A tranquilidade construída ao longo de anos no Espírito Santo deu lugar a sentimentos de ansiedade e expectativa para as venezuelanas More Fernandez e Gabriela Reina desde o último sábado (3), após a operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores.
Morando em solo capixaba há mais de uma década, as duas acompanham à distância os desdobramentos políticos no país de origem, que voltam a impactar diretamente a vida de familiares e amigos que permaneceram na Venezuela.
Para quem deixou o país vizinho fugindo da fome e da falta de perspectiva, a notícia carrega um peso histórico. “Chegou um ponto em que o nosso sonho se transformou em comer três vezes por dia”, revela More, que hoje atua como terapeuta, doula e estudante de Nutrição. Ela emigrou em busca de dignidade para o filho, na época com apenas 2 anos.
Já Gabriela, publicitária e hoje dona da própria empresa no Estado, relembra que a saída de deixar o país foi a única alternativa após a formatura.
“Ou eu saía do país ou ia ficar fazendo qualquer outra coisa sem oportunidade. O Brasil era o caminho mais próximo e eu simplesmente vim”, conta.

Entre a comemoração e o silêncio
Apesar da distância física, o coração das duas permanece na Venezuela, onde familiares ainda vivem sob a tensão do regime. A comunicação, segundo elas, tornou-se ainda mais limitada e perigosa após a ação dos Estados Unidos.
Mesmo com o Maduro preso, ainda existem outros dirigentes que podem arremeter contra o povo. Mas nós aqui, e eles lá, estamos comemorando. Viver 27 anos sob opressão e silêncio dói.”
Gabriela Reina, publicitária
Nesta segunda-feira (5), Maduro e Cília Flores declararam-se inocentes das acusações de narcoterrorismo em audiência no Tribunal Distrital Federal de Manhattan, em Nova York.
Repercussão política
A intervenção militar ordenada pelo governo de Donald Trump gerou reações imediatas na diplomacia brasileira e no Palácio Anchieta. Embora críticos à gestão de Maduro, líderes políticos manifestaram preocupação com o método da captura.
- Presidente Lula: Condenou o ataque, afirmando que a ação “ultrapassa uma linha inaceitável” e representa uma afronta gravíssima à soberania venezuelana.
- Governador Renato Casagrande: Seguiu a linha de repúdio à intervenção externa. O governador capixaba enfatizou que, embora não concorde com o autoritarismo de Maduro, não admite intervenções que desrespeitem a autonomia dos países.
Cenário internacional
Enquanto a ONU convoca reuniões de emergência para tratar da legalidade da operação, as famílias venezuelanas no Espírito Santo aguardam o próximo capítulo desta crise, divididas entre o alívio de ver o fim de um ciclo e o medo do que o vácuo de poder pode causar aos que ficaram para trás.
*Com informações da repórter Gabriela Valdetaro, da TV Vitória/Record.
*Texto sob supervisão da editora Elisa Rangel