Imagem obtida no siteL "Un Enterrement à Shangai" https://www.youtube.com/watch?v=2Xgjza2LvBI
Imagem obtida no siteL "Un Enterrement à Shangai" https://www.youtube.com/watch?v=2Xgjza2LvBI

O artista sino-chinês Yan Pei-Ming me chama atenção desde quando vi pela primeira vez, uma pintura dele em 2000, um retrato em preto e branco, na grande loja de materiais artísticos, Marin Beux-arts, em Paris. Agora, a nova oportunidade foi ver uma série de dez dos seus retratos na exposição Le Meilleur Tavailleur du Crous (O Melhor Trabalhador do Crous – Centre Régional des Œuvres Universitaires), que ocorreu na Galeria CROUS Paris, em dezembro 2025: dez retratos monumentais de trabalhadores do restaurante universitário Maret em Dijon, transfigurados em figuras heróicas da memória estudantil.

O que me intriga na pintura de Yan Pei- Ming? Primeiramente, a rapidez com que parece serem realizadas suas telas. Mas como uma intriga nunca aparece sozinha, vamos ver o conjunto – o impacto dos seus grandes formatos, pinturas em telas que são verdadeiros murais medindo de de 5 a 9 metros de extensão. Depois, a sua capacidade de fazer um retrato como se fosse fácil e a grande semelhança que seus retratos guardam com os retratados. Em seguida, a decisão de pintar sempre em preto e branco. E, por último, as pinceladas rápidas, gestuais, certeiras, mas feitas como se fossem ao acaso. Como acertar assim, pinceladas uma sobre a outra e ao lado, quase como um croquis? E ainda imprimir tal verossimilhança com os retratados?

Retrato do artista. Imagens extraídas do site “Un Enterrement à Shangai”. https://www.youtube.com/watch?v=2Xgjza2LvBI

Há certamente uma rapidez em suas pinturas e desenhos, há também velocidade e urgência, mas não há acaso e nenhuma pressa. A rapidez em seu trabalho é um efeito onde se soma técnica, maestria, talento e uma mirada que busca ao final um efeito: o da presença, da frescura, do corpo que se emociona.

Na exposição “O Melhor atrabalhador do Crous” pude ver isso de perto as telas, com fundo branco ou cinza, que deixam aparecer os rostos dos retratados como se elas tivessem sido acabadas de pintar, ou como se ainda estivessem em processo. Sim, os escorrimentos e respingos da tinta nas pinturas dizem isso: o artista trabalhou aqui e interrompeu a pintura nesse ponto. Esses quadros poderiam ser continuados, seguindo a tradição da pintura a óleo, mas ele as interrompeu aqui. Deixou para espectador completar com o olhar.

Outros exemplos podem ser vistos nos retratos de detentos e trabalhadores da principal prisão de Roma mostrada no novo espaço de arte contemporânea criado pelo Departamento para a Cultura e a Educação da Santa Sé. E também nos retratos da sua mãe, família e amigos criados para a pintura instalação no Musée D´Orsay: Un Enterrement à Shangai, um recriação da obra de Gustav Courbet, Un enterrement à Ornans.

“O enterro em Shangai”. Imagens extraídas do site “Un Enterrement à Shangai”. https://www.youtube.com/watch?v=2Xgjza2LvBI

Toda essa insistência numa figuração, marcada pelo gesto, pelas imagens documentais, intriga mas é também um festa para os olhos e para o gênero do retrato. Deixo aqui a fala do artista em uma entrevista concedida a Chiara Corridori, publicada em 14 de setembro 2025:

CC: O retrato é o gênero pictórico que você prefere. Por quê?
YPM: É o espelho do homem, de sua identidade. Está presente em todos os lugares: na política, em documentos pessoais… O retrato na arte é a memória da humanidade. Um homem pode ser anônimo, desconhecido, mas graças à pintura acreditamos que ele permanecerá eterno. O retrato é a nossa vida.

Imagem do artista. Extraída do site “Un Enterrement à Shangai”. https://www.youtube.com/watch?v=2Xgjza2LvBI

CC: Olhando para suas pinturas, podemos reconhecer algo de nós mesmos?
YPM: Trabalho meus retratos por meio de sentimentos e emoções, eles são os elementos-chave neste tipo de obra. Quero que falem com todos. Que sejam como um espelho no qual se olha. Um espelho que reflete de volta ao espectador sua identidade.
CC: Uma citação sua: “O retrato é importante tanto para o pintor quanto para quem o observa”. Você pode explicar?
YPM: O pintor se expressa. O espectador recebe; enquanto observa, ele pode imaginar e criar uma emoção.

CC: Os olhos frequentemente se voltam para o observador, um clássico da composição renascentista. Que tarefa você lhes atribui?
YPM: Você nunca deve desviar o olhar do seu oponente. O olho é o espírito dos seres vivos, dos animais, dos homens. O olhar devolve a expressão: o olho se expressa. Ele confere espiritualidade ao olhar.

CC: O retrato é frequentemente escolhido como tema. Uma forma de mergulhar dentro de si mesmo?
YPM: Sempre os fiz. O tempo passa e até os retratos envelhecem gradualmente. Quero que minha imagem permaneça nesta terra após minha morte.

CC: A tradição do retrato faz sentido na exploração da identidade contemporânea?
YPM: A fotografia é a nossa contemporaneidade, é verdade, e o retrato a óleo é uma ferramenta tradicional, mas que nunca sai de moda. Existem muitas novas tecnologias digitais que disseminam imagens, mas o pintor continua indispensável: a mente e as mãos nunca podem ser substituídas pelo digital. Pelo contrário, quanto mais imagens houver, mais o artista fortalecerá sua legitimidade, sua personalidade e a de sua pintura.

Fernando Augusto

Colunista

Artista plástico, pintor, desenhista e fotógrafo. Professor do Departamento de Artes da UFES. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP - Sorbonne).

Artista plástico, pintor, desenhista e fotógrafo. Professor do Departamento de Artes da UFES. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP - Sorbonne).