
Confesso que eu não estava muito curioso para assistir “A Empregada”. Nunca li os livros da saga, não sou particularmente fã do diretor e, sinceramente, o marketing do filme não me chamou atenção. Parecia mais um suspense psicológico genérico, algo no máximo “ok”. Entretanto, ao assistir o longa, fui surpreendido positivamente.
O filme tem seus problemas, especialmente na estrutura narrativa. Algumas reviravoltas podem ser antecipadas por quem presta atenção nos detalhes, nada de extremamente chocante, mas isso não impede que a história funcione.
Clichê, mas bem executado
O roteiro do longa consegue criar um ambiente sólido, delinear situações e construir os personagens de forma convincente dentro dessa atmosfera estranha, aproveitando os clichês como base para algo bem executado. Ou seja, mesmo quando o espectador prevê o que vai acontecer, a experiência não deixa de prender, graças à forma como cada elemento é apresentado.

Um dos pontos mais interessantes é como o filme utiliza “trufas narrativas” ao longo da trama. Elementos que foram apresentados anteriormente ganham nova relevância quando revisitados, trazendo ao longa um efeito de “segunda leitura”, em uma segunda exibição, vários detalhes se tornam ainda mais claros e recompensadores.
Isso adiciona novas camadas na narrativa, tornando a experiência mais rica do que uma simples reviravolta central. Desde o início, há a sensação de que algo está errado na casa e nas relações entre os personagens. A atenção do espectador é constantemente estimulada, principalmente quando a situação de perigo se intensifica.
Personagens com camadas
O elenco é outro destaque do filme. Sydney Sweeney e Amanda Seyfried entregam performances sólidas, dentro do tom proposto pela história. Seyfried como Nina se sobressai em diversas camadas, mostrando nuances de tensão, ameaça e vulnerabilidade que fortalecem o suspense.
Já a jovem Sweeney, que vive Millie, também está ótima e trazendo uma energia interessante à sua personagem, que compartilha a percepção de que algo está fora do lugar, e o público consegue sentir essa mesma insegurança.
Também merece uma menção especial para o ator Brandon Sklenar, que vive o Andrew. Embora seja discreto na maior parte do filme, ele consegue roubar a cena em momentos-chave, especialmente no desfecho.
A obra também toca em questões sensíveis sobre gênero, desigualdade social e relações de poder. Mostra como posições privilegiadas se sobressaem sobre outras menos favorecidas, ao mesmo tempo em que expõe dinâmicas machistas e atitudes elitistas presentes na sociedade. Esses elementos tornam a experiência mais significativa do que um simples thriller de mistério.
No fim, a produção deixa uma sensação positiva e desperta interesse por uma sequência (já confirmada) e pela saga literária original. É um exemplo de como, mesmo com limitações estruturais, é possível combinar performances competentes e temas relevantes, sem precisar reinventar a roda. Um início de ano promissor para quem gosta de tensão e boas interpretações.