A nova versão de “Anaconda” está a anos-luz de ser algo revolucionário para o cinema, mas também não merece o rótulo preguiçoso de desastre que parte da crítica tentou colar antes mesmo da cobra dar o ar da graça. É comédia besteirol? Sem dúvida. Mas é daquele tipo que sabe muito bem o que está fazendo.

O filme não só ri do público, mas principalmente da própria indústria, que insiste em ressuscitar tudo o que já deu dinheiro um dia. Dentro dessa proposta, ele funciona melhor do que muita gente vai admitir em voz alta.

Qual a proposta de Anaconda?

Jack Black e Paul Rudd dão uma nova cara para a franquia (Foto: Reprodução/X/SonyPicturesBr)

A desconfiança inicial faz sentido, afinal, estamos falando de uma releitura de um longa de 1997 que foi espancado pela crítica, mas abraçado pelo público com carinho quase familiar – um daqueles filmes que viviam alugados na locadora e reuniam a família no sofá no domingo à noite. Fica claro que a ideia não é “corrigir” o passado e tornar o projeto em um terror respeitável, e sim assumir o fracasso de ontem como combustível criativo de hoje. 

Desde cedo, o roteiro não tem interesse em profundidade psicológica, ou grandes discursos. Tudo gira em torno do exagero assumido, da sátira e, principalmente, da metalinguagem. É um longa que tira sarro do conceito de reboot, da nostalgia empacotada como produto e da obsessão de Hollywood em reciclar ideias antigas com cara de novidade. 

A viagem até a Amazônia surge menos como um gesto artístico e mais como um ato de desespero coletivo. É a famosa crise da meia-idade que o filme busca destacar, especialmente para quem já passou da fase dos sonhos ilimitados e começou a fazer contas – emocionais e profissionais. Nesse sentido, a trama absurda funciona quase como uma metáfora nada sutil de revisitar o passado na esperança de consertar o presente.

Quando a cobra gigante finalmente deixa de ser apenas ideia e vira problema real, o filme abraça de vez o caos. A mistura de ameaça animal, garimpeiros e confusão generalizada eleva tudo a um nível quase cartunesco. Ainda assim, o tom nunca se perde: tudo é tratado como paródia, como se o longa estivesse o tempo todo piscando para o espectador e lembrando que nada ali deve ser levado a sério

Elenco de astros estrangeiros e uma estrela brasileira

Selton Mello chama a atenção no elenco e rouba as cenas (Foto: Reprodução/X/SonyPicturesBr)

O elenco parece completamente confortável nesse terreno escorregadio. Jack Black entrega exatamente o que se espera dele: carisma, exagero e aquela sensação constante de que ele está interpretando ele mesmo, o que, convenhamos, é parte do pacote. Paul Rudd funciona como um contraponto interessante, encarnando a frustração de quem sonhou alto e aterrissou mal. 

Steve Zahn assume o papel do adulto que se recusa a crescer, enquanto Thandiwe Newton tenta dar algum lastro emocional ao grupo, representando conflitos mais reconhecíveis da vida adulta. No fundo, todos compartilham o mesmo medo: o de não terem se tornado aquilo que imaginaram anos atrás.

Mas preciso destacar o personagem vivido por Selton Mello, que poderia facilmente escorregar para o estereótipo mais raso, mas se destaca graças à entrega divertida do ator. Mesmo com tempo de tela limitado, ele rouba cenas e se torna um dos pontos altos de toda a experiência.

No fim das contas, “Anaconda” é um filme que sabe exatamente o que é, e talvez mais importante, o que não é. É um filme honesto que assume o absurdo da própria existência, mesmo que soe raso demais, mas que ainda pode divertir uma boa parcela do público.

É uma comédia cheia de altos e baixos que, ao menos, tem a elegância de rir de si mesmo – e às vezes, rir junto é mais do que suficiente.

Gabriel Miranda

Repórter

Jornalista em formação pela Estácio de Sá, faz parte da redação da TV Vitória e está à frente do quadro "Só Soundtrack Boa" na Jovem Pan Vitória. Com olhar atento e conhecimento de cinema e cultura pop, escreve sobre filmes, séries, bastidores e tudo que movimenta esse universo pop.

Jornalista em formação pela Estácio de Sá, faz parte da redação da TV Vitória e está à frente do quadro "Só Soundtrack Boa" na Jovem Pan Vitória. Com olhar atento e conhecimento de cinema e cultura pop, escreve sobre filmes, séries, bastidores e tudo que movimenta esse universo pop.