Foto: Thiago Soares/Folha Vitória
Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

Das poucas certezas que podemos ter como seres humanos mortais, uma delas é que, de fato, como diz a canção, “o ano termina e nasce outra vez.” Com esse ciclo, diversos sentimentos podem surgir – frustração, ansiedade, ânimo e até… medo.

Sim, medo. Porque para algumas pessoas pode ser animador encerrar um ciclo já conhecido para iniciar um novo (que pode ser completamente diferente), mas para outras esse recomeço é desesperador.

Com o novo ano, pode surgir o medo de repetir padrões, falhas, de não conseguir se organizar e por aí vai. Isso tudo porque, querendo ou não, todo fim de ciclo é como se fosse um luto. Morrem as certezas e nascem as expectativas e o imprevisível.

Além disso, ao olhar para trás e para as metas que foram feitas na última virada de ano, também podem emergir a frustração e a decepção. A vida acaba tomando outros rumos e os objetivos de ir para a academia todos os dias, estudar mais, aprender um novo hobby (insira aqui a sua meta não cumprida em 2025) vão sendo deixados de lado.

E chegar na data relacionada à uma ideia de fechamento com coisas “em aberto” pode, no lugar da esperança, criar dúvidas, insegurança… e medo.

O psicólogo Adriano Pereira Jardim explica porque o momento pode ser desafiador para algumas pessoas: “Naturalmente, estamos inclinados a reconhecer, na familiaridade, a segurança e o conforto. E as mudanças e as diferenças estão bastante associadas aos desafios e dificuldades. Então, em finais de ano, estamos sempre desafiados a equilibrar expectativas, frustrações por não termos alcançado objetivos e ansiedades com o que está por vir.”

Mas, se o recomeço é inevitável – e não só esse, mas vários pequenos recomeços ao longo da vida também -, que tal lidar com ele e com os próprios processos e expectativas de maneira mais gentil?

Para começar 2026 de maneira mais confiante, gentil e leve

Não se sente pronto?

Se o receio de iniciar um novo ciclo estiver relacionado ao fato de não se sentir pronto, André afirma que é fundamental se cercar de cuidados e atenção aos próprios sentimentos, tentando se blindar da pressão social por um funcionamento acelerado.

A dica da psicóloga Kamila Vilela é justamente retirar a obrigação de estar pronto. “Nem todo mundo termina o ano com clareza ou energia, e isso não é um problema. Às vezes, o mais saudável é abrir mão do controle total e aceitar que a organização pode acontecer aos poucos.”

Traçar metas realistas e deixar de tentar visualizar o ano inteiro de uma vez pode ajudar, segundo ela. “Vale pensar: o que eu preciso agora? Será que eu não preciso apenas, nesse momento, arrumar o armário?”.

O novo ano não precisa ser um grande plano, ele pode começar com pequenos ajustes possíveis. Não adianta querer malhar sete vezes por semana, se atualmente você não malha nem uma. – Kamila Vilela.

Listar e organizar as metas e fazer moodboard ajuda?

Muitas vezes, o fato de não conseguir visualizar com clareza os próprios planos atrapalha a jornada para a realização. Pode acontecer de, no meio do caminho, as prioridades para o novo ano serem esquecidas ou engolidas por outras demandas.

Por isso, o uso de planner para organizar as tarefas, de moodboard (quadro de visualizações) e outras estratégias para estruturar as metas tomam conta das redes sociais nessa época. Todo mundo diz que “assim não tem erro!”

Kamila acredita que dá, sim, para apostar nessas ferramentas, mas elas não podem se tornar uma fonte de cobrança. “Planner, moodboard ou listas só fazem sentido se forem flexíveis e realistas.”

Segundo a psicóloga, principalmente para pessoas emocionalmente sobrecarregadas, pode ser mais saudável não criar metas formais.

“Uma boa estratégia é substituir metas rígidas por intenções ou prioridades. Em vez de ‘vou mudar tudo’, pensar em ‘o que eu quero cuidar em mim esse ano?'”.

Para André, o mais importante é articular as expectativas e julgamentos para tentar ser capaz de aceitar a si mesmo, o tempo e os recursos disponíveis, estabelecendo uma relação com o ano novo em conformidade com a realidade pessoal.

O réveillon não é um reset

O ano novo tem uma simbologia de recomeço, mas não é como se tudo que é conhecido fosse desaparecer ou se transformar magicamente à meia-noite. A página não vira automaticamente, não é um reset da vida, como diz a psicóloga Kamila.

Por isso, segundo André, a preparação psicológica para os novos ciclos envolve uma aceitação de si mesmo, dos próprios sentimentos e limites. “Não há fórmula pronta nem igual para todos. O mais importante é nós conectarmos conosco e reconhecermos a nossa própria realidade como única, original e autêntica.”

Sendo única, a realidade individual também não deve ser comparada com as outras, diz Kamila. Segundo ela, é importante lembrar que o que os outros mostram, principalmente nas redes sociais, é apenas o resultado final, editado, não o processo – que apresenta dificuldades.

Também vale a pena focar no presente e no futuro a curto prazo. “Pequenas decisões trazem mais segurança do que grandes promessas para o futuro”, acredita Kamila.

Pequenos fins e recomeços

Aprender que a vida é cíclica e que tudo que começa pode terminar aumenta a flexibilidade das pessoas frente aos desafios. “Praticar”, então, pode ser uma maneira de se aperfeiçoar e lidar melhor com os recomeços.

Mas, prática? Sim. Ao longo de todo o ano é possível finalizar, recomeçar, fazer diferente. “Quando a pessoa espera o fim do ano para encerrar tudo, o peso emocional fica enorme”, diz Kamila.

Seja uma conversa difícil adiada, a necessidade de mudar de apartamento ou um emprego que não traz felicidade: tudo isso são ciclos que podem ser finalizados. Com planejamento, é possível ir “praticando” os recomeços.

Isso ensina que recomeços acontecem o tempo todo, e não apenas em janeiro. O novo ano deixa de ser uma prova e passa a ser apenas mais uma continuidade da vida. Ao invés de fazer o balanço do que não conseguimos, por que não fazer uma lista de gratidão ao que foi conquistado, aprendido ou superado?

Kamila Vilela, psicóloga

Sentir medo ou tristeza não é ingratidão

Para muitas pessoas, dezembro representa um luto. Pode ser pelo que não saiu como o esperado, pelas perdas ao longo de todo o ano, pelas versões de si mesmo que ficaram pelo caminho, pelos sonhos não realizados ou pelas portas fechadas.

Tendo saído como o desejado ou previsto ou não, o ano acaba e não há o que fazer em relação a isso. E o luto é assim, existe a fase da negação, da tristeza, da raiva, mas aos poucos surge a aceitação. “Lidar com isso exige acolhimento, não pressa”, afirma Kamila.

Acolher significa também entender que sentir tristeza, frustração ou medo não é o mesmo que ser ingrato.

Às vezes, a maior conquista do ano foi ter conseguido seguir e sobreviver apesar de tudo, e isso também merece reconhecimento, respeito e gentileza com o próprio processo. – Kamila Vilela.

Julia Camim

Editora de Política

Atuou como repórter de política em jornais do Espírito Santo e fora do Estado. Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa, é formada no 13º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.

Atuou como repórter de política em jornais do Espírito Santo e fora do Estado. Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa, é formada no 13º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.