Adriel Ludolfo Moreira - Fundador da AAFAPED
Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

Foi no silêncio angustiante de sete dias de buscas pelo irmão desaparecido no mar, em 2012, que o policial civil Adriel Ludolfo Moreira experimentou o desamparo que tantas famílias enfrentam com o desaparecimento de um parente.

Anos depois, as marcas dessa experiência o levaram a transformar a própria dor em iniciativa social e criar uma maneira concreta de apoiar famílias que passam pelo mesmo drama.

Joeser Ludolfo Moreira desapareceu em 2012, quando estava com um grupo de amigos na Praia de Setiba, em Guarapari. Ele caiu no mar e não foi mais visto. Sete dias depois, o corpo apareceu, quase no mesmo local do desaparecimento, mas infelizmente sem vida.

Adriel, o mais velho de quatro irmãos, precisou ser forte para lidar com a pressão psicológica dos sete dias de buscas e, depois, todo o trâmite do sepultamento.

Eu sou o esteio da minha família, sou o mais velho. Foi muito difícil ter que levar as informações, ter que ficar fazendo as buscas e depois movimentar tudo para o sepultamento. Então, houve uma pressão psicológica muito grande para mim e eu segurei isso.

Adriel Ludolfo Moreira, policial civil

Adriel já era policial civil na época e recebeu apoio da corporação, mas percebeu que outras famílias poderiam não ter o mesmo suporte. “Eu percebi que, dentro da polícia, se eu quisesse procurar o serviço social, a gente tem, mas eu observei que, no pós-trauma, você não tem um apoio. Eu tinha um apoio por conta da polícia, mas se fosse uma pessoa de fora, ou você iria para um plano de saúde ou iria tentar a sorte no atendimento dos equipamentos públicos”, explicou.

Adriel - Fundador da AAFAPED
Adriel segura a foto do irmão, Joeser Ludolfo Moreira, desaparecido em 2012. Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

Logo depois da morte do irmão, Adriel foi transferido para a Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD), onde permanece até hoje. Ano após ano, o policial foi testemunhando as famílias enfrentarem os mesmos problemas e a falta de suporte para superá-los. Ele teve, então, a ideia de fundar a Associação de Apoio a Familiares de Pessoas Desaparecidas (Aafaped).

O projeto foi sendo germinado ao longo dos anos e, em 2024, Adriel conseguiu abrir a associação de forma oficial e legalizada. Hoje, a Aafaped oferece acolhimento psicológico, jurídico e social às famílias que atravessam o mesmo caminho de angústia que um dia o investigador enfrentou. 

Hoje, Adriel tem um sentimento de realização por ter transformado sua dor em soluções positivas para outras famílias.

Eu transformei a dor da perda do meu irmão nesse projeto que eu estou tentando fazer crescer. Foi uma maneira de sair desse mundo negro, desse quarto escuro e de não deixar a depressão tomar conta de mim.

Adriel Ludolfo Moreira, policial civil

Como a associação funciona

O primeiro passo quando um familiar desaparece é o registro do Boletim de Ocorrência. A partir daí, a Polícia Civil fica responsável pela investigação. Mas esse período de espera até ter alguma notícia pode ser avassalador para a vida de uma pessoa. É aí que entra a associação.

Joeser Ludolfo Moreira desapareceu em 2012 e foi encontrado sete dias depois, sem vida. Foto: arquivo pessoal.

“Depois que a pessoa faz o boletim, o Estado inicia o trabalho. Mas ela tem que ir para casa, ela tem que conviver com aquilo ali e a mente às vezes não funciona bem. Porque você tem que lidar com outras questões da sua vida formal e você não está preparado para esse choque de realidade, para o impacto do desaparecimento de um filho ou de um ente querido. E você tem que tocar a sua vida”, esclarece Adriel.

A pessoa que procura a Aafaped é acolhida por uma assistente social, que, em seguida, a encaminha para um psicólogo ou um psicanalista.

O próximo passo é o atendimento jurídico. O policial explicou que, muitas vezes, a pessoa que desaparece é a provedora da casa. Nesses casos, a família fica financeiramente desamparada. O suporte jurídico entra para avaliar o que pode ser feito por aquela família. 

“Então, a gente passa para o jurídico, e o jurídico analisa se o provedor trabalhava, se ele não trabalhava, e verifica se esse familiar vai ter direito a algum tipo de benefício, por exemplo. Muitas pessoas não sabem como correr atrás dos seus direitos, então a associação oferece tudo isso de forma rápida e clara”, destacou. 

Além desses três tipos de suporte, a associação também oferece o serviço de marketing e divulgação, um aspecto que é essencial para a mobilização das comunidades em torno das buscas pela pessoa desaparecida. Adriel explicou que a associação capta imagens para divulgação em suas redes sociais, ajuda na confecção de camisas e faz a ponte com a imprensa, quando a família deseja.

Projeto cria direito a folga para familiares de pessoas desaparecidas

Adriel testemunha muitos casos de familiares de pessoas desaparecidas que precisam se afastar do trabalho para resolver as questões relacionadas ao desaparecimento. O problema é que hoje não há uma lei que garanta esse direito. 

A pessoa me fala: ‘Adriel, tenho que voltar ao trabalho’. Aí eu me pergunto: como essa pessoa vai trabalhar tendo um familiar desaparecido? Como ela vai operar uma máquina ou dirigir um carro e sair com a cabeça preocupada desse jeito? É para ajudar essas pessoas que estamos pensando nesse projeto”, revelou.

O texto do projeto de lei ainda está em construção, e Adriel está buscando apoio parlamentar para conseguir avançar com a ideia.

Como ajudar

Para manter o funcionamento, que tem custos, a Aafaped sobrevive de doações. Para ajudar, é só fazer um pix para a chave no CNPJ 55.556.416/0001-82, em nome de Associação Joeser Ludolfo Moreira.

O telefone de contato da Aafaped é (27) 99655-4433.

Patricia Maciel

Repórter

Jornalista formada em 2011, com experiência nas principais empresas de comunicação do Espírito Santo. Também atuou como assessora de comunicação e social media.

Jornalista formada em 2011, com experiência nas principais empresas de comunicação do Espírito Santo. Também atuou como assessora de comunicação e social media.