Obras de recapeamento na Leitão da Silva
Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

Imagina que você é prefeito e precisa fechar uma avenida importante por seis meses para obras. Como você comunica isso?

Opção um: avisar que haverá interdição, mostrar rotas alternativas, pedir desculpas pelo transtorno. Opção dois: contar que está construindo uma cidade melhor e explicar o que vem depois das obras. Qual gera menos revolta?

A diferença entre resistência e aceitação muitas vezes está na narrativa. Não no que você faz, mas em como explica o que faz.

Leia também: Carência de ferramentas prejudica a ascensão social

Paris entendeu isso. Quando quis revolucionar a mobilidade da cidade, apostando em criar zonas de pedestres e restringir carros, não focou no que as pessoas iam perder. Focou no que iam ganhar.

Em vez de falar de ruas fechadas para carros, falou de ruas abertas para gente. Em vez de listar restrições, apresentou um plano: queremos ser a cidade dos pedestres. Empacotou tudo sob um guarda-chuva maior, uma narrativa de futuro.

O “Plano Peatonal” de Paris promete trezentos milhões de euros de investimento, cem novas hectares de espaço pedestre, cem ruas mais seguras para crianças, visão zero acidentes. O foco está nos beneficiados, não nos prejudicados.

Claro, motoristas reclamaram. Sempre vão reclamar. Mas a população em geral entendeu o porquê. A narrativa não era sobre tirar algo de alguém. Era sobre construir algo para todos.

E aqui? No Espírito Santo, em Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica? Como nossas cidades comunicam transformações urbanas?

Quando se fecha uma rua para obras, qual é a narrativa? Foca-se no transtorno ou no benefício futuro? Quando se cria uma ciclovia, fala-se do espaço que o carro perdeu ou da cidade mais saudável que se está construindo?

Comunicação urbana não é supérfluo. É estratégia. A forma como você conta a transformação da cidade define se a população apoia ou resiste.

Paris provou que funciona. Vendeu narrativa de futuro, não lista de proibições. Focou em quem ganha, não em quem perde. E nossas cidades capixabas? Estão aprendendo essa lição ou ainda comunicam mudanças como quem pede desculpas?

Maya J. Gobira Meneghelli

Colunista

Francesa, linguista pela Ufes e mestre em comunicação política pela Universidade Internacional de Valência, pesquisa sociedade e discursos de lideranças femininas. Atua em estratégias de comunicação política e corporativa, media training e posicionamento, além de ser especialista em imagem e comunicação não verbal.

Francesa, linguista pela Ufes e mestre em comunicação política pela Universidade Internacional de Valência, pesquisa sociedade e discursos de lideranças femininas. Atua em estratégias de comunicação política e corporativa, media training e posicionamento, além de ser especialista em imagem e comunicação não verbal.