
“Marty Supreme” pode até ser vendido como a história de ascensão de um ícone esportivo, mas essa leitura é, no mínimo, superficial. O novo filme de Josh Safdie está muito mais interessado em examinar o fracasso, seja moral, social ou humano, do que em oferecer qualquer narrativa inspiradora típica do cinema esportivo.
Aqui, o triunfo nunca é pleno, a glória é sempre provisória e o sucesso cobra um preço alto demais para ser comemorado. Marty Mauser é um jovem judeu obcecado por se tornar o maior jogador de tênis de mesa do mundo, assim como Timothée Chalamet busca ser “um dos grandes” em Hollywood, e agora teve essa oportunidade de provar.
A falha do sonho americano em uma história incomoda
Diferente dos protagonistas carismáticos e perseverantes que costumam habitar esse gênero, Marty é um personagem profundamente desagradável. Ele mente, manipula, trapaceia e comete diversos crimes sem qualquer remorso. Não por necessidade imediata, mas por acreditar, quase religiosamente, que nasceu para algo maior do que a vida comum que o cerca.
Não é uma trajetória de superação, mas sim uma comédia de erros frenética, caótica e desconfortável. O esporte, aliás, ocupa um espaço curioso no filme ao aparecer com força apenas no início e no fim, enquanto o miolo do filme se dedica a expor a degradação ética do protagonista.
O tênis de mesa, na verdade, é uma metáfora da obsessão, a mesa não é um palco, mas um funil onde toda a energia dispersa do filme converge.

A direção é elétrica, a montagem é agressiva e os diálogos parecem atropelar uns aos outros. Não há espaço para respiro, com outros longas dirigidos por Safdie, como “Joias Brutas”.
Somos lançados em uma sequência incessante de situações improváveis para um filme “sobre esporte”. Passamos por cenas de apostas ilegais, golpes, humilhações públicas e até jogos de poder que evidenciam o quão frágil é o sonho americano quando observado de perto.
O filme também opera como uma crítica feroz ao mito da meritocracia. Ninguém “vence na vida” jogando limpo nessa história, e todo o sucesso parece sempre condicionado à trapaça, à exploração do outro e à disposição de atravessar qualquer limite moral. Marty manipula os sentimentos de suas amantes e usa os amigos como degraus descartáveis.
Relações humanas são moedas de troca nesse sistema de jogo sujo, e a presença do milionário Milton Rockwell simboliza a engrenagem maior que tenta domesticar e engolir Marty. É o capitalismo em sua forma mais crua, e a luta do protagonista oscila entre honra e ego, resistência e submissão.
No fim, fica claro que, por maior que seja sua obsessão, o sistema sempre cobra sua parte e geralmente sai vencedor.
Uma história potencializada pelo ator
Timothée Chalamet entrega aqui, muito provavelmente, a performance mais intensa de sua carreira. Magro, desajeitado, monocelhas e óculos grossos, seu protagonista está longe de ser o ideal heroico americano cultivado por décadas no cinema. Ainda assim, há algo de hipnotizante em sua presença.
O ator equilibra a arrogância, a fragilidade e um charme torto que torna impossível desviar o olhar, mesmo quando tudo o que o personagem faz provoca repulsa, sendo um candidato fortíssimo ao Oscar.
Diferente de outros grandes concorrentes da temporada, como Wagner Moura, Chalamet trabalha no excesso, no ritmo e no colapso. Enquanto Moura impressiona pela maturidade dramática, representando o auge de um ator que domina plenamente suas ferramentas, Chalamet chama atenção pelo risco e pela intensidade quase autodestrutiva da composição. Vai ganhar o prêmio? É bem provável, mas apenas saberemos em março.
Porém, não podemos deixar de citar os problemas do longa. Subtramas se acumulam, temas se repetem e a estrutura episódica, quase como uma “babaquice da semana”, começa a gerar fadiga em dado momento.
Quando o filme se aproxima de seu clímax, o momento de “crescimento” do protagonista soa apressado e artificial, destoando do rigor que o filme construiu até ali.
Mesmo com esses tropeços, há muito a ser admirado. As partidas de tênis de mesa são cheias de energia e precisão, e diferente de outras produções recentes que estilizam demais o esporte, a obra consegue transmitir veracidade e impacto.
O treinamento obsessivo de Chalamet, que treinou por anos, inclusive durante outros projetos, se traduz em credibilidade em cena.
Concluindo, “Marty Supreme” é menos sobre vitória e mais sobre movimento. A bola vai e volta sobre a mesa, assim como as chances, as quedas e os recomeços. Não há triunfo definitivo, apenas ciclos que se repetem.
Uma produção caótica e profundamente crítica, que usa o esporte apenas como cenário para discutir ambição, identidade e o vazio que se esconde por trás do sonho americano.