
Eis que o Disney+ resolve abrir as portas para o cinebiografia de Mauricio de Sousa, o arquiteto emocional da infância de boa parte do Brasil. O criador da “Turma da Mônica”, responsável por alfabetizar gerações inteiras, merecia sim um filme à altura de sua importância histórica.
O problema é que “Mauricio de Sousa: O Filme” parece ter confundido cinema com material institucional, e entregou, com orgulho, uma espécie de vídeo motivacional de fim de convenção corporativa (e sim, é triste dizer isso).
O resultado está longe de ser ofensivo, mas também passa longe de ser inspirador. Sem falar que o longa é guiado por um discurso de superação tão repetido que poderia vir acompanhado de trilha de palestra coach.
Filme prefere sorrir a questionar
Sejamos sinceros, é impossível não admirar Maurício de Sousa e a dimensão colossal de sua obra. Justamente por isso, causa estranhamento o quanto o filme parece confortável demais em se autopromover. A cinebiografia não investiga, não provoca, não tensiona. Ela apenas confirma, cena após cena, que estamos diante de um gênio, e pronto, assunto encerrado.

A narrativa percorre todos os pontos obrigatórios do gênero como a infância humilde, o incentivo familiar, as portas fechadas, a persistência do artista e a vitória final, como se estivesse marcando itens de uma checklist.
O problema não é a estrada, mas a completa ausência de curvas.
O filme também parece acreditar piamente que elogiar Maurício o tempo inteiro basta para sustentar duas horas de narrativa. Os diálogos abusam de chavões sobre fé, sonho e família, como se cada cena precisasse reforçar um mantra motivacional.
Nada arranha, nada incomoda, nada escapa demais do controle ao ponto de nos preocuparmos. O protagonista é santificado a tal ponto que nunca erra de verdade, nunca cai de verdade e, portanto, nunca corre risco algum. Então, quem exatamente deveria se emocionar com isso? Crianças? Adultos nostálgicos? O próprio filme parece não saber.
Outros filmes recentes provaram que a fórmula não é, por si só, o vilão. Por exemplo, “Homem com H” utilizou estruturas clássicas, mas apostou em risco, linguagem e personalidade. Infelizmente, aqui a identidade está em falta. A direção até tenta parecer criativa com telas divididas e referências visuais aos quadrinhos, mas tudo soa decorativo.
Cadê o homem por trás do gênio?
A semelhança física de Mauro Sousa com seu pai biografado ajuda, e há carisma, mas falta repertório para sustentar um papel central em um longa desse porte. Sua interpretação se apoia quase exclusivamente em sorrisos largos e expressões afáveis, funcionando melhor como símbolo do que como personagem.
A origem dos personagens é explicada de forma quase pedagógica, como se o público precisasse de um manual, mesmo sendo a coisa mais óbvia do mundo. Já episódios como o boicote e a acusação de subversão, são tratados de forma protocolar, quase envergonhada, como se fosse melhor não mexer muito nisso.
Funciona como homenagem? Sim. Pode agradar quem busca uma experiência doce e nostálgica? Sem dúvida. Mas, ao tentar proteger demais a imagem de Maurício de Sousa, o filme mitifica o gênio e perde o homem que teria rendido um filme muito mais honesto e muito mais interessante.