O final da temporada mais divisiva da série (Foto. Reprodução/X/@Stranger_Things)
O final da temporada mais divisiva da série (Foto. Reprodução/X/@Stranger_Things)

Encerrar uma série que atravessou quase uma década, moldou uma geração de espectadores e se tornou um símbolo cultural não é tarefa simples. O último episódio de “Stranger Things”, lançado na noite de 31 de dezembro, assume essa responsabilidade apostando fortemente na memória afetiva.

Com cerca de duas horas de duração, o capítulo final tenta equilibrar duas missões complexas: resolver a ameaça que paira sobre a cidade de Hawkins e, ao mesmo tempo, oferecer desfechos emocionais para personagens que acompanharam o público por anos.

O resultado é, no mínimo, correto. Há emoção, há despedidas significativas e há um esforço evidente em respeitar tudo o que foi construído desde o início. No entanto, também fica claro que a série opta por um caminho mais confortável do que ousado. A sensação é a de um final funcional, mas evita correr riscos maiores justamente quando a expectativa era de algo mais marcante para os fãs.

Ressalto que o texto a seguir vai conter spoilers, portanto, recomendo que assistem o episódio para que tirem suas próprias conclusões antes de retornarem.

Um encerramento que olha para o passado

O confronto final contra Vecna e o Mundo Invertido (Foto: Reprodução/X/@Stranger_Things)

O confronto derradeiro contra Vecna ocupa boa parte da narrativa e entrega cenas visualmente impactantes. Ainda assim, a resolução do conflito segue uma lógica excessivamente linear, fazendo do vilão mais um obstáculo a ser superado, e não a uma ameaça imprevisível. A urgência apresentada nas temporadas anteriores perde parte da força, e o suspense dá lugar a soluções que parecem mais seguras do que criativas.

Por outro lado, o episódio adiciona novas camadas ao vilão ao dialogar com elementos apresentados em “The First Shadow”, peça teatral canônica que explora as origens do antagonista. Essas conexões enriquecem a mitologia para os fãs mais atentos, especialmente nas cenas ambientadas na caverna e na perseguição das crianças. Ainda assim, fica a impressão de que a narrativa poderia ter sido mais ousada na primeira metade do episódio.

A previsibilidade, em alguns pontos-chave, como por exemplo, a morte da Kali, dilui o impacto emocional que poderia ser muito maior, embora neste ponto da história, o público já esteja emocionalmente investido com o restante da trama o suficiente para seguir envolvido. Embora, não mude o fato que ainda há muitos furos de roteiro que permeiam a temporada.

Entre os destaques, Jamie Campbell Bower mais uma vez se sobressai. Curiosamente, o personagem causa mais desconforto quando aparece com o rosto humano, sem os artifícios visuais do monstro, deixando transparecer sua natureza manipuladora e perturbadora apenas pelas expressões.

O episódio também reserva momentos emocionalmente fortes para Joyce Byers, cuja trajetória de dor finalmente encontra algum tipo de encerramento. Mesmo com menos espaço conforme a série cresceu, sua presença no final carrega um peso simbólico importante.

Hora das despedidas

A força dos personagens é o coração de toda a série (Foto: Reprodução/X/@Stranger_Things)

Onde o episódio realmente encontra seu brilho é no tratamento dado aos personagens. Existe um cuidado evidente em respeitar a trajetória de cada um, oferecendo cenas que dialogam com quem eles foram e com o que se tornaram ao longo de todas lutas. A passagem de tempo, de 1987 para 1989, abre espaço para o fechamento, justamente onde o episódio mais brilha.

Onze volta a ocupar o centro da narrativa. Apesar de ter ficado relativamente apagada em vários momentos desta quinta temporada, sua atuação no episódio final, especialmente na cena do sacrifício, resgata traços da personagem que conhecemos desde o início, mas agora amadurecida.

A decisão de preservar a maioria dos protagonistas, evitando perdas definitivas, pode soar frustrante para quem esperava consequências mais duras, mas também revela uma escolha clara dos criadores: recompensar esses personagens e tornar este encerramento o mais acolhedor possível. Os irmãos Duffer mantêm o controle da narrativa até o fim, sem se deixar levar por teorias externas.

Outros personagens também ganham momentos significativos, alguns leves, outros profundamente emocionais. Dustin ganha uma das cenas mais bonitas do episódio, misturando leveza e emoção de acordo com tudo o que o personagem representa. Já Mike sente o seu luto e enxerga novas formas de lidar com a vida após tudo que aconteceu.

A última cena, retornando à mesa de “Dungeons & Dragons”, remete diretamente à infância e às primeiras aventuras. Os personagens são os mesmos, mas profundamente transformados. Há uma clara passagem de bastão para uma nova geração, simbolizando crescimento, despedida e continuidade da vida fora de Hawkins. É um momento que emociona justamente por reconhecer que aquela fase chegou ao fim.

Um final agridoce para um fenômeno cultural

No saldo final, este último episódio não compromete o legado da famosa produção da Netflix, se despede de forma competente, mas sem a ousadia que poderia elevar a um patamar lendário. Em compensação, sobra respeito pela história e pelos personagens, além de uma carga emocional que dificilmente deixa o espectador indiferente.

O ponto final chega no momento certo, antes que o desgaste se torne irreversível. Ao longo de quase dez anos, a produção conseguiu se manter coesa, evoluir junto ao seu público e mesmo que não seja perfeito, ainda é um adeus sensível de um verdadeiro fenômeno da cultura pop que marcou uma geração inteira.

Gabriel Miranda

Repórter

Jornalista em formação pela Estácio de Sá, faz parte da redação da TV Vitória e está à frente do quadro "Só Soundtrack Boa" na Jovem Pan Vitória. Com olhar atento e conhecimento de cinema e cultura pop, escreve sobre filmes, séries, bastidores e tudo que movimenta esse universo pop.

Jornalista em formação pela Estácio de Sá, faz parte da redação da TV Vitória e está à frente do quadro "Só Soundtrack Boa" na Jovem Pan Vitória. Com olhar atento e conhecimento de cinema e cultura pop, escreve sobre filmes, séries, bastidores e tudo que movimenta esse universo pop.