
Quando iniciei Yakuza Kiwami 1 e Yakuza Kiwami 2 nesta nova versão para a geração atual, a sensação foi dupla. De um lado, conforto. Do outro, estranhamento. Voltar a Kamurocho e Sotenbori depois de tantos anos é como reencontrar um velho amigo que mudou pouco, mas agora vive em uma casa reformada.
Sou fã da série há muito tempo, e não escondo que esses dois jogos ocupam um lugar especial para mim. Em especial, Kiwami 2 carrega uma das histórias que mais me marcaram em toda a franquia. Revisitar esses capítulos depois de lançamentos recentes como Infinite Wealth só reforçou o quanto essas bases ainda sustentam tudo que veio depois.
O início de tudo ainda tem peso narrativo
Yakuza Kiwami 1 revisita o primeiro grande arco da franquia, focado no roubo dos Dez Bilhões de Ienes do Clã Tojo e na transformação brutal do círculo mais próximo de Kazuma Kiryu. Mesmo sabendo exatamente o que ia acontecer, a narrativa ainda funciona. Existe um peso genuíno na forma como Kiryu é puxado de volta para um mundo que nunca realmente o deixou ir.

O grande diferencial continua sendo o sistema Majima Everywhere. Ser interrompido por Majima nos momentos mais inesperados segue sendo caótico, engraçado e funcional. Ele não está ali só para provocar; esse sistema é o motor que reconstrói o estilo Dragon of Dojima, conectando Kiwami 1 diretamente a Yakuza 0. É aqui que a identidade da série se solidifica.
Mesmo com suas limitações, esse primeiro jogo ainda é o alicerce emocional e estrutural de tudo. Jogá-lo hoje deixa claro por que ele continua sendo essencial, mesmo para quem já conhece a história.
Kiwami 2 é onde a série realmente explode
Se Kiwami 1 estabelece as bases, Kiwami 2 as coloca em conflito total. A guerra aberta entre o Clã Tojo e a Aliança Omi transforma a narrativa em algo maior, mais intenso e mais pessoal. Ryuji Goda funciona como um antagonista memorável, não apenas pela força, mas pela ideologia. A ideia de que só pode existir um Dragão move toda a história.
Aqui, a presença de personagens como Kaoru Sayama adiciona camadas emocionais que ainda se sustentam muito bem. Mesmo após tantos anos, esse arco continua sendo um dos meus favoritos. Há equilíbrio entre drama pesado, momentos absurdos e aquele humor estranho que só Yakuza consegue entregar.

As missões secundárias seguem sendo um espetáculo à parte. Entre situações trágicas, histórias absurdas e mini-games viciantes, o jogo constantemente quebra o ritmo de propósito, e isso funciona. Voltar a essas side quests me lembrou por que passei tantas dezenas de horas aqui no passado.
Desempenho e melhorias técnicas fazem diferença
A SEGA prometeu 4K e 60 FPS, e cumpriu. Tanto Kiwami 1 quanto Kiwami 2 rodam de forma extremamente fluida. Em combate, isso faz uma diferença enorme. Desviar, atacar e reagir nunca pareceu tão responsivo.
É claro que Kiwami 2 leva vantagem. Ele nasceu mais tarde e isso fica evidente no combate, na física e na apresentação geral. Já Kiwami 1 carrega a herança de ter surgido no PlayStation 3, e isso aparece em animações mais rígidas e ambientes menos detalhados.
As melhorias de qualidade de vida são poucas, mas relevantes. Além do desempenho, a adição de múltiplos idiomas de texto, incluindo português brasileiro, é um avanço importante. É algo que muitos jogadores pediam há anos.
Nem tudo evoluiu como eu esperava
Existe um ponto que me decepcionou, mesmo não sendo exatamente uma surpresa: a ausência de transferência de saves. Não é possível levar seus dados do PlayStation 4 para continuar no PlayStation 5. Isso significa começar tudo do zero, inclusive troféus.
No meu caso, isso não foi um problema grave. Gosto demais desses jogos para me incomodar em recomeçar. Ainda assim, eu esperava pelo menos a opção de entrar direto em New Game+. Entendo que diferenças de troféus possam justificar a decisão, mas ela continua sendo um ponto negativo para quem já investiu dezenas de horas anteriormente.
O caminho de upgrade existe, mas tem regras claras
Há um pacote reunindo os jogos, com preço justo pelo volume de conteúdo oferecido. Para quem já possuía as versões digitais de Yakuza 0, Kiwami 1 e Kiwami 2 no PS4 antes de 8 de dezembro de 2025, existem upgrades bastante vantajosos.
Kiwami 2, inclusive, oferece upgrade gratuito, enquanto Kiwami 1 cobra um valor baixo. A ressalva é simples: vale apenas para versões digitais adquiridas antes dessa data. Comprou depois? Não há upgrade. Ainda assim, pagar cerca de 30 dólares por cada jogo continua sendo um excelente custo-benefício.
Visualmente datado, mas ainda impactante
Kiwami 1 claramente entrega sua idade em alguns cenários e texturas. Mesmo assim, o jogo se mantém estável, limpo e funcional. Já Kiwami 2 envelheceu muito melhor, com ambientes mais ricos e iluminação mais convincente.
Os cutscenes continuam sendo o grande destaque visual. É nelas que ambos os jogos realmente brilham. A direção, os enquadramentos e a carga emocional continuam funcionando perfeitamente. Em Kiwami 2, isso fica ainda mais evidente.
Se eu tivesse que apontar um incômodo de interface, seria o karaokê de Kiwami 1. O sistema antigo é menos intuitivo e menos agradável do que o usado em Kiwami 2 e nos jogos posteriores. Uma atualização aqui teria sido bem-vinda.
Veredito
Saí dessa nova jornada por Yakuza Kiwami 1 e Kiwami 2 com a certeza de que eles continuam valendo cada minuto investido. São jogos cheios de identidade, drama, personagens memoráveis e combate satisfatório. A trilha sonora, os mini-games e as histórias paralelas seguem inesquecíveis.
Mesmo com limitações técnicas e decisões questionáveis, como a ausência de transferência de saves, essas versões são as mais acessíveis e estáveis que esses clássicos já tiveram. Seja para quem nunca jogou ou para quem, como eu, já conhece cada esquina de Kamurocho, revisitar esses títulos ainda faz sentido.
No fim, fica a pergunta: você prefere lembrar desses jogos como eles eram, ou viver tudo de novo da melhor forma possível hoje?