
O novo filme de Paul Thomas Anderson, “Uma Batalha Após a Outra”, chegou à HBO Max deixando claro, desde os primeiros minutos, que o diretor não está interessado em repetir estruturas clichês nem em oferecer conforto ao espectador. O filme define seu ritmo logo de cara: acelerado, caótico e deliberadamente desconcertante.
Aqui, não existe aquele herói aposentado que volta à ação quando um familiar é sequestrado, nem o vilão movido por vingança genérica. Essa cartilha já foi reciclada até a exaustão. Então, Anderson faz exatamente o oposto e usa ela como base, desmontando arquétipos e transformando o familiar em algo estranhamente novo.
No lugar do imbatível astro de ação, temos o desastrado personagem vivido por Leonardo DiCaprio em um de seus trabalhos mais interessantes dos últimos anos. Ele não é um justiceiro implacável cheio de força bruta, mas sim, um homem quebrado, às vezes patético e às vezes brilhante, e justamente por isso, humano.
Viva La Revolución!
O longa acompanha Bob e Perfidia, ex-integrantes de um grupo revolucionário envolvidos em ações que desafiam um governo militarizado e protegem imigrantes em um país cada vez mais hostil – tema em alta nos EUA.
O passado dos dois é feito de explosões, ideais e erros irreversíveis; o presente, porém, cobra seu preço quando o coronel Steven J. Lockjaw reaparece e arrisca tudo o que Bob construiu ao lado da filha Willa, em segredo.
Com quase três horas de duração, o filme poderia ser cansativo, mas Anderson evita esse perigo apostando em um ritmo que dá para sentir o tempo passar, mas nunca como peso morto. Cada cena carrega propósito, seja narrativo, político ou emocional. O filme não se permite pausas longas porque o mundo que ele retrata respira urgência.
Visualmente, cada movimento e corte parecem conspirar a favor da tensão, criando um fluxo quase hipnótico. A trilha sonora também impulsiona o filme para frente e intensifica o estado constante de alerta que os personagens estão passando.
Ação e comédia de um jeito diferente

O que pode surpreender muita gente é perceber que, apesar de toda essa densidade, o filme é também uma comédia afiadíssima. As gargalhadas surgem do desconforto, do absurdo e da imprevisibilidade. DiCaprio brilha especialmente ao explorar o ridículo do próprio personagem.
Benício Del Toro, como um sensei latino improvável, rouba cenas e adiciona camadas inesperadas à narrativa. Chase Infiniti, como Willa, funciona como o coração silencioso do filme. Não há personagem desperdiçado. Todos existem para reforçar a ideia de que ninguém sai ileso de um mundo que vive em guerra constante.
Agora, o personagem de Sean Penn é de longe um dos maiores destaques do filme. O antagonista funciona na medida certa entre o caricato e o ameaçador, tudo potencializado com a atuação monstruosa do ator que é considerado um dos melhores de todos os tempos.
Mais do que uma história de perseguição ou ação política, a obra é uma sátira brutal do presente. Anderson critica o autoritarismo, a hipocrisia das elites, o uso seletivo da força do Estado e a fragilidade dos movimentos revolucionários quando confrontados com medo, oportunismo e cansaço.
O filme não escolhe lados fáceis nem romantiza a resistência. Pelo contrário, expõe suas falhas com a mesma honestidade com que denuncia seus inimigos.
Seria o filme do ano?
No fim, temos um longa daqueles que não pedem aprovação imediata, mas exigem envolvimento. É um cinema que provoca, cutuca e ri na cara do espectador enquanto o obriga a encarar contradições que preferiria ignorar.
Este retrato nervoso de um mundo em colapso certamente será um dos favoritos ao filme do ano nas cerimônias do cinema. No fim, cada vitória é temporária e cada luta é apenas o início da próxima.