
Uma das séries artísticas que desenvolvo é nomeada “Em Conserva”. Ela tem por característica manter, em conserva, coisas que habitualmente não estariam nessa condição, contudo, no contexto da arte visual, se torna possível e uma das peças dessa série é “Seixos”.
Para melhor desenvolver o assunto é bom iniciar pelo conceito de seixo. De acordo com alguns apontamentos técnicos: Seixo é um fragmento de origem mineral ou rochoso, menor do que bloco ou rocha e maior do que grânulo. Na escala geológica de Wentworth, corresponde a diâmetros maiores do que 4 mm e menores do que 64 mm., portanto, é um pedaço de rocha de pequena dimensão.
Os seixos apresentam formatos variados, mas são, em geral, arredondados por conta do rolamento ao qual é submetido nas águas nas quais tem origem. Costumam ser chamados também de cascalho e são encontrados em depósitos de leitos de rios e oceanos.
O que me levou a pensar a respeito deles foi o fato de encontrar alguns em caminhadas que realizava, no período em que residi em Florianópolis, na Praia do Müller e Praia de Fora, ambas conhecidas como Praias da Avenida Beira-Mar. Era comum encontrar, na faixa de areia tomada pela maré, pequenas pedras que se assemelhavam a seixos, pelo sim pelo não, comecei a recolhê-las. Contudo, ao pegá-las percebi que não eram fragmentos de rocha, portanto, não poderiam ser enquadradas na categoria de seixos e aí? O que seriam?
Observando mais atentamente percebi que eram fragmentos cerâmicos ou de terracota, nesse caso, a coisa mudou de figura. A natureza, por suas proezas, é capaz de transformar fragmentos de rocha em seixos por rolamento em águas, ou seja, fragmentos, pedaços de rocha angulares ao caírem nos rios vão se tornando arredondados pelo atrito exercido sobre e entre eles na correnteza a ponto de arredonda-los e poli-los, assim nascem os seixos.
Contudo essa ação não para aí, continuam sendo reduzidos até atingir o estado de grânulos ou de areia que se encontra depositada em leitos de rios ou praias. Nesse caso, o seixo é um estado intermediário entre a rocha e a areia. Um processo geológico muito interessante, mas seixos cerâmicos não existem por obra e feito da natureza, então: seriam ou não seixos?
Bem, aqui entra um aspecto mais interessante ainda: para que exista cerâmica há que haver ação humana. Alguém que, em algum momento, coletou argila, modelou-a e deu-lhe alma forma e utilidade como, por exemplo, jarros, potes, telhas ou tijolos, os queimou e colocou em uso.
Como o passar do tempo esse uso se esgotou: o jarro quebrou, a casa ruiu e seus fragmentos caíram em rios ou no mar e aí começou a saga dos fragmentos cerâmicos semelhante à dos seus ancestrais rochosos. Rolando dali e daqui foi moldado, refregado e transformado: antes um simples caco e depois uma peça roliça, mesmo sem o brilho e polimento da rocha, mas dotada da simpatia afetiva da terracota.
O percurso cumprido por eles, desde a argila manipulada para se tornar um objeto ou peça útil até voltar à natureza depois de ter esgotado sua função, representa um ciclo completo, mesmo não sendo rocha, também será areia, pelo fato de ter se tornado seixo.
Contudo, por um capricho do destino, meu e deles, ao serem recolhidos se tornaram parte de um novo processo que, nesse caso, não se esgota. Portanto, ao fazerem parte de uma proposição artística, conservam sua preciosidade: a vivência matérica registrada em suas formas pelo percurso realizado, muito semelhante aos ciclos de vida, sob esse ponto de vista, passam a ser olhados pelos filtros poéticos e existirem no contexto da arte.