escritoras
Clarice Lispector; Rachel De Queiroz e Cecília Meireles. Foto: Governo Federal

Volta e meia eu escuto: “Não sei escolher livros para criança”; “Acabo comprando só o que a escola recomenda”. E, como a dúvida é mais comum do que parece, decidi facilitar o caminho: reuni aqui três livros de literatura infantil escritos por brasileiras que considero escolhas muito felizes para ter em casa — obras que não dependem apenas de recomendação escolar, porque se sustentam por encanto, qualidade e potência literária.

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Nessa seleção, há ainda um recorte intencional: escolhi autoras mulheres brasileiras, porque ler mulheres não é um detalhe — é uma forma de ampliar o mundo. Durante muito tempo, as vozes femininas foram menos publicadas, menos lidas e menos reconhecidas; quando colocamos escritoras no centro da estante, oferecemos às crianças outras perspectivas de sensibilidade, humor, conflito e linguagem e, também, afirmamos, desde cedo, que a imaginação, a inteligência e a autoria não têm gênero.

Ler mulheres é, portanto, um gesto literário e cultural: enriquece o repertório, diversifica referências e ajuda a formar leitores capazes de escutar mais de uma voz ao mesmo tempo.

Agora, se você decidir fazer escolhas por conta própria — sem se guiar apenas por listas escolares ou pela capa “bonitinha” da vitrine — vale levar em consideração algumas reflexões de Lígia Cademartori, em O que é literatura infantil.

A autora nos lembra, em essência, que escolher livro para criança não é tarefa que dispense critérios: trata-se de observar o livro como objeto cultural e artístico, e não como simples “ferramenta” de ensino.

Em vez de procurar apenas um tema “correto” ou uma lição explícita, o olhar se volta para aquilo que, de fato, forma leitor: a experiência estética, acuriosidade, o desejo de voltar ao texto — o livro que não se esgota numa leitura rápida, porque abre caminhos de linguagem e imaginação.

O primeiro passo, então, é começar pelo projeto gráfico. Vale reparar se o livro é, de fato, criativo e convidativo: se há um diálogo real entre texto e imagem; se a ilustração não está ali apenas para enfeitar, mas para ampliar sentidos; se a diagramação respira, conduz o ritmo, sustenta pausas e acelerações; se a tipografia (tamanho e tipo de letra) favorece o encontro da criança com a página, sem cansar, sem “apertar” o olhar.

Esses detalhes, que às vezes parecem secundários para o adulto, são decisivos para a criança, porque fazem a leitura acontecer como experiência sensível: a forma também conta história, também brinca, também dá pistas, também oferece prazer.

Depois, entra um critério igualmente importante: a coerência entre tema e leitor, considerando a idade de quem lê — não para simplificar a infância, como se a criança só pudesse lidar com conteúdos “amenos”, mas para avaliar se o livro dialoga com o repertório e a experiência de mundo próprios daquela fase.

Aqui vale observar se a narrativa, com seus personagens, acontecimentos, tempo, espaço e ponto de vista, é apreensível por quem ainda está formando vivências, sem subestimar sua inteligência.

E, por fim, há uma pergunta decisiva, que separa a obra literária do texto genérico: o livro traz uma marca singular ou apenas repete fórmulas e chavões?

Num mercado cada vez mais amplo — em que a literatura infantil também virou “filão” — a diferença costuma aparecer exatamente aí: nos livros que fazem da linguagem um jogo estético e lúdico, em que as palavras e as imagens não servem apenas para transmitir uma mensagem pronta, mas para criar surpresa, ritmo, humor, estranhamento e imaginação; em que ler, antes de tudo, é descobrir.

Com isso em mente, vamos às três escolhas — não como uma lista fechada ou “definitiva”, mas como um ponto de partida sólido para quem quer montar, em casa, uma pequena biblioteca que realmente valha a pena.

Em comum, essas obras têm aquilo que Cademartori ajuda a nomear: uma linguagem que inventa, um projeto pensado com cuidado e uma qualidade literária que não depende de modas.

Três livros de literatura infantil, escritos por brasileiras, para ler sempre. Foto: Larissa O’Hara

1) Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles

Um clássico que atravessa gerações porque toca no coração da infância: a experiência dos dilemas, dos desejos simultâneos e das pequenas grandes escolhas do cotidiano. Cecília constrói poemas curtos, musicais, cheios de imagens claras e memoráveis, que funcionam muito bem na leitura em voz alta. É o tipo de livro que a criança pede “de novo” — e que o adulto relê com prazer, porque a simplicidade aqui é forma de precisão poética.

2) Andira, de Rachel de Queiroz

Um livro narrativo, com personagem forte e atmosfera envolvente, que entrega aquilo que a criança também procura na literatura: história que puxa, aventura, tensão, curiosidade. Rachel escreve com clareza e firmeza, sem infantilizar a experiência do leitor: há deslocamentos, descobertas, sentimentos e amadurecimento, num texto que confia na inteligência de quem lê. É uma ótima opção para mostrar que literatura infantil não precisa ser “açucarada” para ser profundamente humana.

3) O mistério do coelho pensante e outros contos, de Clarice Lispector

Aqui a infância encontra uma literatura que não dá tudo pronto: convida a pensar, imaginar, estranhar. O famoso “coelho pensante” é uma história que brinca com o mistério e, ao mesmo tempo, com o modo como a gente constrói explicações — como se o livro dissesse à criança: “você também pode investigar o mundo”.

Os contos têm delicadeza, humor e um tipo de curiosidade que faz da leitura uma conversa, não uma lição. É um livro perfeito para ler junto e prolongar a experiência com perguntas — não para fechar sentidos, mas para abri-los.

No fim, a boa escolha costuma ter um sinal evidente: a criança volta ao livro porque ali há prazer — e, sem perceber, vai formando um repertório estético, emocional e imaginativo que nenhuma lista escolar, sozinha, consegue garantir.

Larissa O’Hara

Mestra e Drª em Letras

Graduada, mestra e doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com especialização em Revisão de Texto e Educação Especial. Professora há mais de 15 anos, atuou em diversas instituições e orientou centenas de alunos na preparação para a redação do Enem. Autora de variados livros. É professora efetiva do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).

Graduada, mestra e doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com especialização em Revisão de Texto e Educação Especial. Professora há mais de 15 anos, atuou em diversas instituições e orientou centenas de alunos na preparação para a redação do Enem. Autora de variados livros. É professora efetiva do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).