
Cerca de 50% de toda a água tratada de Guarapari, principal balneário turístico do Espírito Santo, é desviada por ligações irregulares antes de chegar às casas da população. A estimativa é da Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan), divulgada pelo presidente da empresa, Munir Abud.
No último caso descoberto, na tarde de quarta-feira (14), cerca de 36 mil litros de água tratada da rede pública foram flagrados sendo desviados para um rancho em Nova Guarapari. O volume é suficiente para abastecer 240 pessoas por dia.
Em entrevista ao Folha Vitória, Munir Abud narra que a prática do desvio de água potável se espalha por bairros inteiros e abastece desde residências até restaurantes, sítios, chácaras de lazer, lagos artificiais e piscinas.
Além disso, durante as ações de combate aos “gatos”, a Cesan afirma ter sido alvo de vandalismo na captação de água, como o fato registrado na noite de Réveillon, 31 de dezembro, que gerou um “efeito cascata” que comprometeu o abastecimento no balneário.
O grande problema não foi só o desvio. Na noite do dia 31, tivemos uma atuação criminosa de vandalismo em nossa captação, o que gerou um efeito cascata no comprometimento do abastecimento como um todo. Agora, é claro, se tivéssemos por completo o combate às ligações irregulares, teríamos o dobro da água que temos em Guarapari”.
Munir Abud, diretor-presidente da Cesan
Ele reforça que o abastecimento por completo seria suficiente para manter a cidade com água, sem intercorrências. Além disso, os “gatos” de água geram outro problema: a baixa pressão no caminho para as casas.
“A água até chega, mas não tem pressão para subir em alguns imóveis. Essa despressurização pode ocorrer por vários fatores, mas o mais grave de todos é a violação da rede”, destacou.
Irregularidades ficam mais evidentes no verão
Segundo a Cesan, a questão se torna ainda mais visível durante a alta temporada, quando o consumo aumenta e os pontos de irregularidade aparecem com mais facilidade.

No verão, esse número fica mais expressivo. Essa água, obviamente, começa a fazer mais falta. Não que ela não faça durante o ano, mas no verão chega a um patamar que precisamos combater, sob pena de ineficiência operacional”.
Munir Abud, diretor-presidente da Cesan
A companhia relata que chegou a identificar bairros inteiros abastecidos de forma irregular. Uma das grandes operações de fiscalização ocorreu na localidade de Cachoeirinha, área rural de Guarapari que ganhou destaque no verão.
“Encontramos problemas muito maiores do que se imaginava, inclusive lagos artificiais abastecidos com ‘gato’. Mas, como aconteceu ali, vamos expandir essa operação por toda a cidade”, declarou.
Esses furtos de água são feitos sem nenhum procedimento sofisticado: a violação é realizada de forma simples, com rompimento da rede e instalação de tubulações clandestinas direcionadas ao imóvel. “É uma violação feita de maneira irresponsável e não técnica”.

Ação policial e medidas judiciais
Após a identificação da irregularidade, a Cesan faz o “estrangulamento da ligação irregular” e informa a polícia. “Isso é uma prática criminosa. Cabe à polícia instaurar investigação e, se identificada a prática, encaminhar ao Ministério Público para eventual denúncia”, acrescentou Munir Abud.
Caso seja possível dimensionar o prejuízo e o volume de água desviado, a companhia avalia entrar com ação indenizatória. “Em caso de não identificação, a gente faz cessar a violação de nosso sistema com a remessa ao órgão de investigação criminal próprio”, disse.
Mitigação dos problemas no verão e Carnaval
Ao longo do último ano, a Cesan detalhou que promoveu uma reestruturação do sistema de abastecimento do litoral, com substituição de redes, uso de carros-pipa, ampliação de reservatórios e novas obras. Em Guarapari, por exemplo, foi inaugurado um grande reservatório em Meaípe.
Além disso, segundo o diretor-presidente, novas obras já estão em execução, com parte dos resultados previstos para o período do Carnaval e outras para o próximo verão.
Queremos estar sempre robustecendo o sistema de abastecimento de água do litoral capixaba. Sabemos que a cada ano amplia-se o número de turistas, então temos a necessidade de ampliar a capacidade do sistema de abastecimento de água. Essas obras já em execução vão surtir efeito já no carnaval e algumas delas vão servir para podermos suportar o próximo verão e pretendemos ultrapassar desafios”.
Munir Abud, diretor-presidente da Cesan