A Vitória de Samotrácia. Museu do Louvre. Foto: Fernando Augusto
A Vitória de Samotrácia. Museu do Louvre. Foto: Fernando Augusto

Há muitas razões para se visitar o Louvre em Paris. Ele é referência para muitos museus no mundo e guarda obras que influenciaram toda a história da arte ocidental. Algumas de suas peças são verdadeiros ícones. Uma vez, um guia francês para grupos de visitantes asiáticos, disse-me que o seu roteiro tinha três obras obrigatórias, para os quais ele não podia deixar de levar os visitantes: a Vitória de Samotrácia, a Mona Lisa e o maior diamante do mundo.

A Vitória de Samotrácia é a icônica escultura grega helenística do século II a.C., representando a deusa da vitória. Exibida majestosamente no alto de uma escadaria, ela pode ser vista de longe, e, quando chegamos perto, a seus pés, os visitantes se revezam para fazerem uma selfie com ela ao fundo.

Sobre o diamante eu nunca tinha escutado falar, trata-se do Diamante Régent, uma pedra de cerca 140 quilates, de pureza excepcional, encontrada na Índia e comprada pelo Regente Filipe II de Orléans, no século XVIII. Esse diamante, conhecido por seu brilho intenso, adornou coras e monarcas como Luís XV e Napoleão I, mas tem fama de ser amaldiçoado e, talvez por por isso, inexplicavelmente não foi roubado no famoso assalto ao Louvre, em 19 de outubro de 2025.

A Mona Lisa (ou La Gioconda), exposta na Salle des États, é a obra mais famosa de Leonardo da Vinci. Trata-se de uma pequena pintura (77×53 cm), óleo sobre madeira executada com muitas interrupções, entre os anos 1503 a 1516 . O quadro representa uma mulher, em meio corpo, com as mãos à frente do corpo, apoiadas num suporte, olhando diretamente para o espectador com uma expressão serena.

Sala da Mona Lisa. Museu do Louvre. Foto: Fernando Augusto.

Eu já visitei o Louvre diversas vezes, mas, desta vez, fui mais especificamente para ver o movimento da multidão que ininterruptamente se acotovela para ver o quadro de Da Vinci, fotografar-se diante dele e ir embora. As filas vão se afunilando até chegar-se a um cordão de isolamento, cerca de sete metros da obra, onde vários seguranças esperam que você olhe por cerca de um ou dois minutos e, em seguida, abrem o cordão para que os grupos saiam lateralmente, uns pela direita, outros pela esquerda. Eles ainda avisam: “N’arretez pas! N’arretez pas!” Não parem! Não parem! Porque a fila precisa andar.

Nesse ordenado tumulto, as pessoas olham o quadro, fotografam, fazem uma selfie, sorriem e se vão. O que viram? Acho que nem elas mesmas podem dizer. Já ouvi pessoas falarem que não gostaram da Mona Lisa, ou que não a acharam nada bonita, que não entendem porque ela é tão famosa, etc. Na verdade, eles não tiveram tempo ou talvez nem foram alí para ver a pintura, mas para participar de um ritual, que é o de ter estado naquela sala, o de ter passado perto daquele quadro e o de ter-se fotografado lá. Depois vão ler, ou já leram, sobre o sorriso e o olhar indecifráveis da Mona Lisa. E o mistério continua.

Sala da Mona Lisa. Museu do Louvre. Foto: Fernando Augusto.

A divulgação ou a fama da Mona Lisa, hoje, de certa forma, impedem que ela seja realmente vista. Penso que as pessoas chegam diante Mona Lisa tentando ver o que já foi dito e propagado, ver o que outros já viram, o que às vezes até já definiram. Por isso aceitam olhar à distância, olhar sem chegar perto, olhar sem ter tempo. Mas a experiência de ver realmente é individual. É uma experiência cerebrina e também emocional. Por isso digo que se não nos emocionamos de alguma forma, não vimos. Não vimos o que esperávamos ver lá. O olhar nos devolve o que buscamos nos objetos. E o mistério das coisas continua.

Sala da Mona Lisa, vista do quadro “As bodas de Caná” (1562-1563), pintura de Paolo Veronese, Museu do Louvre. Foto: Fernando Augusto.

Com um pouco de teimosia, resistindo à pressão da multidão, dei um passo à frente, voltei-me para os espectadores, e mesmo escutando o grito do segurança para não parar, olhei por um instante os espectadores chegando para ver a Mona Lisa e os fotografei. Foi apenas uma torção, um instante, mas que me revelou uma imagem nova. Mas aí é outra história. Outro dia escreverei sobre esta torção.
Por ora, talvez seja pertinente perguntar, como o faz Fernando Pessoa sobre o mistério das coisas: “o mistério das coisas onde está ele que não aparece. Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?” E ficarmos sem resposta. Porque a resposta já não faz sentido.

Fernando Augusto

Colunista

Artista plástico, pintor, desenhista e fotógrafo. Professor do Departamento de Artes da UFES. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP - Sorbonne).

Artista plástico, pintor, desenhista e fotógrafo. Professor do Departamento de Artes da UFES. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP - Sorbonne).