Jeferson Azevedo, líder comunitário de Porto de Santana (Foto/reprodução: TV Vitória)
Jeferson Azevedo, líder comunitário de Porto de Santana (Foto/reprodução: TV Vitória)

Na Grande Vitória, o exercício da cidadania vai além das solicitações individuais feitas pelos moradores aos canais oficiais das prefeituras. A atuação de associações e líderes comunitários tem se consolidado como um elo entre a população e o poder público, para fortalecer o diálogo, organizar demandas coletivas e contribuir para soluções mais eficazes nos bairros.

Essas lideranças desempenham um papel fundamental no cotidiano das comunidades ao ouvir os principais gargalos enfrentados pelos moradores, reunir reivindicações semelhantes e levá-las, de forma estruturada, aos órgãos responsáveis. A prática tem se mostrado essencial em uma região que concentra milhares de pedidos por serviços urbanos, todos os anos, envolvendo desde iluminação pública e limpeza até infraestrutura viária e seguridade social.

Lideranças comunitárias: o elo entre moradores e poder público

Para a doutora em Ciências Sociais Tamara Lopes, a figura do líder comunitário é decisiva para transformar necessidades individuais em pautas coletivas capazes de chegarem ao poder público. Segundo ela, trata-se de uma relação de confiança construída no dia a dia dos bairros.

Tamara Lopes - Doutora em Ciências Sociais  (Foto/reprodução: TV Vitória)
Tamara Lopes – Doutora em Ciências Sociais (Foto/reprodução: TV Vitória)

Sem cooperação, a sociedade é apenas um grupo de indivíduos, um número, e nada significa. Os líderes comunitários entendem que, juntos, com as necessidades e os direitos reconhecidos, é possível fazer com que as comunidades tenham o que precisam.

Tamara Lopes, doutora em Ciências Sociais

A socióloga explica que essas lideranças podem assumir diferentes formas, formais ou informais, religiosas, jovens ou ligadas a minorias, mas compartilham uma característica central: o profundo conhecimento da realidade local.

É alguém sensível às dificuldades da localidade, capaz de reunir essas demandas e levá-las ao poder público para que políticas públicas sejam, de fato, eficientes para aquele território. O líder funciona como um filtro e, ao mesmo tempo, como uma ponte que leva as demandas e retorna com respostas à comunidade.

Tamara Lopes, doutora em Ciências Sociais

Essa mediação se torna ainda mais relevante diante da dificuldade de reunir todos os moradores em espaços formais de escuta. “É para essa pessoa que o morador diz que a rua está cheia de buracos, que o lixo se acumula, que a chuva alaga. É a essa pessoa que ele confia a própria voz”, pontua Tamara.

Como as demandas chegam à prefeitura

Na prática, esse papel se reflete no trabalho cotidiano de líderes comunitários espalhados pelos municípios da Região Metropolitana. Em Cariacica, por exemplo, Jeferson Azevedo, conhecido no bairro como Fão, assumiu a liderança comunitária após anos de atuação informal. Hoje, ele atua como articulador direto entre os moradores e o poder público.

Ser líder comunitário é entender as necessidades de cada um e assumir isso como missão. Muitas vezes, a solução está na palma da mão, porque a gente sabe para onde direcionar.

Jeferson Azevedo, líder comunitário
Da esquerda para a direita:  Jeferson Azevedo, Líder Comunitário e Márcio Zanetti - líder comunitário (Foto/reprodução: TV Vitória)
Da esquerda para a direita: Jeferson Azevedo e Márcio Zanetti, líderes comunitários em Cariacica e Vila Velha (Foto/reprodução: TV Vitória)

Segundo Jeferson, as demandas mais recorrentes envolvem vazamento de esgoto, buracos nas vias, iluminação pública e limpeza urbana. Ele relata que cerca de 90% das solicitações encaminhadas conseguem retorno, muitas vezes em poucas horas, graças ao contato direto com secretarias e equipes responsáveis. Ao mesmo tempo, destaca que a liderança também tem um papel educativo junto à população. “Não adianta só cobrar. O morador precisa fazer a parte dele. A qualidade do bairro depende dessa cooperação.”

O contato com os moradores acontece principalmente por WhatsApp e redes sociais, ferramentas que ampliam o alcance da atuação comunitária. Vídeos e registros enviados pela população são encaminhados aos órgãos competentes e, depois da solução, retornam à comunidade em forma de prestação de contas.

Em Vila Velha, Márcio Zanetti, líder comunitário há cinco anos, relata que a diversidade de demandas cresce à medida que o trabalho se consolida. “Vai desde tapa-buraco, poda de árvore e rede de esgoto até conflitos entre moradores, cuidados com animais e pedidos por festas tradicionais. Quanto mais o líder trabalha, maior a expectativa e maior o número de demandas”, afirma.

Ele destaca que muitos moradores, especialmente os idosos, encontram dificuldades no uso da tecnologia e recorrem às lideranças para registrarem solicitações. “A gente liga, faz protocolo, vai até a casa da pessoa para ajudar. É gratificante ver a situação resolvida e a alegria do morador”, relata.

Essa relação de proximidade é percebida por quem vive há décadas na comunidade. A aposentada Márcia Barros, moradora do bairro Nossa Senhora da Penha há mais de 60 anos, descreve o líder comunitário como uma extensão da própria comunidade. “Ele é um pedacinho do nosso coração. Tudo que precisa resolver, a gente liga para ele, e ele está pronto para ajudar”, conta. Segundo ela, a atuação da liderança transformou o centro comunitário e ampliou atividades para idosos e jovens, fortalecendo o convívio e a organização local.

Problemas urbanos na Grande Vitória

Lideranças comunitárias na Grande Vitória (Foto/montagem: Leiri Santana)
Lideranças comunitárias na Grande Vitória (Foto/montagem: Leiri Santana)

Os números reforçam a dimensão desse trabalho na Grande Vitória. A capital estadual Vitória conta atualmente com 78 lideranças comunitárias cadastradas; Vila Velha, 95; Cariacica, 78; e Serra, 131. Juntas, essas lideranças ajudam a organizar uma demanda expressiva por serviços urbanos.

Em 2025, Cariacica registrou mais de 49 mil solicitações, enquanto Vila Velha contabilizou mais de 13 mil pedidos ligados principalmente à limpeza urbana. Em Vitória, as principais demandas envolveram iluminação pública, sinalização, transporte e descarte irregular. Já na Serra, mais de 11 mil registros incluíram tapa-buracos, denúncias ambientais e ocupações irregulares.

Para especialistas e lideranças, a organização coletiva não substitui os canais oficiais dos órgãos públicos, mas potencializa o acesso da população aos seus direitos. Ao estruturar reivindicações, orientar moradores e manter um diálogo permanente com o poder público, as lideranças comunitárias fortalecem a participação cidadã e contribuem diretamente para a melhoria da qualidade de vida nos bairros.

Mais do que intermediários, esses líderes se consolidam como agentes de transformação social, capazes de unir vozes, construir soluções e tornar o poder público mais próximo da realidade das comunidades que representam.

Leiri Santana, repórter do Folha Vitória
Leiri Santana

Repórter

Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e especializada em Povos Indígenas.

Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e especializada em Povos Indígenas.