lixo na praia, mesmo sabendo que no dia seguinte haverá mais lixo, essa pessoa não está “enxugando gelo”. Ela está dando um exemplo. Especialmente quando faz isso na frente de crianças, jovens ou até de adultos que parecem indiferentes, mas guardam uma empatia adormecida.






