
A franquia “Avatar” já está consolidada como um fenômeno comercial, um triunfo técnico e, infelizmente, um fracasso narrativo recorrente. James Cameron segue transformando os Na’vi em ícones globais enquanto parece travar uma guerra pessoal contra algo chamado roteiro. Visualmente? Impecável. Tão impecável que você chega a esquecer que o filme deveria contar uma história.
Por trás de toda a exuberância digital, “Avatar: Fogo e Cinzas” não passa de mais uma vitrine tecnológica caríssima, exibida como se isso, por si só, fosse cinema. Não há risco, não há inovação e muito menos profundidade. É o mesmo filme de sempre, com outro cenário, mas a mesma alma… inexistente.
Quem são vocês mesmo? (de novo)
Se essa saga fosse minimamente bem escrita, personagens como Jake Sully e Neytiri seriam inesquecíveis. Mas a realidade é cruel, afinal, depois de três filmes, mal lembramos quem é quem. São arquétipos ambulantes, sem densidade, sem evolução e sem qualquer carisma que sustente três horas de projeção.

Neytiri ainda tenta salvar alguma coisa na base da presença, enquanto o protagonista Jake continua sendo aquele personagem especialista em tomar decisões erradas, a ponto de provocar mais irritação do que empatia. Já Quaritch segue firme no posto de vilão genérico reciclado, provando que nem morrer em filmes anteriores garante desenvolvimento.
Spider, por sua vez, ganha mais espaço e mais responsabilidade, o que só torna tudo ainda pior, quando deveria melhorar. O arco dele nesse filme até tinha potencial, mas a execução é tão truncada e o próprio personagem continua sendo esse alívio cômico involuntário, mas que agora é forçado a carregar a trama.
Enquanto isso, Kiri, que parecia ser uma grande promessa narrativa, tem seu “clímax” esvaziado, sem impacto algum, quase constrangedor, digno de um “Aquaman” em dia ruim.
Sensação de Déjà Vu
É quase irônico como, após tantos anos e bilhões arrecadados, Cameron ainda não consegue gerar envolvimento emocional real. “O Caminho da Água” já era excessivamente longo, repetitivo e cheio de furos, e este terceiro capítulo finge aprender com os erros, mas apenas recicla praticamente todas as situações, muda o figurino e segue em frente como se ninguém fosse perceber.
A Tribo das Cinzas e a vilã Varang até sugerem algo novo. Há presença na personagem, uma estética forte e um vislumbre de conflito interessante tanto com Jake quanto com Neytiri.
Mas o filme rapidamente abandona qualquer ideia promissora, como se tivesse medo de sair da zona de conforto. Introduzindo promessas que não se cumpre ao longo do filme. O título promete fogo, mas só entrega as cinzas jogadas por cima.
Cameron mantém a narrativa em banho-maria, claramente apostando que “se tiver mesmo um próximo filme, a gente resolve”, algo que não deve acontecer visto que ele continua a repetir todos os mesmos erros, desperdiçando tudo o que poderia ser diferente. Sim, há cenas impressionantes, daquelas de cair o queixo. Mas isso não sustenta uma história que parece um trailer inflado para três horas de duração.
No fim das contas, “Avatar: Fogo e Cinzas” é cansativo, repetitivo e frustrante. Um filme que sonha em ser um grande épico como “Star Wars” ou “Senhor dos Anéis”, mas entrega algo medíocre, vazio e sem alma. Um lembrete caro (caríssimo, na verdade) de que efeitos especiais não substituem personagens, conflitos e, principalmente, uma boa história.